Em cerca de 70% dos casos, a paralisia cerebral não leva a comprometimento intelectual, acarretando apenas consequências motoras. Apesar disso, muitas crianças nesta condição, em vez de terem suporte pedagógico para compensar as deficiências físicas e continuar no ensino regular, acabam tendo seu desenvolvimento tolhido ao serem tratadas como possuidores de deficiência intelectual.

Isso foi revelado pela pesquisa “Deficiência física neuromotora: um estudo das políticas e seus desdobramentos na educação infantil”, que avaliou as políticas de inclusão de dois municípios da Região Metropolitana de Curitiba. O estudo foi realizado entre 2016 e 2017 por Claudovil Barroso Junior, professor da rede estadual de ensino do Amapá, que, pelo trabalho, recebeu o título de mestre do Programa de Pós-graduação em Educação da UFPR.

Segundo constatado por Barroso Junior, as práticas de inclusão têm um foco muito grande na deficiência o que prejudica o desenvolvimento do indivíduo. “Observa-se que a maioria dos discursos teóricos sobre a educação da pessoa com deficiência física neuromotora causada por paralisia cerebral ainda se encontram aliados à concepção clínico-terapêutica”, revela o estudante.

Defesa da dissertação de Claudovil Barroso Junior; o trabalho foi orientado por Sueli Fernandes, referência em estudos sobre inclusão de pessoas comdeficiência.
Foto: Marcos Solivan.

Barroso Junior, que além de pesquisador é professor de educação especial, explica que é preciso haver uma concepção mais ampla sobre a inclusão. Segundo ele, é necessário que se veja o estudante “como uma pessoa que tem potencialidades a desenvolver e aperfeiçoar, mediante constantes estímulos fundamentados na pedagogia da inclusão, com a intenção de romper as amarras sociais para conquistar o direito de ser, estar e querer viver sua diferença”.

A pesquisa abordou as políticas de inclusão na educação básica das cidades de Colombo e de Pinhais. Pesquisando casos específicos de crianças que sofrem com a condição, descobriu que enquanto em Pinhais há uma política mais acertada, que segue a legislação, em Colombo o modelo de inclusão tende a prejudicar os estudantes.

O estudo revelou que os estudantes em vez de terem suporte para compensar as deficiências físicas e continuar no ensino regular, acabam sendo tratados como se tivessem uma deficiência intelectual

Barroso Junior não escolheu o tema por acaso. Ele sofreu uma paralisia cerebral causada por falta de oxigenação ao nascer, o que o levou a desenvolver uma deficiência física neuromotora. Assim, além da experiência com a educação especial, vivenciar esta condição o ajudou a subsidiar o trabalho. O pesquisador e professor, que retornará para as salas de aula do Amapá, explica que o principal desafio que enfrentou em relação à deficiência não foram as dificuldades neuromotoras, mas as barreiras criadas pelas atitudes que as pessoas costumam ter em relação à condição. (veja na entrevista ao lado).

Uma nova visão de si mesmo

Acompanhe trechos da entrevista da Ciência UFPR com o autor do estudo.

Qual foi sua motivação e qual o diferencial de sua pesquisa?

A motivação de produzir a pesquisa, cuja temática é a deficiência física neuromotora causada por paralisia cerebral, se deve ao término das minhas crises existenciais como pessoa que possui essa deficiência. O diferencial da minha pesquisa é o desejo de romper com os discursos ideológicos que associam tal deficiência a uma doença degenerativa ou a um estado vegetativo. Essas concepções materializam práticas de captura de um corpo “doente” com a intenção de cura a partir de um padrão de normalidade.

Você pesquisou as cidades de Colombo e Pinhais. Qual é a situação nesses municípios?

Minha pesquisa teve como recorte o texto da Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva, publicado em 2008, que estabelece que alunos com deficiência devem frequentar a sala de aula comum e, no contraturno, ter o atendimento educacional especializado, e também a pesquisa de [Louize Mari] Rocha, que apontou a existência de fila de espera, caráter substutivo na escolarização [quando a criança passa a ter aulas em ambiente separado dos demais estudantes], fragilidade no atendimento na educação infantil para crianças com deficiência, nos municípios da Região Metropolitana de Curitiba. A pesquisa indicou que, apesar dos constantes avanços na construção de políticas educacionais na perspectiva inclusiva, o município de Pinhais encontra-se em concordância com o que estabelece o documento, já o de Colombo encontra-se em descompasso.

Quais abordagens têm sido aplicadas nas ações de inclusão e quais seus problemas?

Em minha pesquisa, observa-se que a maioria dos discursos teóricos sobre a educação da pessoa com deficiência física neuromotora (paralisia cerebral), ainda se encontram aliados à concepção clínico-terapêutica, concebendo apenas a deficiência e, não a partir da concepção socioantropológica, que a veja como uma pessoa que tem potencialidades a desenvolver e aperfeiçoar, mediante constantes estímulos fundamentados na pedagogia da inclusão, com a intenção de romper as amarras sociais para conquistar o direito de ser, estar e querer viver sua diferença.

O primeiro estudante da UFPR com paralisia cerebral a concluir o mestrado foi o advogado Luiz Marlo de Barros Silva, em 1991, no Programa de Pós-graduação de Direito. Em 2000 ele concluiu também o doutorado no mesmo programa.

📖 Publicado originalmente na edição 4, ano 3, da Revista Ciência UFPR (2018).
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