Ter seu nome em uma escola pública é um reconhecimento tradicional para professores. Este ano de 2025 é o segundo de funcionamento da escola municipal de Curitiba que homenageia uma figura da Universidade Federal do Paraná (UFPR): a professora Zelia Milléo Pavão, primeira mulher a assumir um cargo de direção de setor na universidade. Hoje pode-se dizer que a escola e a homenageada fazem parte da história da UFPR.
Inaugurada em maio de 2024, a escola localizada no bairro Seminário é aberta para estudantes da pré-escola e do Ensino Fundamental. Na época da abertura, a Prefeitura da capital divulgou que a instituição seria a primeira da rede pública municipal a usar o Método Montessori, abordagem pedagógica na qual a professora Zelia foi uma das pioneiras no Paraná.
Nascida em 18 de junho de 1928, na cidade da Lapa, Zelia seguiu os passos da mãe professora e se tornou um dos maiores nomes da educação pública no Paraná. Casada com o engenheiro e também professor da UFPR Jurandyr Pavão, teve quatro filhos: Rita, Lúcia, Luiz Antonio e Zelinha. Quatro anos após seu falecimento, que ocorreu em julho de 2021, aos 93 anos, Zelia segue sendo lembrada com carinho por familiares, alunos e colegas.
GALERIA | Momentos de Zelia Pavão
Sua história com a Universidade Federal do Paraná começou na década de 1940 ao iniciar o curso de Pedagogia, graduando-se em 1950. Com vocação para a matemática, Zelia realizou a maior parte da sua trajetória acadêmica na universidade. Em 1956, concluiu o doutorado em Educação; em 1961, graduou-se novamente em matemática; em 1963, realizou outro doutorado na UFPR, desta vez em estatística — e foi a primeira doutora na área do Brasil.
Durante estes anos em que se aprofundava como pesquisadora, Zelia lecionou na UFPR e veio a ser nomeada diretora do Setor de Educação em 1972, pouco após a reforma universitária que instituiu a departamentalização da universidade, posto que ocuparia até 1981. Um trecho de jornal da época destaca que ela foi a primeira mulher a assumir tal cargo na universidade e relembra que Zelia se tornou professora na UFPR em uma disputa concorridíssima, onde resolveu um problema em apenas 50 minutos.
Os primeiros passos da pesquisa em Educação na UFPR
O pioneirismo de Zelia Milléo Pavão não se restringiu a ser a primeira mulher diretora de setor na UFPR. Familiares e colegas a descrevem como uma pessoa a frente do seu tempo, especialmente em suas contribuições inovadoras para a educação.
A professora Ettiene Cordeiro Guérios, docente do Departamento de Teoria e Prática de Ensino da UFPR, foi aluna e orientanda de Zelia e depois colega de trabalho. Ettiene conta que na década de 1970 Zelia já fomentava coisas que ainda não faziam parte do cotidiano acadêmico, como a pesquisa, a interdisciplinariedade e até mesmo a iniciação científica, que não contava com este nome na época.
Este olhar para a produção científica fez Zelia criar grupos de pesquisa, dos quais Ettiene fez parte. Em um deles, financiado pelo CNPq no início do programa, os alunos de graduação iam até escolas para vivenciar aquele ambiente e investigar se o que os professores estavam ensinando era o que os alunos estavam compreendendo.
“Ela entendia naquela época que não era possível você olhar uma sala de aula sobre o ponto de vista só da criança aprendendo ou só da docência, mas que tinha que ter esse olhar total para compreender aquele fenômeno educativo. Ela sempre esteve anos luz à frente”, afirma. “Nunca tínhamos feito pesquisa. Então a gente conseguir ter esse comportamento, de estar frente a um fenômeno e termos esse controle para olhar podermos falar sobre o fenômeno, eu e uma multidão de gente aprendemos com ela”.
Na UFPR, Zelia Milléo Pavão deixou marcas. Além da consolidação do Setor de Educação, a professora foi parte ativa da estruturação do primeiro Mestrado em Educação da universidade, como relembra Maria do Rosário Knechtel, colega de Zelia e também uma das articuladoras da pesquisa do setor.
“Zelia foi defensora constante da importância do papel da Educação na formação científica de todos que passaram, como eu, pelos bancos do Programa de Pós-graduação, como aluna e professora. Deixou marcas elevadas em todos os seus alunos, orientandos e equipes de pesquisa que criou, das quais participei, sempre com seriedade, disciplina, compromisso, responsabilidade e dedicação ímpar”, diz.
O pioneirismo de Zelia foi levado até mesmo para outras áreas, como contou seu filho Luiz Antônio Pavão. Luiz relembra que sua mãe foi uma das primeiras pessoas que ele viu usando computadores, já na década de 1980, e isso fez ela ser orientadora de médicos que buscavam utilizar o computador para trabalho.
“Ela teve esse diferencial, de ter contaminado os médicos da época a utilizarem computadores, porque os processos de cálculos estatísticos exigem uma quantidade muito grande de processamento”, afirma.
Ainda na educação, Zelia também foi fundamental na difusão do Método Montessori no Paraná e no Brasil. Por meio da produção científica e orientação de inúmeros trabalhos de mestrado e doutorado, a professora trabalhou em adequar a metodologia europeia para a realidade do país. Ela também adaptou e ensinou professoras a utilizar o conhecido “Material Dourado”, utilizado para trabalhos de crianças com a matemática.
“O Método Montessori utiliza aquelas ferramentas todas, e isso tem custo. Então os livros e as publicações que foram feitas desse método lá fora foram traduzidas por ela e colocadas dentro da nossa da nossa realidade aqui”, diz Luiz Pavão.
Pragmatismo durante a ditadura militar
No período em que Zelia Pavão ocupou o cargo de diretora de Setor de Educação, a desigualdade entre homens e mulheres no ambiente acadêmico era ainda mais evidente. Sobre isso, a professora resumiu sua postura com as seguintes palavras às pesquisadoras Maria Sílvia Winkeler, Denise Grein Santos e Marielda Pryjma: “Nunca dei bola para o que falavam, fazia o meu trabalho”.
Além disso, estes anos foram marcados pela ditadura militar no Brasil, período em que até muitas ideias que surgiam na área de educação eram reprovadas por irem contra o defendido pelas autoridades.
Mas apesar do momento desfavorável, Zelia não tinha problemas em efetivar suas ideias, segundo a professora Ettiene Guérios.
“A professora Zelia sempre foi uma pessoa muito crível. Não sei de ocasião em que ela tenha sido contestada em seu conhecimento. Ela teve dificuldades, porque toda pessoa que implementa o novo ou diferente, tem uma certa resistência de um movimento que pretendia sempre ser contínuo numa mesma direção. Mas ela não se intimidava”, recorda.
Luiz Pavão relembra que, na época da ditadura, muitas ideias da educação eram associadas a movimentos de esquerda, gerando ruído dentro da academia e por isso tendo dificuldades em serem discutidas. Mas a forma de Zelia conseguir se impor e compartilhar seus projetos, além da amizade com Ney Braga, militar paranaense que foi ministro da Educação entre 1974 e 1978, fez com que ela conseguisse realizar seu trabalho no Setor de Educação.
“Eu diria que minha mãe foi ‘apolítica’ durante toda a carreira dela. Ela sempre foi dedicada à ciência, e as questões políticas ela conseguia deixar de lado de uma maneira, eu diria, até brilhante”, diz.
“Ela comentava que era muito difícil fazer a defesa dos colegas dela de departamento perante as autoridades, que viviam monitorando o que acontecia dentro da universidade”.
Homenagem no nome da escola do bairro Seminário
No início de 2024, os filhos da professora Zelia foram procurados pela Secretaria Municipal de Educação de Curitiba para ver se concordavam com a escola do bairro Seminário receber o nome da mãe. A unidade passou a funcionar como Escola Municipal Zelia Milléo Pavão desde o início do ano letivo, mas a homenagem foi oficializada em outubro, quando o então prefeito Rafael Greca sancionou a lei que tratava da denominação.
Segundo Luiz Pavão, a família ficou muito feliz pelo reconhecimento a Zelia.
“A gente tem bastante orgulho da trajetória que a mãe fez durante a vida toda dela, saindo de uma fazenda da Lapa, vindo para Curitiba. Ela foi filha de imigrantes italianos que foram direto para a roça, e ela veio para Curitiba para estudar. Ainda em uma época que para as mulheres não era fácil, de maneira alguma, e ainda enfrentando a época da ditadura”.
A homenagem também foi bem recebida pelas colegas de Zelia, Ettiene Guérios e Maria do Rosário Knechtel, que destacam as qualidades da professora além da vida acadêmica.
“Assim como nos orientou, muitos professores e colegas tornaram-se excelentes docentes, graças aos estímulos e sabedoria cristã de Dra. Zelia. Suas memórias e experiências bem-sucedidas emergem no cotidiano de nossa história e merecem nossa gratidão e reconhecimento para sempre. A ela devemos muitas reverências, à persistência, ao entusiasmo e à presença dessa querida professora e amiga”, diz Maria do Rosário.
“Ela foi uma pessoa humana, amada amável, incrível. Nunca teve uma porta fechada para alguém, sempre acessível” afirma Ettiene. “A professora Zelia sim merece todas as homenagens do mundo, pelo que ela fez pela nossa universidade e pelo setor. Tudo o que ela fez, fez sempre acreditando na educação e foi uma professora, orientadora e pesquisadora espetacular”.













Pessoas como ela são raros nos dias atuais de ataques ao pensamento científico
“Merecida homenagem a está grandiosa Professora Dra Zélia”