A fluidez da vida como ponte entre Cecília Meireles e Camilo Pessanha Paralelos entre as obras da poeta brasileira e do poeta português inspiraram mergulho que revelou influências filosóficas e abordagens comuns

Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, onde vivia Cecília Meireles. O movimento das águas foi uma imagem recorrente na obra da poeta, característica que compartilha com o poeta português Camilo Pessanha. Imagem: Mauro Segura

Há uma considerável distância se observarmos os diferentes contextos artísticos e momentos históricos em que viveram o poeta simbolista português Camilo Pessanha e a poeta Cecília Meireles, ligada à segunda fase do modernismo no Brasil. O autor lusitano publica seu único livro em 1920, seis anos antes de sua morte, época em que a escritora apenas começava sua carreira literária perto de seus 20 anos. Apesar disso, a pesquisadora Camila Marchioro começou a perceber similaridades entre eles.

“É como se caminhássemos pelos labirintos das impressões mentais, não do que seria uma realidade do mundo, mas da percepção mental do mundo visto por alguém. É uma poesia altamente filosófica, densa e hermética”

Camila Marchioro, Programa de Pós-Graduação de Letras da UFPR

A recorrência de temas como a autorreflexão e o existencialismo e a presença de símbolos e imagens compartilhados na poesia de ambos, como o uso da água na representação da fugacidade da vida, chamou a atenção da pesquisadora que se lançou numa profunda viagem pela obra e vida dos autores no curso de sua investigação de doutorado na UFPR. O trabalho passou por temas que influenciaram os poetas como a relação de Portugal com suas colônias, a influência da filosofia oriental e sua aproximação com as ideias de Edmund Husserl.

O texto, que recebeu o prêmio Mário Quartin Graça, de melhor tese na Categoria de Ciências Sociais e Humanas, mostrou como tanto Meireles como Pessanha utilizam recursos semelhantes para abordar o constante decair de tudo o que é material. Marchioro explica que os elementos como a água, luz e escuridão aparecem em “imagens e símbolos que remetem à ruína e a decadência e demonstram uma fixação aguda dos autores pela observação da existência, do sofrimento e da passagem do tempo”. “É como se isso fosse o plano de fundo de um quadro que tem em seu plano principal uma imagem de prenúncio de morte. Mesmo a vida é observada nesses termos, a vida é um instante concentrado”, conclui a pesquisadora.

Outro ponto em comum é a perspectiva adotada, Marchioro aponta para um eu lírico muito conectado à personalidade dos poetas e suas experiências de vida. A condição humana é expressa por uma visão introspectiva e reflexiva.

“Ao lermos os poemas, é como se caminhássemos pelos labirintos das impressões mentais, não do que seria uma realidade do mundo, mas da percepção mental do mundo visto por alguém. É uma poesia altamente filosófica, densa e hermética”, explica Marchioro.

Apesar da distância temporal e geográfica, a obra da escritora brasileira teve forte influência do simbolismo em sua primeira fase. A perspectiva intimista e o explorar da sinestesia acaba por destacar Meireles dos autores modernistas de sua geração, marcados pela preocupação com temas sociais e regionais. Ainda assim, a autora é muito lembrada pela obra Romanceiro da Inconfidência, na qual assume uma perspectiva mais próxima de seus colegas, mas se na poesia esta não era uma constante, na sua vida os temas sociais estiveram sempre muito presentes, como mostrou a pesquisa.

Cecília Meireles também foi destaque como educadora e cronista

Meireles, além de poeta, foi professora, jornalista e cronista, sendo a primeira mulher a ganhar um prêmio da Academia Brasileira de Letras. Teve um papel destacado também na pesquisa do folclore e da cultura brasileira e de sua divulgação no exterior. Viajou por diversos países dando publicidade ao tema.

“Ao estudar os gestos e ritmos do candomblé e do samba, foi um dos primeiros intelectuais brasileiros a mostrar, na Europa, a cultura afro-brasileira a partir de uma perspectiva que a valorizava ao lado das outras culturas do país”, revela Marchioro.

As viagens também serviam de ponte com o que acontecia no mundo artístico e cultural fora do país, por meio de suas crônicas a autora trazia para o Brasil estas novidades. Uma faceta pouco conhecida é sua obra teatral, a autora escreveu diversas peças de teatro, que se mantém inéditas devido à família não chegar a um acordo sobre os direitos autorais.

A escritora também foi uma das protagonistas do movimento escolanovista, que defendia uma renovação educacional que oferecesse escola gratuita, laica e de qualidade, assinando em 1932 o Manifesto dos Pioneiros da Educação ao lado de outros destacados educadores como Anísio Teixeira. Utilizou o espaço que tinha na imprensa para defender as reformas e em paralelo iniciou um movimento para a valorização da literatura infantil. Em 1934 projetou a primeira biblioteca infantil do país no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, aproveitando que Teixeira havia assumido um cargo público importante e iniciara uma política de criação de bibliotecas públicas. O espaço que contava ainda com atividades culturais para as crianças foi fechado com o início do período ditatorial do governo Getúlio Vargas, em 1937. A justificativa é que contava com um suposto livro comunista, de fato a obra acusada era o clássico de literatura infantil americana “Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain, apesar das apelações de Meireles a decisão foi mantida.

Filosofia oriental marcou a obra de ambos autores

Em 2017, Macau lançou série de selos para homenagear os 150 anos de Camilo Pessanha. O autor trouxe influências orientais que marcaram a literatura portuguesa.

A filosofia tradicional chinesa e indiana ofereceu para Meireles um rico arsenal para suas reflexões existencialistas. É neste ponto em que as obras dos dois autores tornam-se ainda mais paralelas. A obra de Camilo Pessanha expressa sua rica experiência com a cultura chinesa, surgida em sua longa estadia em Macau, época em que o território chinês ainda era uma colônia portuguesa, onde atuou como professor e advogado. Segundo Marchioro, atribui-se ao trabalho de tradução de Pessanha uma influência marcante na literatura portuguesa de obras escritas originalmente em mandarim e cantonês. Somado a isso, o autor também ofereceu seminários sobre a cultura oriental e montou ao longo dos anos uma significativa coleção de arte chinesa, que hoje se encontra em Coimbra.

Reconhecido ainda em vida, especialmente no meio literário, Pessanha contribuiu muito para o enriquecimento cultural português, não só com suas traduções mas também com sua rica poesia.

“Quando lemos a poesia de Pessanha, podemos encontrar ali vários elementos que são recorrentes na poesia modernista portuguesa, como em Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa. Então, é inegável a sua importância nesse sentido, mas também vale ressaltar o quanto ele contribui até hoje para a formação de uma ideia de China no imaginário lusitano, seja pela sua personalidade, seja pelo que percebeu sobre o país oriental”, explica Marchioro.

Tendo como base o contato com o Oriente, presente em ambos autores, Marchioro traçou os aspectos comuns que têm como ponto de diálogo algumas tradições da Índia e da China relacionadas à meditação. Para a pesquisadora, “as metáforas, temas, motivos, símbolos e ritmo de seus poemas dão voz ao vazio e ao silêncio, ou seja, tentam, paradoxalmente, por meio da forma poética, elaborar a não forma e, por isso, suas obras lidam com temas extremamente complexos abordados tanto pelas tradições do Oriente quanto pela filosofia do Ocidente”.

Aproximações e afastamentos na estética da poesia dos autores

Apesar das similaridades a pesquisa revelou também disparidades nas obras, a poesia de Pessanha aparece de forma mais rígida em termos métricos, pela sua proximidade com o Simbolismo, enquanto Cecília é mais livre e transita em uma diversidade de formas.

“Imagens de morte, ruínas, deterioração e mesmo putrefação são muito recorrentes [em Camilo Pessanha]. Temos coisas como restos de corpos, pedaços de ossos e unhas, certa fantasmagoria, prenúncios de morte, ruínas de castelos, contraste de muito claro e escuro (tudo isso embalado pela presença constante da água), é quase que uma arqueologia da memória. Isso reflete, para o leitor, a ideia de passagem do tempo, as vivências que se tornaram memórias” explica Marchioro.

Enquanto na poesia de Meireles “há uma presença grandiosa da despedida, de espumas e nuvens, de ventos, de mãos que já não podem mais segurar ou tocar os objetos, de olhos parados, estátuas suspensas e a imponente presença do mar. Isso se conecta para dar ao leitor uma noção da efemeridade dos objetos externos à consciência pura do sujeito e, a partir daí, desenvolve-se uma peregrinação rumo a um núcleo que concentraria uma verdadeira existência e que se situa fora do espaço/tempo”.

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