A retina é uma estrutura sensível à luz que está localizada na parte posterior do olho e que a ciência acredita ter potencial para refletir as condições de saúde do cérebro. Foto: KirstenTb/Pixabay
BOLETIM UFPR | Diagnóstico para esquizofrenia a partir da retina está sendo estudado

A associação entre manifestações da retina e alterações cerebrais, já documentada pela ciência, está na base de uma nova forma de diagnóstico para esquizofrenia, distúrbio da mente que afeta cerca de 1,7 milhão de brasileiros segundo projeção apoiada em estatísticas internacionais usada pelo Ministério da Saúde.

A retina é uma estrutura sensível à luz que está localizada na parte posterior do olho e possui a mesma origem embriológica que o cérebro, ou seja, os neurônios presentes na retina e os neurônios cerebrais têm a mesma origem. Assim, os olhos podem ser compreendidos também como um canal para a avaliação do cérebro.

Um artigo publicado no European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, periódico da Springer Nature, analisou essa relação entre cérebro e retina em pacientes com esquizofrenia – distúrbio mental em que a pessoa pode perder o contato com a realidade, apresentar alucinações e delírios, entre outros sintomas capazes de interferir na memória, na atenção e na capacidade de socialização, causando dificuldades para trabalhar ou estudar, por exemplo.

A retina é a parte do olho que identifica os estímulos luminosos e transmite as informações para o cérebro. Imagem: macrovector no Freepik – editada

Os cientistas identificaram, nas pessoas com esquizofrenia, redução no volume e na espessura da mácula – região ocular onde se inicia a formação das imagens –, além da maior presença de sintomas, como delírios e alucinações, nos pacientes que possuem espessura maior da camada de fibras nervosas das retinas (região papila óptica).

De acordo com Raffael Massuda, professor do Departamento de Psiquiatria e Medicina Forense da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e um dos autores do artigo, a esquizofrenia leva a uma diminuição difusa dos tamanhos dos neurônios, ou seja, no número de sinapses que esses neurônios fazem.

“É uma doença que acomete o cérebro em vários locais e em várias estruturas cerebrais. Uma das coisas que ela faz, na prática, é diminuir o tamanho do cérebro, porque há essa redução nas sinapses, as conexões entre os neurônios”.

O estudo, então, partiu do pressuposto de que, se é possível observar uma diminuição do volume cerebral em pacientes com esquizofrenia, talvez haveria também diminuição na estrutura da retina, já que ela é formada por neurônios. Hipótese que foi confirmada.

Além disso, a pesquisa buscou avaliar se há uma associação entre as alterações de retina e marcadores de inflamação, relacionando as duas teorias. Os autores acreditam que este seja o primeiro estudo sobre esquizofrenia que mede a espessura da retina e associa o volume da retina com a inflamação utilizando biomarcadores inflamatórios.

Esquizofrenia ocasiona processo inflamatório no sangue

O médico psiquiatra e preceptor da residência no Hospital de Clínicas da UFPR Marcelo Alves Carriello, responsável pelo estudo, cita que é comum que quadros infecciosos no sistema nervoso central, por exemplo, apresentem sintomas muito semelhantes aos da esquizofrenia e que o próprio processo de desenvolvimento da doença poderia estar relacionado a um processo inflamatório exagerado.

“Existe uma teoria de que um aumento de inflamação sistêmica poderia levar à quebra da barreira hemato encefálica, isto é, a barreira da proteção do cérebro e que essa inflamação aumentada teria o potencial de mudar as sinapses cerebrais, levando à abertura de um quadro de esquizofrenia”, afirma.

Uma das hipóteses da literatura é que a diminuição de volume cerebral causada pela esquizofrenia aconteça devido ao aumento de inflamação cerebral.

A pesquisa mostrou que os pacientes com esquizofrenia têm mais marcadores inflamatórios no sangue, ou seja, a proteína C-reativa, por exemplo, está presente em maiores dosagens, o que significa um processo inflamatório ativo. “No entanto, não encontramos uma relação entre quanto maior inflamação, menor a retina”, comenta Massuda.

Nesta imagem, a espessura e o volume da mácula separados por uma área central, anel interno e anel externo podem ser vistos. Imagem: Do artigo “Retinal layers and symptoms and inflammation in schizophrenia”

O estudo, vinculado ao Programa de Pesquisa em Transtornos Psicóticos, Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal do Paraná (UFPR), foi realizado com 70 indivíduos, sendo 35 pacientes com o distúrbio de esquizofrenia, e 35 que não apresentam a doença (grupo controle). Para isso, foram feitos exames de Tomografia de Coerência Óptica, técnica que mede a estrutura da retina de forma rápida, indolor e à beira do leito.

Evolução da doença poderá ser acompanhada a partir da avaliação da retina

Carriello explica que o diagnóstico de esquizofrenia ainda é clínico, mas que a avaliação da retina poderia ser muito útil para o acompanhamento da evolução dos casos. “Isso porque entendemos que há um declínio cognitivo progressivo na esquizofrenia e talvez, no futuro, esse procedimento possa ajudar no tratamento”.

Segundo ele, a doença está entre os transtornos psiquiátricos mais graves, que causam grande sofrimento e piora de qualidade de vida. Por isso considera que um marcador biológico que melhore a avaliação do status cerebral e da evolução da doença poderia contribuir favoravelmente para um melhor tratamento das pessoas com a doença.

➕ Leia detalhes no artigo “Retinal layers and symptoms and inflammation in schizophrenia“, publicado no periódico European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience.
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