A abelha da espécie Habralictus obscuratus tem o seu corpo de cerca de seis milímetros quase todo preto — a exceção são as asas transparentes nas quais se enxergam, ao microscópio, finas veias escuras. São as abelhas preferidas de Júlia Alberti de Liz, a estudante de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que primeiro descreveu a espécie, junto com três outras, em artigo publicado no periódico European Journal of Taxonomy.
Quem descobre a espécie também pode batizá-la e, no Laboratório de Abelhas (Labe) da UFPR, onde Júlia faz iniciação cientifica, ninguém se surpreendeu que tenha escolhido destacar no nome científico o tom escuro das H. obscuratus. Na época em que havia mais de uma estudante chamada Júlia no laboratório, o jeito de os pesquisadores diferenciá-las foi chamar Júlia de Liz de “Júlia de preto”, por estar sempre vestida com essa cor.
A identificação da estudante com a espécie de abelha que descreveu é um bastidor curioso, mas também simbólico de como a iniciação científica ajuda estudantes de graduação a desenvolver paixão pela ciência, além de ferramentas profissionais que também funcionam fora do meio acadêmico.
“Quando você entra na iniciação científica, consegue ter uma experiência mais profissional no sentido de criar um repertório próprio, desenvolver habilidades individuais ao ponto de conseguir manejar o seu próprio trabalho na pesquisa”, disse Júlia de Liz à Ciência UFPR.
“São muitas horas que você fica sentada olhando vários bichos pela lupa e tentando entender realmente quais são os limites entre as espécies. Porque espécies também são hipóteses, né?”, explica.

O Laboratório de Abelhas, com o seu vasto catálogo de espécimes de abelhas para serem avaliados (chamado de coleção zoológica), é um exemplo das oportunidades que estudantes de graduação têm na UFPR de experimentar as ferramentas do método científico — seja o uso de um microscópio ou mesmo o senso crítico.
Ao todo, cerca de sete milhões de insetos — incluindo abelhas coletadas há coisa de 60 anos — esperam nas gavetas silenciosas das coleções da UFPR para sair do limbo taxonômico, às vezes ganhando um novo nome científico. As que não têm identificação ocupam os espaços chamados pelos pesquisadores de “miscelânea”. Preencher essas lacunas é um trabalho de “peneiramento”, ao mesmo tempo extenso e rigoroso.
GALERIA | A alegria da descoberta proporcionada pela iniciação científica
Nele a iniciação científica tem mostrado um papel importante na descoberta de novas espécies, de quebra despertando o interesse pela taxonomia e qualificando pesquisadores — um déficit da área.
“É um trabalho meio que de detetive”, resume o professor e pesquisador Rodrigo Barbosa Gonçalves, que coordena o Laboratório de Abelhas.
Os estagiários de iniciação científica assumem a tarefa de triagem dos insetos das coleções, o que treina o olhar para diferenciar as características de cada grupo de espécies. Quando já estão por dentro do que procurar, tornam-se candidatos a conseguir diferenciar novas espécies e ajudar a descrevê-las em artigos.
O artigo no qual saiu a H. obscuratus inclui ainda outras três novas espécies (H. acuminatus, H. cyaneus, H. nitidus), todas coletadas na Mata Atlântica do Norte e do Sudeste, porém em momentos diferentes, que vão dos anos 1960 a 2019.
Outras sete espécies do gênero Habralictus foram redescritas ou revisadas. Isso significa que são espécies já nomeadas que receberam descrições mais detalhadas e foram reorganizadas dentro dos grupos do gênero. Para a revisão, pesquisadores examinaram mais de 1,5 mil exemplares de abelhas brasileiras depositadas em coleções entomológicas.
Abelhas do gênero chamam atenção pelo brilho holográfico
As abelhas Habralictus são pequenas (medem entre quatro e oito milímetros), mas brilham como metal. Olhando para elas, a impressão é de que reluzem em tons frios, como verde e azul.
Como isso acontece? Não se trata de pigmento químico, como ocorre com tons de preto, amarelo e vermelho que percebemos em animais. É uma ilusão de ótica gerada por um fenômeno físico chamado iridescência. O brilho metálico é resultado da interação da luz com a camada de revestimento do exoesqueleto da abelha. Dependendo da composição dessa cutícula, ela libera reflexos específicos.
“Tanto que esses bichos com grande reflexo, dependendo de como é que você [os] gira na luz, às vezes o tipo do reflexo muda. Porque não é o pigmento, é um efeito da luz”, explica Gonçalves.
(Deixe anotado: a cor azul não é encontrada em animais que não seja por causa dos reflexos coloridos).
No caso do gênero Habralictus, os reflexos metálicos na cabeça e no mesossoma (tórax) são tão marcantes que é uma das principais características utilizadas para identificar essas abelhas.
As novas espécies descritas no artigo, porém, têm suas particularidades de cores. Enquanto a H. acuminatus e a H. nitidus são de um verde brilhante, a H. cyaneus é azul esverdeada com reflexos metálicos no abdômen, o seu diferencial dentro do grupo. Já a H. obscuratus apresenta tons mais escuros, onde se vê do verde oliva ao roxo.
As Habralictus podem ainda apresentar manchas amarelas, chamadas de maculações, no abdômen. Esses sim são pigmentos reais.
Polinizadoras generalistas, as abelhas do gênero mantém redes de interação que protegem a biodiversidade
Fora a curiosidade que suas cores despertam, as pequenas Habralictus são polinizadoras essenciais nos ecossistemas onde são encontradas, no continente americano entre o Brasil e o México. Têm relação profunda com palmeiras e cultivos agrícolas brasileiros, entre eles o de açaí — a espécie Habralictus cyaneus foi coletada em cultivos de açaí no Amapá por pesquisadores que estudam os polinizadores dessa planta.
Fato é que algumas interações entre abelhas do gênero e certas plantas são tão específicas — gerando dependência para reprodução dessas plantas — que a perda de espécies que compõem a rede de biodiversidade das Habralictus significa risco de levar florestas ao colapso.
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Por sua vez, as Habralictus têm preferência por algumas plantas, mas procuram diversificar sua busca por pólen. Por isso são chamadas de poliléticas: visitam pés de mandioca, tomateiros, abacateiros, seringueiras, gardênias, entre outros. Esse hábito generalista gera redes de interação do qual participam as diversas plantas que são polinizadas simultaneamente e diferentes polinizadores, permitindo mais oportunidades de manutenção da biodiversidade.
Assim como a construção dos ninhos e o cuidado com a prole, a polinização é realizada exclusivamente pelas fêmeas, porque são as que possuem as estruturas especializadas para essa coleta — as escopas, localizadas no fêmur posterior do inseto.
Depois de coletar néctar e pólen das plantas, transportam essa pasta para ninhos solitários, construídos em barrancos de terra ou diretamente no solo, onde alimentam as suas larvas.
Aqui um alerta importante: se encontrar um desses ninhos, não atrapalhe o trabalho das abelhas. Além de não serem agressivas e nem produzirem mel para consumo humano, essas são abelhas silvestres, portanto as que mais precisam de proteção contra ameaças de extinção.
“As pessoas têm o instinto de tentar resolver [a presença de insetos] como se fosse uma praga, mas não é necessário isso quando encontramos locais com pequenos insetos saindo e entrando. Temos que entender que ali é uma área de nidificação, de construção de ninhos”, explica Gonçalves.
Novas espécies em meio à miscelânea e dando sopa em parques
E para que serve conhecer uma espécie? Na cadeia científica, a identificação de espécies é o pilar para futuras abordagens, incluindo, na ponta mais extrema, os estudos que influem em políticas públicas. Rodrigo Barbosa Gonçalves chama os trabalhos de iniciação científica de “tijolinhos” para outras áreas, como a ecologia, visto que dar nome e identificar as espécies é o primeiro passo para depois estudar como respondem, por exemplo, às mudanças climáticas.
Um dos projetos associados à coleção, por exemplo, é o “Abelhas de Curitiba: a Coleção Rudolf Lange”, que busca identificar os exemplares coletados pelo engenheiro alemão, um conhecido naturalista, falecido na capital paranaense em 2016. À medida que novas espécies são descobertas, pesquisadores em diversos níveis de pesquisa, da graduação ao doutorado, desvendam a diversidade das abelhas da cidade.
Além do material histórico das coleções, novas descobertas e registros de espécies ocorrem em parques e locais públicos de Curitiba. Tanto que espécies do mesmo gênero das que esta matéria trata — a Habralictus canaliculatus e a Habralictus macrospilophorus — foram identificadas anteriormente a partir de coletas nos parques Barigui, Tingui, Tanguá, Atuba, Cemitério Parque Iguaçu e até em quartéis generais da cidade.

















