No último dia 12, o periódico The Lancet publicou uma diretriz que mudou o nome da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). Segundo o relatório, a condição pode atingir uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva, e o foco em sintomas ligados à reprodução, como irregularidade menstrual e cistos (folículos ovarianos não liberados) gerava dúvidas sobre um problema mais heterogêneo do que parecia à primeira vista.
A mudança, encabeçada por 56 organizações acadêmicas, clínicas e de pacientes, exemplifica como condições historicamente associadas à saúde feminina foram centradas em sua relação com a fertilidade. Ouvimos especialistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) para compreender esse panorama.
Dos ovários aos hormônios
A atual SOMP foi descrita pela primeira vez em 1935. Depois de analisar mulheres com com ausência de menstruação, ovários aumentados e pequenos cistos, os estadunidenses Irving Freiler Stein e Michael Leventhal supuseram que os sinais poderiam estar ligados, descrevendo a chamada síndrome de Stein-Leventhal no artigo Amenorrhea associated with polycystic ovaries.
A questão era encarada principalmente como um problema nos ovários. Foi só entre as décadas de 1960 e 1980, com os avanços da endocrinologia, que esse olhar começou a mudar. Alterações hormonais mais amplas passaram a ser levadas em conta, como aumento dos andrógenos (hormônios relacionados a características masculinas), desequilíbrios nos hormônios LH e FSH (responsáveis por regular a ovulação e o funcionamento dos ovários), além de resistência à insulina e associação com diabetes e obesidade.
Em 1990, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) criou os primeiros critérios oficiais para diagnóstico. Incluíam anovulação (não liberação de óvulo), levando à menstruação irregular; hiperandrogenismo e exclusão de outras doenças hormonais.
Em 2003, nasceu um novo parecer durante um encontro científico na Holanda, o Consenso de Rotterdam. Segundo esse protocolo, para ter o diagnóstico, era necessário ter ao menos dois dos seguintes critérios: irregularidade menstrual/disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e ovários policísticos ao ultrassom.
O consenso, porém, gerou críticas, já que o termo ovários policísticos acabou reforçando uma interpretação excessivamente centrada nos ovários, apesar de muitas pessoas não apresentarem cistos e de esses cistos serem, na verdade, folículos que não completaram o processo normal de maturação por desequilíbrios hormonais.
Nessa dinâmica, pessoas com sintomas metabólicos podiam passar anos sem diagnóstico por não se encaixarem no perfil clássico da condição. Hoje, se sabe que em torno de 70% de quem tem SOMP não tem diagnóstico.
Assim, de 2020 para cá, grupos médicos internacionais começaram a discutir oficialmente que o nome SOP poderia ser reducionista, diz o médico Jaime Kulak Junior, professor Adjunto do Departamento de Tocoginecologia da Universidade Federal do Paraná. “Era importante que a compreensão da síndrome já começasse em sua denominação”.
O consenso global publicado no Lancet neste mês vai ao encontro desse argumento ao reconhecer a complexidade da síndrome, suas diferentes manifestações e impactos sociais, como a centralidade atribuída à fertilidade em uma condição que afeta múltiplas dimensões da vida.
“O foco reprodutivo presente no nome pode reforçar estigmas, especialmente em contextos socioculturais nos quais a fertilidade tem alto valor simbólico”, afirma o artigo.
A mudança também expõe limites históricos de uma leitura centrada na feminilidade e na reprodução. Embora tradicionalmente associada à saúde da mulher, a condição pode afetar homens trans e pessoas não binárias que mantêm ovários e alterações hormonais compatíveis com a síndrome. Nesse sentido, a revisão da nomenclatura ajuda a deslocar o foco de expectativas sociais sobre gênero e fertilidade para uma compreensão mais ampla da saúde endócrina e metabólica.
Segundo o texto, além de sinais vinculados à reprodução, comumente associados à SOMP, como ciclos menstruais irregulares e infertilidade, há alterações metabólicas que podem levar à obesidade, disglicemia, diabetes tipo 2, hipertensão e doença cardiovascular; e dermatológicas, como acne e excesso de pelos em partes do corpo.
Escutar para tratar
Há ainda outra dimensão pouco falada: a saúde mental, diz a endocrinologista Adriane Maria Rodrigues, do Serviço de Endocrinologia (SEMPR) do Complexo Hospital de Clínicas da UFPR. O texto do Lancet lembra que há complicações psicológicas, como depressão, ansiedade e transtornos alimentares, até então menos consideradas no diagnóstico.
Assim, a mudança do nome reflete um movimento crescente de escuta e reconhecimento das experiências de pacientes, colocando as pessoas no centro do próprio cuidado, afirma a médica.
“Se a SOMP envolve vários fatores, e pode ocorrer de diferentes modos, é fundamental tratar o indivíduo e não a doença, levando em conta especificidades e desejos de cada um”.
Para a especialista, as redes sociais contribuíram com o fortalecimento dessa autonomia. “Embora existam informações falsas na internet que demandem cautela, a troca de experiências entre pacientes e a difusão de conhecimento em canais confiáveis vêm contribuindo para reduzir a sensação de isolamento e pressionar pesquisadores a reconhecer as complexidades da condição, com impactos que vão muito além da fertilidade e dos ovários”, afirma.
A médica acrescenta que as consequências da SOMP podem começar na adolescência e seguir até durante a menopausa, reforçando o caráter heterogêneo da condição. A nova nomenclatura, portanto, reflete uma visão mais integrada da síndrome e das necessidades de quem sofre com ela.
“E esse é um exemplo de como a saúde precisa ser construída: a partir da escuta ampla de demandas, com respeito à saúde mental e à qualidade de vida, ultrapassando o olhar restrito à reprodução e garantindo o protagonismo sobre o próprio corpo”, finaliza.
➕ Leia Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process, publicado na Lancet em 12 de maio







