Não é que os sapinhos-da-montanha estejam se escondendo. Sim, eles são bem pequenos e vivem sob a serrapilheira no topo de serras com cobertura de Mata Atlântica no Sul do Brasil. Mas também são coloridos, diurnos (o que não é comum em sapos) e coaxam com sons peculiares.
“A sua vocalização, o ‘canto’, é bem característica, mas encontrar os animais em si é bastante desafiador. Basicamente são horas revirando folhiço, tentando achá-los”, explica o professor Márcio Pie, do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde coordena o Laboratório de Dinâmica Evolutiva.
As buscas nas florestas e nos laboratórios tem mobilizado pesquisadores na UFPR e na Universidade Estadual Paulista (Unesp) nos últimos 15 anos por meio de um projeto do Instituto Mater Natura, organização não-governamental de Curitiba. O esforço já rendeu a descrição de 13 espécies de sapinhos que, quando encontrados no Sul, são apelidados pelos cientistas de sapinhos-da-montanha — o nome científico do gênero é Brachycephalus.
“A ideia de sapinhos-da-montanha surgiu para diferenciar das espécies que ocorrem mais ao Norte, em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, que são chamadas de pingo-de-ouro. Ademais, é um trocadilho com os famosos gorilas-das-montanhas [que chegam a medir dois metros de altura e vivem em florestas montanhosas da África]”, explica Luiz Fernando Ribeiro, professor e pesquisador convidado na Zoologia da UFPR.
GALERIA | A serra onde vive o sapinho-da-montanha explica a sua existência
O mais recente exemplar do grupo tem entre nove e 13 milímetros de comprimento e corpo alaranjado com pequenas verrugas marrons e verdes. A descrição da espécie foi publicada no último dia 10 no periódico PLoS One. Batizado de Brachycephalus lulai, o sapo foi encontrado em 2016 na encosta Leste da Serra do Quiriri, região montanhosa em Garuva (SC) perto da divisa com o Paraná. Das 45 espécies já conhecidas de Brachycephalus, três foram coletadas nessa localidade.
A descoberta da espécie representa um avanço nas técnicas de descrição de anfíbios, marcado principalmente pela interdisciplinaridade dentro da biologia. A descrição reuniu pesquisadores das áreas de filogenia, genética, biogeografia, bioacústica e ecologia em quatro países — além do Brasil, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos. Onze pesquisadores assinam o trabalho, entre eles quatro da UFPR: Márcio Pie, Luiz Fernando Ribeiro, Júnior Nadaline (doutorando em Ecologia e Conservação) e André Confetti (doutorando em Zoologia).
De acordo com Marcos Bornschein, especialista em bioacústica do Instituto de Biociências da Unesp que é o primeiro autor do artigo, trata-se de uma descrição completa devido à evolução do estudo da produção de sons por esses sapos.
“Os Brachycephalus vivem em locais de difícil acesso e são muito mais fáceis de ouvir do que de ver. Então, saber como produzem seus cantos de anúncio foi essencial para o recente aumento na descrição de novas espécies. Por muito tempo se achou que os sons que ouvíamos na floresta eram de grilos, jamais de pequenos anfíbios”, disse Bornschein ao Jornal da Unesp.
Biodiversidade justifica proteção da vida selvagem na Serra do Quiriri, defendem cientistas
O sapo Brachycephalus lulai habita uma região na qual as drásticas alterações ambientais nos últimos milhões de anos — de semiárido a floresta úmida — motivaram a diversificação de espécies. É o que se chama de especiação alopátrica, ou seja, o surgimento de novas espécies por adaptação a novos ambientes devido à separação geográfica dos indivíduos de uma espécie original.
Em outras palavras, esse sapinho-da-montanha é hoje do jeito que é porque se adaptou a um ambiente específico.
“Eles fazem parte de um ambiente muito único e frágil, o topo de montanhas da floresta atlântica brasileira. Nesses lugares, são predadores de ácaros e formigas e por isso fazem parte da teia trófica [cadeia alimentar] dos ambientes desse tipo de ambiente”, explica Márcio Pie.
Por conta disso, a espécie depende da preservação dos topos das montanhas para sobreviver, visto que os vales da região são campos abertos para os quais não conseguiria migrar. Para os pesquisadores que assinam o estudo, esse quadro é uma amostra da necessidade de conservação das áreas altas da Mata Atlântica e, especialmente, do Quiriri.
Ao contrário dos ambientes habitados por sapos em miniaturas no restante do Brasil, a região catarinense não conta com proteção integral e sua biodiversidade continua ameaçada por pastos, plantações de pinus, queimadas, extração de caulim (um mineral argiloso usado em diversas indústrias) e degradação causada por estradas e trilhas turísticas.
O nome dado à espécie, em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é um reconhecimento, visto que nos três mandatos dele foram criadas mais de 70 unidades de conservação — entre novas áreas, reclassificações e ampliações significativas. O número supera todo o período republicano do país.
O batismo conta, também, como uma reivindicação para o Quiriri. Segundo o estudo, a região é rica em sapos que só são encontrados ali (endêmicos) e estão ameaçados pela perda de habitat, o que exige a criação de um refúgio, formato de unidade de conservação que garante proteção integral da fauna e da flora, porém com uso indireto de recursos. Pela proposta, a unidade não exigiria desapropriação de terras pelo governo e ainda ajudaria no estado de conservação dessas espécies. Existem hoje 90 refúgios no Brasil, para proteger espécies como a ararinha azul e o sauim-de-coleira.
O governo federal, porém, planeja a criação de um parque nacional na região. Esse tipo de unidade de conservação também proporciona proteção integral, mas com foco na preservação do ecossistema e da paisagem. O parque que está sob estudos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) envolve 327 quilômetros quadrados nas serras do Quiriri e de Araçatuba, no Paraná, ainda desprotegidas.
A perspectiva é de que a ciência tenha tomado conhecimento da existência do Brachycephalus lulai com a espécie já em situação de ameaça. Essa avaliação depende de órgãos públicos ambientais e ainda não foi feita. O indicativo do estudo publicado na PLoS One, porém, é que a espécie tenha chance de sobrevivência se contar com proteção e monitoramento.















