A doença de Chagas é conhecida pela forma clássica de transmissão, por meio do bicho barbeiro. O Trypanosoma cruzi, agente causador da doença, é um protozoário que mede entre 22 a 26 micrômetros (cerca de 0,0022 centímetro) e está presente no intestino do inseto vetor. A picada lesiona a pele e, ao coçar, as fezes do inseto entram no local lesionado. Essa é a via habitual que o parasito encontra para ir até a corrente sanguínea.

Entretanto, são os casos de transmissão oral, cada vez mais comuns no Brasil, que levaram pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) a estudarem outras vias de contaminação. “Nossos trabalhos com Trypanosoma cruzi começaram em 1997. Encontrávamos muitos animais infectados, como gambás, e isso despertou nossa curiosidade, pois a Organização Mundial de Saúde apontava o Brasil como zona livre de transmissão da doença. Em 2002, publicamos um artigo alertando sobre a possibilidade de contaminação, já que o protozoário estava presente no ciclo silvestre”, conta a professora e pesquisadora Vanete Thomaz Soccol.

Em 2005, um surto epidêmico da doença em Santa Catarina, por meio do consumo de caldo de cana, pegou de surpresa o sistema de saúde brasileiro. O Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia da UFPR, que já realizava pesquisas na área, focou os trabalhos para encontrar o parasito em alimentos, com a preocupação de padronizar as metodologias utilizadas.

Parceria envolve conscientização dos produtores que compõem a cadeia do açaí. Foto: Márcia do Carmo/MTUR

No ano seguinte, foram registrados os primeiros surtos causados por açaí contaminado na região Amazônica. Quando o bicho barbeiro é moído com o fruto, o parasito é liberado para a pasta do açaí.

Desde então centenas de casos da doença de Chagas são notificados todos os anos, concentrados principalmente na região Amazônica do País. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde Público do Pará (Sespa), foram 311 casos da doença em 2016 e 258 em 2017, quase 90% deles (86,8%) ocorreram por transmissão oral.

 

Equipe chegou a processo que elimina parasita do alimento após quatro anos de testes

Tal panorama rendeu uma parceria entre a UFPR e a Universidade Federal do Pará (UFPA). As instituições começaram a atuar juntas em busca de respostas sobre a origem de contaminação do bicho barbeiro com o açaí, métodos eficientes de eliminação do Trypanosoma cruzi do alimento e métodos padronizados de detecção que fossem menos invasivos e com maior rapidez.

O projeto foi aprovado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) agência de fomento à pesquisa do estado do Pará.

A equipe trabalhou em testes durante quatro anos para garantir, com segurança, a eliminação do Trypanosoma cruzi do alimento. “Usamos métodos sanitizantes, com hipoclorito de sódio e calor visando a eliminação do parasito. Chegamos ao tratamento técnico aplicado aos frutos, chamado de branqueamento, realizado a 80 graus celsius por dez segundos. O Trypanosoma cruzi não resiste à imersão do fruto nessa temperatura. No caso da bebida, o processo de pasteurização é eficiente para eliminar o protozoário. Até então não tínhamos essas respostas”, conta Ana Caroline de Oliveira, doutoranda da UFPA, que realizou a parte experimental da pesquisa na UFPR sob orientação de Vanete Soccol.

A resistência do T. cruzi chamou atenção. “Chegamos a conclusão de que o protozoário causador da doença da região Amazônica é mais resistente tanto à temperatura quanto a concentrações de sanitizantes. Descobrimos que ele sobrevive 24 horas na bebida e, no fruto, encontramos a presença por até 32 horas. Tempo suficiente para permitir a contaminação por ingestão”, destaca Ana Caroline.

O projeto também desenvolveu o método PCR real time (PCR – Reação de cadeia em polimerase em tempo real) para detectar se há ou não T. cruzi presente no alimento. “Antes identificávamos apenas a presença do parasito, mas poderia estar morto e precisamos saber quando ele está vivo no hospedeiro, no açaí, ou em outros alimentos. Foi aí que desenvolvemos a técnica PCR em tempo real, através da transcrição reversa”, diz Vanete Soccol que coordena o projeto.

O processo do PCR em tempo real dura cerca de duas horas, enquanto o convencional pode levar dias para apresentar os resultados. Anteriormente estes testes eram feitos em animais de laboratório e consumiam muito tempo.

“Uma indústria não pode aguardar um longo tempo para comercializar o produto. É necessário um método rápido, preciso e específico para esse micro-organismo. A técnica PCR em tempo real é rápida para detectar a presença do Trypanosoma cruzi no açaí”, afirma Ana Carolina.

Protozoário que causa doença de Chagas vive no intestino dos barbeiros. Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília

A colaboração entre universidades permitiu unir expertises. “A parceria foi fundamental, pois a experiência da UFPR com o Trypanosoma cruzi já era grande, e desenvolver um método para detectar o protozoário em açaí não era tarefa fácil. Ou seja, colaborando entre instituições conseguimos cumprir as metas”, avalia Hervé Rogez, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e do Centro de Valorização Agro-alimentar de Compostos Bioativos da Amazônia da UFPA.

O projeto, denominado “Implantação de métodos rápidos ou alternativos para o monitoramento do Trypanosoma cruzi”, propõe um controle de qualidade para indústrias e pequenos produtores, realizando amostragem por bateladas.

De acordo com a pesquisadora Vanete Soccol da UFPR, o método é essencial para a exportação do açaí, realizada pela região Amazônica. “Já provamos que o protozoário sobrevive na pasta do açaí. Se houver contaminação, o produto poderá ser rejeitado. Queremos que essa cadeia alimentar não tenha risco”, indica.

Maior controle de qualidade

O desenvolvimento do método da pesquisa para detecção da presença de Trypanosoma cruzi vivo no material e a possibilidade de fiscalização das amostras do produto permitem a determinação de controle e melhoria de qualidade.

De acordo com o professor da UFPA Hervé Rogez, o método rápido e confiável permitirá melhorar a qualidade do produto. “Poderemos exigir boas práticas de fabricação de açaí e teremos como fiscalizar amostras de forma adequada”.

Novo método produz resultados em poucas horas e dispensa testes em animais

No mês de março, representantes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e das Secretarias de Saúde do município de Belém e do estado do Pará reuniram-se para atualizar o regulamento técnico do padrão de identidade e qualidade do açaí. A normativa em vigor atualmente é do ano de 2000, quando o açaí ainda não tinha grande abrangência em outros estados brasileiros e nem fora do País. O novo padrão nacional, ainda não aprovado, exigirá que todo açaí comercializado seja isento de Trypanosoma cruzi. O ministério vai passar a fiscalizar o controle de qualidade.

Ana Caroline afirma que a alteração vai trazer benefícios. “Será um ganho muito grande para o consumidor, pois haverá a garantia de que o produto é fiscalizado. Também precisamos fortalecer o trabalho educativo fora de Belém. Uma vez determinada, a normatização será expandida para todo o Brasil e alcançará desde pequenos estabelecimentos até grandes indústrias que comercializam para várias regiões do País”.

“Nossa maior perspectiva é a aprovação dos novos padrões de identidade e qualidade do açaí. A consequência será a diminuição do número de casos de doença de Chagas no estado do Pará e no País. Na sequência, o terreno será propício para a inovação em açaí, o suco com maior teor em antioxidante do Brasil”, aponta o professor Hervé Rogez.

O método desenvolvido abrange pesquisa de Trypanosoma cruzi em matriz alimentar, podendo ser realizado em outros produtos.

“Nós, como universidade, temos o objetivo de repassar a pesquisa para os órgãos competentes. Estamos dispostos a transferir para quem precisar, quanto mais gente tiver acesso à metodologia, melhores exames e resultados mais rápidos serão feitos. Não é uma metodologia para ficar na prateleira, é para ser transferida para a população”, ressalta a professora Vanete.

Aprofundamento da pesquisa

A fase experimental do projeto analisou o fruto já colhido, adquirido em mercados locais de Belém. Uma amostra apresentou resultado positivo para a presença do protozoário.

Também foram analisadas 300 amostras de pasta de açaí, mas em nenhuma foi encontrado Trypanosoma cruzi vivo. Entretanto, os pesquisadores afirmam que é preciso manter a vigilância.

O açaí garante o sustento de milhares de pessoas na região Amazônica. A maior parte da produção é voltada para a agroindústria

Vanete Soccol explica que a pasta é espessa, o que gera novas demandas para a pesquisa. “Há muito material de gordura, queremos desenvolver uma forma de recuperação do parasito dessa pasta. A nossa metodologia recupera 87%, o próximo passo é melhorar a taxa para termos 100% de recuperação na pasta do açaí. Estamos estudando as propriedades físicas e químicas da pasta para encontrar um surfactante capaz de dissolver a gordura e recuperar a quantidade total de Trypanosoma”, indica a professora.

Trabalho junto aos produtores

O açaí garante o sustento de milhares de pessoas na região Amazônica. A maior parte da produção é voltada para a agroindústria. Em outros locais do Brasil existem frutos similares, como a juçara – uma palmeira nativa da Mata Atlântica. Além do controle de qualidade em larga escala, também é necessário olhar para a produção dos pequenos produtores.

Hervé Rogez conta que desde 1998 é realizado um trabalho educativo de melhoria da qualidade. “Fazemos esse trabalho junto aos produtores, ao longo da cadeia produtiva do açaí. Vários órgãos públicos e associações estão envolvidos”, diz.

“É preciso ensinar os processos. Se algum fruto fica de fora, sem ter contato com a temperatura determinada pelo método, o protozoário permanecerá vivo. O trabalho educativo é muito importante, caso contrário vamos continuar tendo casos de doença de Chagas”, explica a pesquisadora Vanete Soccol.

📖 Publicado originalmente na Revista Ciência UFPR (V. 3, nº 4, 2018).
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