Beija-flores mantêm interações muito específicas com plantas também específicas, marcadas por fatores como a curvatura e o comprimento do bico do pássaro. Na foto, um beija-flor rubi visita uma bromélia. Foto: Sergio Gregorio da Silva/Acervo Pessoal
Beija-flores mantêm interações muito específicas com plantas também específicas, marcadas por fatores como a curvatura e o comprimento do bico do pássaro. Na foto, um beija-flor rubi visita uma Fuchsia regia (brinco-de-princesa). Foto: Sergio Gregorio da Silva/Acervo Pessoal

Beija-flores são conhecidos pela beleza, e por isso figuram em canções e poesias, mas estudos científicos têm buscado dar a eles o crédito necessário por uma importante função ecológica. Essas pequenas aves que vivem apenas no continente americano são muitas vezes os únicos polinizadores de plantas-chave da biodiversidade, especialmente a tropical. Para a manutenção de suas espécies, algumas bromélias, leguminosas e outras plantas dependem que sua floração se dê na época certa para que encontre os beija-flores certos. Esse delicado equilíbrio — e o que nele interfere — tem sido investigado por cientistas do projeto de pesquisa Polinização em Floresta Atlântica, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com a ajuda de bancos de dados alimentados por pesquisas do mundo todo.

“São raras as plantas de destaque econômico que dependem da polinização de beija-flores, por isso insetos são mais pesquisados. Mas beija-flores polinizam plantas que participam de ciclos naturais das matas. Ajudam a manter a teia da biodiversidade interligada”

Isabela Varassin, professora do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e coordenadora do Polinização em Floresta Atlântica

As interações entre beija-flores e plantas estão condicionadas a fatores que variam em especificidade, como o tamanho e a curvatura do bico das aves e a forma do corola das flores. Por isso uma eventual falta de colibris seria tão prejudicial à variedade da flora. Na sua busca incessante por calorias — um colibri pode consumir até mais do que o seu peso em néctar no dia — essas aves ajudam na polinização de diversas flores por dia.

“São raras as plantas de destaque econômico que dependem da polinização de beija-flores, por isso os insetos são mais pesquisados nessa linha. Mas beija-flores polinizam plantas que participam de ciclos naturais das matas [da água, do nitrogênio, do carbono]. Ajudam a manter a teia da biodiversidade interligada”, conta a professora Isabela Varassin, que coordena o projeto na UFPR. Assim, pesquisas científicas acabam por render informações importantes a busca da preservação da biodiversidade.

Para entender como a “teia” funciona, os estudos mapeiam as interações de forma a descobrir como funcionam. O pesquisador dinamarquês Bo Dalsgaard, da Universidade de Copenhagen, é um dos colaboradores do projeto e mantém um banco sobre interações com dados agregados por mais de 30 cientistas. “Essa colaboração é crucial para entender os fatores que fazem os beija-flores ficarem tão especializados e, assim, ajudá-los no futuro, se suas plantas desaparecerem”.

Colibris mais especializados correm mais risco de extinção, assim como plantas que deles precisam

Um dos estudos feitos na UFPR, por exemplo, concluído em março, aponta que as espécies de colibris ameaçadas de extinção possuem em comum o bico curto e reto. Por coincidência, essa é uma das características que especificam os beija-flores considerados espécies-chaves na rede de interação com flores — ou seja, que desempenham papel essencial na manutenção da estrutura de uma determinada comunidade ecológica.

Pode-se dizer que, em certos casos, para cada formato do bico da ave existe só uma flor e vice-versa

Para investigar o assunto, a pesquisadora Thais Zanata analisou 341 espécies de colibris, estudando aves dos acervos de museus no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Dessas, 37 espécies estão vulneráveis (sofrem alguma ameaça de desaparecimento). Duas delas — o Chlorostilbon bracei e o Chlorostilbon elegans, que habitavam o Caribe e tinham bico reto e curto — estão extintas.

“As espécies-chaves de beija-flor são também as que mantém uma variedade maior de interações, com diversas plantas”, explica Thais, cujas considerações estão na tese de doutorado “Beija-flores e suas fontes de néctar: interações raras, espécies chave e vulnerabilidade à extinção“.

Também para entender o grau de especialização e a vulnerabilidade dos “encontros” entre beija-flores e plantas, Thais analisou 74 redes de interação mapeadas no continente americano. Por meio de previsões baseadas em modelos estatísticos, a pesquisadora conseguiu definir quais interações são mais frágeis e o porquê. Um alerta é para o fato de que as interações raras são garantidas por espécies não redundantes — isto é, que não encontram substitutos no sistema. Pode-se dizer, então, que, em certos casos, para cada formato do bico da ave existe só uma flor e vice-versa.

Alterações climáticas e desmatamento impedem contato de beija-flores e plantas na Mata Atlântica

Os estudos da UFPR também têm investigado como desmatamentos e alterações climáticas afetam as interações. A pesquisadora Marcia Malanotte checou como os beija-flores reagem às floração de plantas da Floresta Atlântica. Márcia conclui que, assim como o clima altera a época de floração e a diversidade de plantas, a variedade de beija-flores também é impactada. Para isso, observou duas plantas que são chave em Antonina, uma bromélia e a chamada flor de cera.

“São plantas que mantém a estabilidade de interações, mas com a mudança de clima podem vir a não florescer na época esperada, com impacto sobre a diversidade de beija-flores”, diz Márcia, autora da tese “Ligando flores e polinizadores: como os padrões de floração estruturam as comunidades de beija-flores?“.

Essas mudanças são mais prejudiciais às plantas da Mata Atlântica que possuem flores mais complexas e floração mais curta, conforme foi constatado em outro estudo. “Pelo formato das flores, muitas dessas plantas são polinizadas principalmente por beija-flores”, conta o biólogo Tiago Malucelli, que pesquisou a cana-do-brejo (uma planta medicinal) e a bromélia chamada de gravatá. Alguns resultados estão na tese “Interação entre plantas e beija-flores em diferentes escalas espaciais“.

As mudanças climáticas globais apontam para um clima mais quente (cerca de dois graus celsius a mais), que já é capaz de retardar a floração de certas plantas — o que dificulta o encontro com beija-flores. Consequentemente, a flora pode mudar sua fisionomia ou ainda se tornar menos diversa. Em um estudo em parceria com o professor Victor Zwiener, do Campus Palotina da UFPR, a pesquisadora Ana Paula Araújo Correa de Lima chegou a essa conclusão após analisar um arbusto (Psychotria nuda) que hoje é endêmico na Mata Atlântica.

“Em 30 anos, o ambiente em que essa planta ocorre pode não ser mais climaticamente adequado para ela”.

Plataforma de biodiversidade busca subsidiar políticas públicas de preservação

Com a participação do grupo de pesquisas da UFPR em uma plataforma nacional de estudos voltados à preservação da biodiversidade, em breve os estudos devem ajudar na proposição de políticas públicas. Criada em 2015, a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) busca reunir estudos cujos resultados são compilados em painéis temáticos relacionados a biodiversidade — a inspiração são os painéis da Organização das Nações Unidas (ONU), como o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Um desses painéis terá como tema a preservação de polinizadores.

Segundo Fabio Rubio Scarano, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos coordenadores da BPBES, a diferença em relação aos painéis da ONU é que os resultados dos estudos serão discutidos com grupos sociais — o que inclui empresas, governo e comunidades tradicionais. “Buscamos propostas mais realistas, que aproximem a ciência da sociedade e criem documentos vivos, que possam realmente influenciar políticas”, argumenta.

📖 Publicado originalmente na Revista Paraná Ciência (nº 7, jun. 2018), da Fundação Araucária.
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