Do erótico ao grotesco, do explícito ao invisibilizado, a representação do corpo nas artes plásticas é tema de um projeto de iniciação científica liderado pela professora Stephanie Dahn Batista, do Departamento de Artes (Deartes) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que busca entre quase 12 mil obras dos acervos de cinco museus curitibanos o significado das expressões artísticas do nu.

Iniciada em 2013, a pesquisa descobriu 685 obras que expressam o corpo em suas diversas dimensões. O desafio do projeto, depois de identificar as peças, é buscar os sentidos que, entre pinturas, fotografias e gravuras, foram sendo construídos esteticamente por estes artistas.

Boa parte das obras são tipos mais tradicionais, corpos clássicos e figurativos, além de expressões de interesse anatômico. O clássico nu feminino deitado é um desses exemplos, mas o estudo descobriu também outras facetas. “Foram identificadas obras com representações surreais, distorcidas, bizarras e monstruosas da figura humana, nus em grupos, nus solicitárias, ativos ou passivos, recebendo inscrições discursivas de classe, raça e gênero a partir do potencial de sua performatividade”, revela a professora.

A maioria das obras são tipos tradicionais, mas foram identificadas representações surreais e distorcidas da figura humana

Entre os museus pesquisados estão o Museu Oscar Niemeyer (MON), do qual foram analisadas 152 obras (em um acervo de cerca de 3 mil); o Museu Municipal de Arte (MuMA), que teve estudadas 146 obras entre suas 3,8 mil; o Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC), do qual 116 obras se encaixaram no estudo em um acervo de cerca de 1,5 mil; o Museu da Gravura, com 193 obras entre suas cerca de 2 mil obras; e o Museu da Fotografia, com 78 obras entre 1.459.

A estudante Erica Storer, uma das estudantes de Artes Visuais que integra o projeto, se debruçou sobre a grande quantidade de obras com corpos fantasmagóricos e grotescos encontrados no Museu da Gravura. Segundo Stephanie, a influência do expressionismo nesse tipo de linguagem explica a representatividade dessas criações.

Assim como Erica, cada estudante que participa do projeto explora um tema relacionado ao levantamento. “No escopo da pesquisa encontramos estudos sobre a representação de corpos fora do padrão, sobre peças produzidas durante a ditadura militar, imagens de nus em grupo e as relações de gênero expressas nas obras”, explica Stephanie.

Também há espaço para a pesquisa em torno de artistas específicos. O grande número de desenhos de Bem Ami, presente no acervo do MON, por exemplo, levou a estudante Iuska Wolski a analisar as obras e a biografia do pintor argentino.

O projeto foi um desdobramento da pesquisa de doutorado feita por Stephanie. A professora trabalhou com nus produzidos no século XIX, no Rio de Janeiro, portanto obras do período imperial. O estudo explorou perguntas como “quais são os corpos possíveis de serem representados?” e “quais são os corpos do imaginário brasileiro daquela época?”. As indagações foram transportadas para a atual pesquisa, que se debruça em produções do século XX e XXI – período de produção da maior parte das obras dos acervos curitibanos.

Trabalho com acervos oferece experiência aos estudantes

Para Stephanie, trabalhar diretamente com os acervos é uma oportunidade para os estudantes. “Os alunos ficam encantados quando conhecem as reservas técnicas dos museus, que são o museu por trás dos bastidores, o coração onde há todas as coleções em mapotecas, painéis e armários. Trabalhar com os originais em mãos é uma outra relação com seu objeto de pesquisa”, explica a professora.

Além deste trabalho, os estudantes participaram de todo o processo da montagem da exposição que trouxe ao grande público alguns dos resultados das pesquisas (ver box ao lado). “As bolsistas acompanharam todos os passos da produção desde a expografia, a montagem, layout e identidade visual, junto das equipes do MON, uma experiência profissional de curadoria no maior museu do Estado” conta Stephanie.

DIMENSÕES PERCEBIDAS NAS OBRAS

O estudo resultou na exposição ‘Vestidos em Arte – Os nus dos acervos públicos de Curitiba’ no Museu Oscar Niemeyer (MON) com a participação curatorial dos pesquisadores. A mostra construiu um percurso com as sete principais dimensões percebidas na expressão estética destas obras:

1. O corpo como objeto artístico – analisa o desafio estético da representação do corpo;
2. O corpo na academia – expressa o estudo da anatomia e da proporção, lugar central no ensino da arte da figura humana;
3. O corpo e seu desejo – a representação de desejos e prazeres do erotismo, traz à tona os devaneios e fantasias em torno do sexo e das relações amorosas;
4. O corpo vem em gênero – as inscrições das dimensões feminina e masculina nas representações mostram que nenhum corpo é neutro;
5. O corpo bizarro e grotesco – visualiza a imagem fantasmagórica, surreal ou distorcida trazendo luz a este lado misterioso do corpo;
6. O corpo fragmentado – a representação de partes do corpo explorando a fragmentação dos sujeitos;
7. O corpo invisível – destaca os corpos que estão à margem, padrões hegemônicos vigentes.

📖 Publicado originalmente na Revista Ciência UFPR (V. 3, nº 4, 2018).
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