Segundo o relatório, existe uma relação direta entre a forma como os países se posicionaram perante a covid-19 e a saúde com as consequências na economia. Vídeo: Pexels
Segundo o relatório, existe uma relação direta entre a forma como os países se posicionaram perante a covid-19 e a saúde com as consequências na economia. Vídeo: Pexels

A pandemia de covid-19, causada pelo novo coronavírus, desencadeou uma crise econômica mundial que poderá ser comparada à Grande Depressão, ocorrida nos 30 (século XX) após a quebra da bolsa de valores e considerada uma das mais graves recessões econômicas já vividas. É o que revela o relatório “Brasil e o mundo diante da Covid-19 e da crise econômica”, produzido pelo Programa de Educação Tutorial (PET) em Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Por dois meses o grupo de estudo reuniu bibliografia, acompanhou sites e blogs e seguiu com atenção as questões econômicas procurando constituir um acervo de informações e dados que reflitam o cenário econômico nacional e mundial e que sejam úteis à sociedade. A partir destas observações, os pesquisadores concluíram que a crise deve ser mais longa e mais profunda do que muitos relatórios de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) sugerem.

Crise sanitária funcionou como um gatilho para agravar a crise econômica de boa parte dos países, pois o ritmo de crescimento global já se mostrava débil

Um dos motivos que leva a esse entendimento é o fato de que a recuperação das atividades econômicas será difícil, a exemplo dos ramos do turismo, dos esportes e do entretenimento. Essa situação é agravada pela transição produtiva que resultou em novas plataformas não disponíveis para toda a população. O home office, por exemplo, não é uma norma laboral a todos e muitos perderam definitivamente os seus empregos.

De acordo com os estudiosos, na verdade a pandemia funcionou como um gatilho para agravar a crise econômica de boa parte dos países, pois o ritmo de crescimento global já se mostrava débil. “Poucos países antes da pandemia apresentavam crescimento robusto. As medidas exigidas para frear os contágios dessocializam a vida e a economia. Os prognósticos mostram uma queda monumental e não há sinais claros de como poderá ocorrer uma recuperação”, revela Demian Castro, coordenador do projeto e professor do Setor de Ciências Sociais Aplicadas.

O Brasil é um desses países que já passava por um momento econômico desfavorável antes do coronavírus, ao apresentar recuo da produção industrial, queda dos investimentos, altos níveis de desemprego, informalidade e precarização do trabalho.

“Simultaneamente, nunca o Estado esteve tão amarrado e impossibilitado de, pelo menos, articular políticas anticíclicas. Com relação à pandemia, a falta de coordenação com os governos subnacionais, a abertura prematura de atividades econômicas e a falta de uma política industrial de emergência para a cadeia produtiva da saúde colaboraram para agravar este cenário”, analisa o professor.

Crise no mundo

Assim como todos os países foram atingidos pela doença, todos também têm sentido e sentirão, por um tempo, os reflexos econômicos por ela causados. Segundo o relatório, existe uma relação direta entre a forma como os países se posicionaram perante a covid-19 e a saúde com as consequências na economia.

O documento aponta que os países que estão se saindo melhor são os que têm serviços de saúde mais preservados ou souberam prevenir com firmeza seu congestionamento; aqueles que conseguem testar mais e identificar a população de risco; os que mostram maior grau de coordenação; e os que conseguem demonstrar maior autoridade e clareza quanto aos interesses diante das pressões de grupos econômicos de origem comercial.

“Com lockdown, testagem e monitoramento rígidos, China, Coréia do Sul, Nova Zelândia, Singapura, Austrália, Alemanha, Cuba, Venezuela e Argentina devem se recuperar mais rápido”, aponta Castro. Ele acredita, ainda, que Brasil e Estados Unidos adotaram um posicionamento errado ao negarem a ciência e não se aparelharem para atender a população, bem como a Índia, cuja situação está fora de controle atualmente. “Para que os impactos sejam sentidos em menor intensidade no Brasil, o país teria que promover um confinamento radical de pelo menos três semanas”.

Desdobramentos

Os economistas explicam que, na crise dos anos 30, o Brasil e alguns países da América Latina descobriram a força dinâmica do mercado interno e o papel crucial do Estado na construção de novas fronteiras de acumulação internas. “A crise abriu oportunidades que foram aproveitadas. Não é o que está acontecendo hoje”, alerta o professor.

Segundo o economista Ricardo Carneiro, professor do Instituto de Economia da Unicamp e citado no relatório, o Brasil está passando por uma crise de oferta e a melhor providência é fazer com que o Estado substitua o investimento privado, auxilie quem não está trabalhando e substitua as fonte de renda dos estados e municípios. “É preciso evitar o aumento da inadimplência na economia criando crédito através dos bancos públicos ou crédito com recursos públicos por meio dos bancos privados. O crédito com garantia pública é a única forma de tirar o risco das operações”.

Publicado originalmente no Portal da UFPR (www.ufpr.br).
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