Afrodite e Dionísio, um de seus vários amantes, retratados na imagem de um sarcófago da Roma Antiga. Foto: Wolfgang Sauber/Commons
Afrodite e Dionísio, um de seus vários amantes, retratados na imagem de um sarcófago da Roma Antiga. Foto: Wolfgang Sauber/Commons

Amar é singular ou plural? Talvez sem querer, os gregos antigos eternizaram essa dúvida do sentimento humano em duas figuras distintas da sua mitologia. A deusa Afrodite, segundo Homero, nasceu adulta da espuma do mar para seduzir os homens e proteger as prostitutas, já com furos nas orelhas para os brincos de ouro e “senhora dos olhos furtivos”. Para ela, o amor foi definitivamente plural. Por sua vez, Medusa foi uma sacerdotisa que recebeu a punição de ser transformada em monstro e nunca mais poder colocar os olhos em ninguém pelo fato de ter cedido ao assédio implacável de um deus. Acabou enfurnada em uma caverna, com a cabeça a prêmio, por causa de um amor singular.

“Quando paramos para pensar em perspectivas mais libertárias acerca do amor, somos capazes de problematizar os vínculos sociais, tanto no que concerne à esfera pública quanto no que tange à vida privada”  

Cassiana Lopes Stephan, doutora em Filosofia pela UFPR e pela Universidade de Lille

Essa dicotomia que chegou aos tempos de hoje é um dos temas da tese de doutorado “Amor pelo avesso: de Afrodite a Medusa, estética da existência entre antigos e contemporâneos“, defendida em 2020 pela pesquisadora Cassiana Lopes Stephan no Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGFilos) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O trabalho faz uma caracterização das relações amorosas na Antiguidade e na Contemporaneidade, em especial no que elas representam de libertação e de opressão, também refletindo sobre as fronteiras entre amor e amizade.

Em outras palavras, o objeto da pesquisa de Cassiana é o amor normativo, isto é, padronizado ao longo dos tempos em torno do “romance”, que é marcado por promessas de libertação, mas que estranhamente também tem elementos de violência. “Imagino que minha pesquisa contribua para a reflexão acerca da violência atrelada à normalização ou à normatividade do amor. Essas formas normativas tradicionais excluem o animal do espectro do afeto e impelem as diferenças e os diferentes à morte e ao suicídio, isto é, a um suicídio que, na verdade, é um assassinato”, conta Cassiana, curitibana de 31 anos. 

Nesta entrevista, feita por e-mail, a pesquisadora fala mais sobre as conclusões do trabalho, que foi orientado pelos professores André de Macedo Duarte, da UFPR, e Inara Zanuzzi, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A tese foi uma das premiadas no Prêmio Filósofas de Distinção Acadêmica em Mestrado e Doutorado de 2020, promovido pela Rede Brasileira de Mulheres Filósofas e pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia do Brasil (Anpof).

A pesquisadora tem graduação e mestrado em Filosofia pela UFPR e fez parte do doutorado na Universidade de Lille, na França, com bolsa de doutorado sanduíche da Capes. A pesquisa foi realizada no Centro Michel Foucault em parceria com o Instituto Memória da Edição Contemporânea (Imec).

Em que contexto surgiu a sua pesquisa?

De modo geral, minha pesquisa se volta à caracterização das relações amorosas na Antiguidade e na Contemporaneidade. Estou interessada em pensar de que modo podemos embaralhar as fronteiras entre o amor e a amizade para nos desvencilharmos de vínculos narcísicos, autoritários e tirânicos, os quais atravessam os diferentes níveis e aspectos de nossas vidas. Para ser mais precisa, a intenção é mostrar que existem alternativas históricas e políticas para a experiência do amor no tempo presente. Não estamos fadadas e fadados à prática de amores opressores/opressivos, repressores/repressivos. Quando paramos para pensar em perspectivas mais libertárias acerca do amor, somos capazes de problematizar os vínculos sociais, tanto no que concerne à esfera pública quanto no que tange à vida privada. Nesse sentido, minha pesquisa problematiza a potência ético-política do amor-próprio e do amor pelos outros. 

“Minha pesquisa problematiza a potência ético-política do amor-próprio e do amor pelos outros”

A sua tese é escrita em primeira pessoa, o que dá um caráter pessoal ao que se fala, mas como todo trabalho científico é feito para compreensão do mundo. Qual a maior contribuição do trabalho que realizou?

 Para a sociedade de forma mais ampla, imagino que minha pesquisa contribua para a reflexão acerca da violência atrelada à normalização ou à normatividade do amor. Essas formas normativas tradicionais excluem o animal do espectro do afeto e impelem as diferenças e os diferentes à morte e ao suicídio, isto é, a um suicídio que, na verdade, é um assassinato.

Além de diagnosticar as misérias afetivas de nossa atualidade, minha pesquisa também propõe alternativas criativas, que nos permitem vislumbrar outras formas de se viver neste mundo, as quais são capazes de transformá-lo na medida em que concebem e afirmam sua multiplicidade. Ou melhor, essa transformação de si, dos outros e do mundo se vincula à afirmação da perspectiva de que o mundo é plural, de modo que não pode ser reduzido a uma única e absoluta identidade, como aquela do “homem de bem” ou do “bom cidadão”. 

Cena do filme “La maladie de la mort” (2003), de Asa Mader, baseado no livro de Marguerite Duras: o amor movido à estranheza sobre o outro. Fonte: Reprodução/YouTube

Quais são os avanços em relação a outros estudos sobre a temática?

 Talvez eu possa dizer que o diferencial de minha pesquisa no que diz respeito a outros estudos sobre o mesmo tema seja principalmente metodológico. Em meu trabalho busco articular a filosofia à literatura, à história e, até mesmo, ao cinema. Ademais, proponho uma “tese-ensaio”, que por vezes faz uso de estratégias narrativas mais literárias do que academicamente filosóficas. Através de tais recursos, tento mostrar sob um viés feminista que o pessoal também é político.  

 O que a motivou para a escolha do tema?

 De modo geral, minha pesquisa tem como tema as relações amorosas e, já no início da graduação em Filosofia, dei-me conta da importância deste assunto. Mais precisamente, ao conhecer o movimento punk, comecei a me questionar sobre as diferenças e as complementaridades entre o amor e a amizade no que se refere à vida privada e à vida pública. A vivência punk e, sobretudo, a dos punks anarquistas, corresponde a um modo de vida que, mesmo despretensiosamente, possui uma dimensão filosófica. Este tipo de vida subverte os paradigmas hierárquicos que descrevem e prescrevem como devem ser o amor e a amizade. Mais precisamente, os punks nos mostram que para amarmos não precisamos nos sacrificar e nos reduzir às normas repressoras e opressoras, referenciadas por símbolos transcendentais como Deus, o Estado, a Razão e o Falo. Isso significa que o amor não precisa se limitar e se justificar pela consanguinidade familiar ou pela instituição do casamento. 

“Nossos amores vacilam entre Narciso e Medusa, isto é, por vezes nos pegamos vivenciando amores narcísicos, mesmo que nos esforcemos em busca da liberdade em relação a tal estrutura”

Ademais, isto também significa que a prática do amor, no que tange à sua dimensão ético-política, não se reduz à humanidade, ou seja, tal exercício pode – e talvez deva – abarcar os outros animais. Não abordo os punks, ou somente os punks, em minha tese, mas foi a partir desta experiência de vida que passei a problematizar tal temática no curso de Filosofia. Também não posso negar que minha mãe foi muito importante para a articulação deste assunto, pois ela sempre temeu que sua figura materna fosse associada à opressão parental. Minha mãe dizia que o amor familiar não deveria ser uma obrigação, não deveria ser mandatório, mas que ele deveria ser como o amor que exercemos entre amigos, isto é, franco e espontâneo.

Portanto, posso afirmar que este assunto, o das relações amorosas ou o do amor e da amizade, acompanha-me há bastante tempo. No doutorado, tive a oportunidade de trabalhá-lo em diferentes autores e autoras, os quais tentei entrecruzar a partir da chave foucaultiana da estética da existência e, por outro lado, através da chave hadotiana dos exercícios espirituais. Afrodite e Medusa figuram justamente estes amores libertários cuja prática pode nos remeter a determinados movimentos culturais e políticos, mas também a experiências íntimas, artísticas e literárias. 

Quais foram as principais conclusões?

É difícil falar em resultados específicos ou objetivos em uma pesquisa de Filosofia. Mas, de modo geral, chego à conclusão de que podemos praticar o amor de forma alternativa, ou melhor, que nossas práticas amorosas são capazes de subverter e de transgredir normas anacrônicas, que operam compulsoriamente na vida social e na vida psíquica dos sujeitos. Mostro que só podemos nos transformar eticamente, de maneira a modificar a nossa interação com o mundo no tempo presente, a partir da vivência de amores outros, os quais nos deslocam de nós mesmos, isto é, de nossa tradição humanista e narcisista, que hoje desemboca nos jogos de interesses neoliberais.

“Minha mãe dizia que o amor familiar não deveria ser uma obrigação, não deveria ser mandatório, mas que ele deveria ser como o amor que exercemos entre amigos, isto é, franco e espontâneo”

Também concluo que resistir às injunções normativas e hieraquizantes do amor não requer a negação absoluta do nosso status quo e tampouco daquilo que fomos ou somos. Diferentemente, a criticidade que permeia o si mesmo aberto à diferença dos outros e à pluralidade do mundo manifesta a ambivalência que nos atravessa e nos constitui, ou seja, as resistências não são puras ou absolutas relativamente ao sistema contra o qual resistem, de modo que os amores libertários, criativos ou medúsicos não se constituem como uma nova utopia revolucionária. Nossos amores vacilam entre Narciso e Medusa, isto é, por vezes nos pegamos vivenciando amores narcísicos, mesmo que nos esforcemos em busca da liberdade em relação a tal estrutura.

Dito de outro modo, minha conclusão é a de que podemos amar nossos amigos e podemos nos tornar amigos de nossos amantes e de que, assim, podemos embaralhar a estrutura que relega o amor ao âmbito da vida privada e a amizade à instância masculina da esfera pública; embaralhar a lei patriarcal, que prescreve a não-reciprocidade entre homens e mulheres, a reciprocidade entre homens e a não-relação entre mulheres; embaralhar as diferentes e diversas orientações do desejo, trazendo à tona aquilo que fora historicamente recalcado.

Contudo, vale ressaltar que embaralhar é tensionar, combater e agonizar, ou melhor, não é negar absolutamente. Sabemos que a negação absoluta é tão utópica quanto a afirmação universal, de tal modo que, quando pomos em ação a radicalidade da negação em sua presunção absolutamente libertária, somos sobretudo desonestos com nós mesmos, já que a resistência, em distinção à revolução, não se pretende pura e nem mesmo isenta do sofrimento, seja ele humano ou animal. 

Nossa busca obstinada por mais liberdade no amor enfrenta recaídas e, por isso, não podemos negar que esta busca ético-política é, sobretudo, um grande e cotidiano esforço que nos incita a continuamente pensar sobre a maneira pela qual nos relacionamos com nós mesmos, com os outros e com o mundo. 

O que avalia que é importante destacar sobre a tese?

 Eu não sei ao certo o que seria relevante destacar sobre minha tese, talvez o fato de que eu tomei a liberdade ou tive a coragem de me posicionar em meu doutorado, revelando o sujeito que está por trás de tal reflexão e de tal escrita. Normalmente, na Filosofia, em vista de uma neutralidade ou objetividade científica, tendemos a apagar aquele/aquela que escreve. Para mim, o fazer filosófico é ensaístico e não necessariamente científico. Nesse sentido, sob o bojo da crítica filosófica, o sujeito que pensa e escreve também precisa ser colocado em questão.

 Na jornada de produção da tese, qual foi seu principal aprendizado (não necessariamente relacionado ao objeto de estudo)?

 Foram, na verdade, aprendizados: em primeiro lugar, aprendi a ter paciência; em segundo lugar, aprendi que estabelecer boas alianças nos ambientes acadêmicos se faz necessário; e, finalmente, que nosso trabalho nem sempre vai agradar todo mundo.

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