Além de sub-representados na política, indígenas têm dificuldades de participar de processos eleitorais. Na foto, técnicos da Justiça eleitoral orientam para votação em Mato Grosso. Foto: Nara Assis/TRE MT

A representatividade dos indígenas na política brasileira é uma das mais baixas do país entre os grupos sociais mais vulneráveis. Entre 513 deputados federais, por exemplo, somente cinco indígenas foram eleitos em 2022, sendo que esse é um número considerado recorde histórico. Atualmente nenhum senador é indígena. O fato de serem poucos representantes indígenas eleitos chega ao noticiário. Do que pouco se fala, porém, é das dificuldades cotidianas que os povos tradicionais têm para participar dos processos políticos no Brasil, mesmo o mais básico deles, as eleições.

“Para os candidatos [ser indígena] é não ter recurso financeiro, não ter muito espaço dentro dos partidos, preconceito. Geralmente os lugares de votação são em escolas dentro das aldeias e os títulos são feitos através de mutirões para as comunidades”, conta Camila dos Santos e Silva, do povo Kaingang, moradora da comunidade Kakane Porã, na periferia de Curitiba (PR), e cocandidata a deputada estadual, com proposta de mandato coletivo com outros candidatos, na eleição mais recente.

Essa dificuldade poderia ser abordada nas pesquisas acadêmicas brasileiras, tendo em vista que pesquisas científicas também têm como objetivo ajudar na elaboração de políticas públicas. Mas, mesmo que os dados eleitorais estejam mais disponíveis — isto é, precisos e organizados — no Brasil do que em diversos outros países, isso não ocorre.

“Quando nós, pesquisadores, homogeneizamos os comportamentos [de eleitores] nas pesquisas, considerando apenas os maiores colégios eleitorais, perdemos o conhecimento e as questões fundamentais relacionadas aos extremos [de realidades do país]”, avalia o cientista político e pesquisador Ricardo Dantas Gonçalves, que abordou a ausência de escolhas por metodologias científicas voltadas a entender o voto de minorias sociais no Brasil na sua tese, Geografia eleitoral: tendências e indicações para o desenvolvimento da ciência política, defendida no Programa de Pós-graduação em Ciência Política (PPGCP) da UFPR. A tese recebeu menção honrosa no último Prêmio Capes de Tese, entregue em 2022.

Na pesquisa, Gonçalves propôs o uso de uma metodologia chamada geografia eleitoral nas investigações de ciência política. Com isso, essas pesquisas se beneficiariam de uma abordagem não só mais diversa quanto ao espaço físico, em termos de considerar territórios em vez de grupos populacionais homogêneos, como elucidariam questões sociais e humanas por meio das ferramentas da geografia humana — em geral, qualitativos. Segundo apurado no estudo, hoje as realidades da política brasileira nas periferias urbanas e no interior do país, o que em geral inclui as terras indígenas, são pouco abordadas.

“Se olharmos a abordagem que a mídia faz das eleições, os mapas, enfim, trazem em geral recortes mais formais, tais como municípios, estados, regiões e etc, que são bidimensionais, feitos sobre os mapas oficiais. A tese mostra possibilidades mais avançadas de visualização territorial dos fenômenos políticos, muito mais próximas do dimensionamento dos fenômenos”, afirma o professor Rodrigo Rossi Horochovski, do PPGCP, que orientou a tese. O professor Ivan Jairo Junckes, do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial Sustentável da UFPR, foi co-orientador.

Ausência de metodologia está no cerne do apagamento da diversidade

Primeiramente, o trabalho verificou o uso da geografia eleitoral na literatura científica, constatando que a metodologia é mais integrada à produção científica em nível internacional do que no Brasil, mesmo quando se trata de ”pesquisas com abordagens pós-estruturalistas e de identidade”. Em seguida, o pesquisador propôs um modelo original para estudo da análise espacial do voto.

Para isso, testou possibilidades, por exemplo, no uso do modelo para apresentar realidades por meio da análise da distribuição dos votos a um candidato indígena no pleito de 2018 no Paraná. O modelo sugerido aplica padrões espaciais a fim de viabilizar a análise de um grupo como o dos indígenas, que é pequeno na comparação com grandes centros urbanos e estão dispersos no território brasileiro.

Como resultado, a pesquisa considerou que a ausência da geografia eleitoral fundamenta um “apagamento da diversidade” nos estudos, que acabam desprezando realidades regionais dinâmicas e complexas. No caso das terras indígenas, essa realidade espacial é particularmente complexa, tendo em vista a constatação de um núcleo eleitoral nas comunidades que demonstra abertura a candidatos indígenas e outra situação, logo nos entornos, nas “zonas de transição brusca”, com o oposto disso.

“Esses entornos são locais de disputa política, porque as zonas têm padrão negativo no voto de candidatos indígenas”, explica Gonçalves. Isso sugere uma possível visão discriminatória, de “vizinhança indesejada”, por não-indígenas que vivem na divisa das terras indígenas. Essa é uma das realidades que, em geral, escapam à investigação científica do voto indígena, por mais que também deva influenciar a representatividade política desses povos e o acesso deles aos processos políticos mais básicos.

➕ Leia detalhes na tese “Geografia eleitoral: tendências e indicações para o desenvolvimento da ciência política“.

📖 Publicado originalmente na Revista Ciência UFPR (V. 6, nº 7, 2023).
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