Positivista e defensor da homeopatia em uma época de discussões exaltadas sobre os caminhos da medicina moderna, Nilo Cairo (1874-1928) foi um intelectual de paixões, descreve tese de doutorado editada em livro. Foto: "UFPR - História e estórias" (2007)/Reprodução
Positivista e defensor da homeopatia em uma época de discussões exaltadas sobre os caminhos da medicina moderna, Nilo Cairo (1874-1928) teve a biografia descrita em tese de doutorado. Foto: "UFPR - História e estórias" (2007)/Reprodução

Quem passa pela Praça Santos Andrade, no centro da capital paranaense, e vê o imponente busto que abriga os restos mortais de um dos fundadores da mais antiga universidade do Brasil, cujo prédio histórico estampa o marco cultural de Curitiba, não imagina a vida múltipla e polêmica que teve Nilo Cairo da Silva. Médico, engenheiro militar, professor e bacharel em Matemática e Ciências Físicas, o intelectual fez escolhas e defendeu convicções que o levaram a se posicionar na contracorrente de uma época.

Trabalho bibliográfico tenta fugir da mitificação de Nilo Cairo para devolver-lhe dimensão humana, com paixões e contradições, fraquezas e equívocos

A carreira militar sempre foi vista por ele como um meio que o possibilitasse estudar. Em seu meio principal de atuação, a Medicina, defendia incessantemente a homeopatia e criou rixas com opositores e partidários. Enquanto professor, lecionou disciplinas como patologia e fisiologia, não tendo a oportunidade de ensinar, de forma acadêmica, a homeopatia que pregava em uma época em que os médicos se voltavam para os avanços da bacteriologia, que guiou a consolidação da Medicina Moderna. Foi também professor preocupado com a liberdade de ensino, movido pelos ideais positivistas, e até agricultor.

A trajetória de Nilo e suas histórias foram reunidas pelo professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Ipojucan Calixto Fraiz, que desenvolveu a tese de doutorado “Nilo Cairo, a medicina e a Universidade do Paraná” no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da instituição. Defendida em 2014, e editada em livro em 2020, a análise bibliográfica revela a humanidade de Nilo Cairo da Silva, tão conhecido como busto de praça, e esclarece sua relação de amor e frustração com a medicina.

O trabalho lança olhar para o personagem a partir de um referencial sociológico que permite estabelecer as relações do indivíduo em sua configuração social. Assim, Fraiz tenta fugir da mitificação de Cairo como um incansável lutador pela homeopatia e pela Universidade do Paraná e devolver-lhe sua dimensão humana, suas paixões e contradições e suas fraquezas e equívocos. A tese deu origem ao livro com mesmo nome, publicado pela editora CRV e disponível em formato físico e digital. A orientação da tese e coautoria do livro é do professor José Miguel Rasia, professor de Sociologia da UFPR.

O percurso do fundador da UFPR foi tecido por Fraiz a partir de materiais bibliográficos como cartas, artigos de jornais, livros publicados, biografias e relatos de historiadores. Ele se debruçou sobre esses elementos para narrar episódios e fases, até então, pouco conhecidas da vida de Nilo Cairo.

Um polemista entre os polemistas do século XIX

Nilo Cairo nasceu na cidade de Paranaguá em 12 de novembro de 1874. Realizou sua formação superior no Rio de Janeiro, capital da recém-proclamada República do Brasil, onde em 1891 ingressou na Escola Militar. Fez o curso de Engenheiro Militar, bacharelou-se em Matemática e Ciências Físicas e adquiriu o grau de doutor na Faculdade de Medicina.

Enquanto a maioria dos estudiosos do Instituto Hahnemanniano reviu posições extremadas sobre a homeopatia, Nilo Cairo se manteve obstinado. Foi essa insatisfação que o levou à Curitiba

 

 

Foi no Rio de Janeiro que sua história com a homeopatia começou, já em meio a polêmicas. Sua primeira tese de doutoramento a respeito dos princípios da homeopatia foi recusada. Para receber o título de doutor, obrigou-se, então, a apresentar outra tese, que ainda assim foi aprovada com ressalvas, já que ele insistiu em afirmar suas convicções na medicina homeopata, de Samuel Hahnemann. Proposições da obra asseguravam que apenas o princípio da homeopatia era capaz de curar, sendo que todo medicamento usado pelo princípio contrário teria ação somente paliativa.

Ao fazer parte do Instituto Hahnemanniano do Brasil, configuração médico-homeopática composta por médicos e farmacêuticos defensores da técnica, Nilo conquistou posição de destaque. Foi redator dos Anais do Instituto, o principal periódico da medicina homeopática brasileira. Por meio de ásperos artigos, contrapunha-se à emergente medicina bacteriológica ou experimental representada por Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro e por Emílio Ribas, em São Paulo.

A bacteriologia de Oswaldo Cruz foi a responsável pelo combate à febre amarela, à peste e à varíola na então capital federal. Nilo não reconhecia a importância desses avanços e se contrapunha às ações deles resultantes: vacinação, controle de ratos e luta contra o mosquito transmissor da febre amarela. Atribui à homeopatia a condição de “verdade incontestável” enquanto reduz o valor da alopatia: “seja a indicação bem-feita num método, o alopático, há probabilidades de curar, no outro, o homeopático, há certeza disso”, revela em publicações feitas no Jornal A Notícia, de Curitiba.

Quando Nilo e outros integrantes do Instituto Hahnemanniano do Brasil começam a debater a associação de medicamentos na homeopatia, chamada de complexismo, sua imagem passa a ficar desgastada naquele ambiente. Depois que dirigentes repreendem as discussões sobre o tema, a maioria dos membros acaba recuando o posicionamento, enquanto o médico paranaense, indignado pela ofensa à liberdade de discussão, começa a responder de forma mais agressiva. A posição combativa acaba por deteriorar sua posição dentro do Instituto, deixando-o isolado. Assim, Nilo pede licença do cargo de redator dos Anais justificando ter que se retirar para a cidade de Curitiba a serviço de sua profissão militar.

A criação de uma universidade e um sonho perdido

O interesse de Nilo em voltar para o Paraná se deu principalmente por influência do farmacêutico Duarte Velloso, dono de uma farmácia de homeopatia local, que almejava contratar um médico homeopata. O intelectual então abre seu consultório e torna-se o primeiro médico homeopata a clinicar em Curitiba.

Com a Universidade do Paraná em funcionamento, a homeopatia desaparece do Curso de Medicina e Cirurgia e do Curso de Farmácia logo nos estatutos de 1914

Instalado na capital paranaense e desempenhando sua vocação, Nilo se desliga, em 1906, do cargo de redator dos Anais do Instituto Hahnemanniano, tornando-se sócio correspondente da publicação. Ao mesmo tempo, cria e dirige a Revista Homeopática do Paraná. Em pouco tempo, ele já estaria inserido no grupo de intelectuais e políticos que construíram a Universidade do Paraná, um projeto antigo, voltado a acolher os filhos de uma elite que demandava um núcleo próprio de intelectualidade.

À época, dois grupos batalhavam pela abertura de uma universidade no estado. Depois de o grupo de Victor do Amaral cair na inatividade, o de Nilo retomou os trabalhos e convidou Victor a se juntar a ele, devido ao seu prestígio. A partir dessa junção, nasce a configuração médico-intelectual do Paraná. “O sucesso desta configuração reside no prestígio de Victor e na operosidade de Nilo, explicitando-se, assim, as relações de complementariedade entre os agentes”, relata Fraiz em um trecho da tese. A posição do homeopata nessa configuração permite que ele atue como professor e ocupe o cargo de secretário na já criada Universidade do Paraná.

Com a universidade já em funcionamento, a homeopatia desaparece do Curso de Medicina e Cirurgia e do Curso de Farmácia logo nos Estatutos da Universidade do Paraná de 1914. Apesar de não prosperar com as aulas de homeopatia em um curso que já nasceu sob o signo da bacteriologia, Nilo ocupou as cadeiras de Patologia Geral e de Fisiologia na graduação em Medicina. Como não exerceu docência nas áreas clínicas, não foi eleito para a mesa da Santa Casa de Misericórdia, núcleo das atividades clínicas da medicina curitibana e espaço em que se concentravam os médicos de prestígio da capital paranaense. Sentindo-se depreciado, ele pede licença da universidade e se retira para o meio rural no estado de São Paulo.

“Era uma vez o Dr. Nilo Cairo”

Em 1916, “Nilo sai do Paraná sem planos e vai morar no estado de São Paulo, onde vive da clínica homeopática atendendo a chamados domiciliares”. Dois anos depois, os relatos dão conta que o médico adquiriu uma pequena fazenda, espaço em que teve plantações e animais. Em cartas para Victor Ferreira do Amaral, ele afirma que tem “800 pés de abacaxis e 300 de uvas”, além de árvores frutíferas; uma “casa de tijolos com sete cômodos, estábulo, galinheiro, paióis, ranchos, grande chiqueiro, água nascente-corrente, poços e até jardim”. “Esse é o cenário que encontra todas as manhãs a partir das cinco e meia, quando se levanta. Cuida da horta, do pomar, das suas plantações e animais e às oito horas da noite já está na cama”.

“Na primeira fase é o homeopata. Depois, na universidade, a homeopatia vai perdendo poder e surge o Nilo Cairo professor preocupado com a liberdade de ensino e com temas relativos às disciplinas em que atua. Finalmente, na fase de “depressão” há um retorno à natureza com rejeição à vida social”

Ipojucan Calixto Fraiz, pesquisador no Programa de Sociologia da UFPR e professor do Departamento de Saúde Coletiva

Durante o período como agricultor, publicou diversos livros sobre lavoura, criação e pequena propriedade rural. Mais tarde, adoentado, o intelectual coloca sua fazenda à venda e retorna ao Rio de Janeiro, para se recuperar de febre tifoide. Depois de recuperado da saúde, ele não para de trabalhar em seus livros e volta a atender em consultórios de homeopatia.

Ao analisar as publicações de Nilo Cairo, Fraiz reconhece nelas as três fases distintas da vida do autor. De 1903 a 1913, foram publicadas obras sobre homeopatia. De 1914 a 1916, ele se dedica às ciências básicas referentes às cadeiras que ministrava na Universidade do Paraná. Entre 1920 e 1925, as publicações sobre agricultura são o foco do professor.

“Na primeira fase é o homeopata. Depois, na universidade, a homeopatia vai perdendo poder e surge o Nilo Cairo professor preocupado com a liberdade de ensino e com temas relativos às disciplinas em que atua. Finalmente, na fase de “depressão” há um retorno à natureza com rejeição à vida social”, descreve o doutor em Sociologia.

Em 1923 Nilo retorna ao Paraná e é recebido de braços abertos pelos seus velhos amigos, especialmente por Victor do Amaral. Retoma suas funções na Secretaria da Faculdade de Medicina, a regência das disciplinas de Patologia Geral e de Fisiologia e ainda integra, como engenheiro, uma comissão fiscalizadora das obras de construção do prédio das faculdades.

Pouco tempo depois, em 1925, o médico adoece novamente e solicita afastamento da universidade. Em Paranaguá, sua cidade natal, Nilo sente que os problemas de saúde devem se agravar e escreve ao amigo Walfrido Leal: “E é assim, seu Walfrido, como acabam todas as histórias… Era uma vez o Dr. Nilo Cairo”. Suspeita-se que o homeopata tenha tido um câncer de estômago, mas para as possibilidades terapêuticas daquela época não se pode afastar a úlcera crônica como causadora do sofrimento que descreve em suas cartas.

Mais uma vez, recorre ao Rio de Janeiro para buscar tratamento médico e é nessa cidade que ele morre, em 1928, após ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Seus restos mortais foram trazidos para Curitiba em 1933 e depositados no pedestal de seu busto que foi transferido para a Praça Santos Andrade, bem em frente ao edifício que ajudou a construir.

A preocupação com a popularização da ciência foi uma dos legados de Nilo Cairo, que criou manuais sobre a medicina na qual acreditava. “O fato de que o livro de apelo popular ‘Guia de Medicina Homeopática’ seja útil atualmente, passado um século de seu lançamento, mostra que seu escritor, ao popularizar o conhecimento, nunca abriu mão de que ele fosse de natureza científica. Traduzir a ciência em palavras compreensíveis e divulgá-la foi uma das tarefas às quais Nilo Cairo se dedicou com mais afinco”.

NOME PRÓPRIO CONSTANTE NA VIDA DOS MORADORES DE CURITIBA

Em Curitiba, além da Praça Santos Andrade, onde o busto de Nilo Cairo divide espaço com o de Victor do Amaral, é possível que a outra forma mais comum de o nome do professor chegar aos ouvidos de alguém é por batizar uma rua movimentada no Centro da cidade, que começa no cruzamento com a Mariano Torres e termina ao encontrar a Ubaldino do Amaral.

Nilo Cairo também é patrono da cadeira número 35 da Academia Paranaense de Letras e da cadeira número 43 da Academia Paranaense de Medicina. Teve seu nome associado a um colégio da rede estadual de ensino, além de emprestá-lo a ruas de diversas cidades do Paraná e do Brasil.

Outras homenagens que se estendem até os dias atuais nasceram no seio da Universidade do Paraná. Nilo Cairo é nome de Diretório Acadêmico da instituição e de Medalha para os melhores alunos da universidade.

“Na ausência temporária de Nilo, mas que se pretendia definitiva, Victor cultuou sua memória, correspondeu-se com ele, homenageou-o com um busto e conseguiu trazê-lo de volta para a universidade, como símbolo da força dessa instituição. Agora, com a sua morte, Victor e a própria Universidade do Paraná manterão viva a figura de Nilo Cairo”, declaram os autores do livro sobre esse personagem histórico.

➕ Recomendamos ainda o livro “Nilo Cairo e o debate homeopático no início do século XXI“, de Renata Sigolo, disponível para download na Editora UFPR
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