Vida e imaginário no Vale do Ribeira marcado pela fuga de Carlos Lamarca Diversidade da região que foi cenário do cerco militar aos guerrilheiros inspira estudos no projeto de pesquisa e extensão Indígenas, Quilombolas e Napalm
Cerca de 20 comunidades indígenas habitam o Vale do Ribeira, a maioria delas da etnia guarani mbyá. A aldeia Takoa Takuari foi fundada em Eldorado (SP) como compensação à perda de terras da comunidade Tenondé Porã pela construção do Rodoanel, na Grande São Paulo. Pesquisadores do Lapeduh têm coletado relatos do estilo de vida da aldeia e levantado demandas de formação dos professores de educação indígena. Na foto, o menino (“ava’i”, na língua da etnia) Erik, de três anos. Fotos: Fabio Ferreira

Na divisa entre Paraná e São Paulo, o Vale do Ribeira abriga, em 28,3 mil quilômetros quadrados, paisagens que fizeram a região ser considerada Patrimônio da Humanidade em 1999, além de comunidades tradicionais indígenas e quilombolas.

Somado a isso, um episódio histórico faz a fama do vale: foi o local escolhido para guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), liderados pelo ex-militar Carlos Lamarca, receberem treinamento em 1970.

GALERIA | Álbum de fotos do Vale do Ribeira
Timóteo Wera Mirim, cacique daaldeia Takoa Takuari, fuma seu cachimbocom fumo de rolo durante cerimônia na casade rezas da comunidade
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Timóteo Wera Mirim, cacique daaldeia Takoa Takuari, fuma seu cachimbocom fumo de rolo durante cerimônia na casade rezas da comunidade
Lenildo, de 13 anos, confecciona adereçostípicos. Ele é responsável por fazer aspinturas nos rostos de todas as crianças daaldeia. Uma iniciativa do projeto do Lapeduhserá elaborar um livro sobre as histórias eo cotidiano da aldeia para uso em sala deaula, obra hoje inexistente na biblioteca da comunidade
Testemunha da Guerra de Registro -  Oscar Vieira Alves, que,na época com 20 anos, foi mateiro (guia) dos guerrilheiros. Para ele, que acreditava serem caçadores, ficou a lembrança da ajuda que prestavama moradores, como para levá-los ao hospital
Testemunha da Guerra de Registro - Miguel Pedroso, filho de fazendeiro que havia hospedado os guerrilheiros (e acabou por denunciá- -los), estava dirigindo a caminhonete que os levaria a outra cidade quando ocorreu o primeiro conflito, em Eldorado. Saiu ileso do tiroteio ao se jogar de bruços no chão
Testemunha da Guerra de Registro - Leonel de Souza vivenciou a forma como os militares reprimiram moradores em busca de informações. Lembra-se dos guerrilheiros como “bandidos procurados”
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A passagem do grupo paramilitar pelo vale incluiu uma emboscada preparada pela polícia e pelo Exército que levou 41 dias de guerra à região, terminando com a fuga de Lamarca, bombardeios com napalm, prisões e mortes (inclusive de militares). Foi a chamada Operação Registro, uma memória que até hoje impacta a vida de moradores.

O projeto reúne cerca de 20 pesquisadores que se dedicam a diferentes abordagens da história do vale, da educação recebida por indígenas e quilombolas à documentação das lembranças das população

Esse caldeirão está no centro do projeto de pesquisa “Indígenas, Quilombolas e Napalm: uma História da Guerrilha do Vale do Ribeira”, desenvolvido no Laboratório de Pesquisa em Educação Histórica (Lapeduh) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) desde 2016.

Coordenado pela professora Maria Auxiliadora Schmidt, o projeto reúne cerca de 20 pesquisadores que se dedicam a diferentes abordagens da história do vale, da educação recebida por indígenas e quilombolas à documentação das lembranças de moradores, guerrilheiros e militares em vídeo, texto e fotografias.

Com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por meio do edital “Memórias Brasileiras”, histórias colhidas pelo projeto se tornarão um livro didático em quadrinhos, ilustrado por Robson Vilalba, que deve ser lançado no fim do ano e será distribuído gratuitamente.

📖 Publicado originalmente na edição 4, ano 3, da Revista Ciência UFPR (2018)
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