A queima de combustíveis fósseis e a expansão da agricultura sobre áreas de vegetação nativa têm transformado o clima e colocado a biodiversidade em risco. Para resistir a isso, a natureza recorre, entre outras coisas, a estratégias de dispersão de indivíduos (no caso de plantas, sementes) que ampliam sua área de distribuição geográfica.
Mas aí entra um problema: as plantas que são dispersas por agentes abióticos (como o vento) e conseguem estabelecer populações viáveis num tempo relativamente curto conseguem se manter, mas as dispersas por animais, como as palmeiras, que precisam de aves e mamíferos para espalhar suas sementes, se expandem mais lentamente, eventualmente não conseguindo acompanhar as mudanças ambientais em curso.
No Brasil, isso é especialmente preocupante porque, embora nossos biomas disponham de territórios naturais protegidos por lei, as chamadas unidades de conservação (UCs), essa divisão é desigual e ainda insuficiente. Cientistas entram em cena para investigar esse impasse. Já haviam sido desenvolvidos estudos para avaliar os efeitos sinérgicos das mudanças climáticas e no uso do solo, na distribuição de organismos do Cerrado, da Mata Atlântica e da Amazônia, com o objetivo de indicar áreas que pudessem ser usadas para a conservação das espécies. Entretanto, ainda existiam ecossistemas, como os campos sulinos, ainda não contemplados nesse tipo de pesquisa.
Os campos sulinos são ecossistemas predominantemente campestres que se encontram nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Além de terem poucas unidades de conservação, eles estão ameaçados sobretudo pela perda e fragmentação do habitat devido à conversão de vegetação nativa em áreas para produção agrícola.
Somadas a isso, agem as mudanças climáticas, que vêm levando a um aumento da temperatura e da precipitação na região e potencializando o avanço da floresta sobre as áreas de campo. Nesse contexto, o uso de indicadores do estado de conservação dos campos sulinos é necessário para obter informações que permitam entender como esses campos respondem às mudanças ambientais.
Um estudo de pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicado em 2021, avaliou o impacto das mudanças climáticas e do uso do solo na distribuição geográfica das espécies de palmeiras dos campos sulinos e a efetividade das atuais unidades de conservação na presente e futura distribuição dessas espécies. Confira o relato dos cientistas envolvidos na pesquisa.
Palmeiras estão entre as plantas ameaçadas
Analisamos dados das espécies de palmeiras dos campos sulinos e criamos mapas para mostrar onde as palmeiras viviam e onde poderiam viver em 2050. Para isso, imaginamos dois futuros possíveis: um cenário mais realista, chamado 4.5, em que as mudanças climáticas não piorariam tanto; e um cenário mais pessimista, chamado 8.5, em que o planeta esquentaria bastante porque a queima de combustíveis fósseis continuaria crescendo.
Para criar os mapas de distribuição das palmeiras, utilizamos informações sobre o clima e o tipo de solo que as palmeiras precisam para crescer, além de informações de locais onde elas já vivem (latitude e longitude), e projeções do uso do solo no Brasil. A ideia era entender melhor quais condições de clima e solo poderiam ser ideais, teriam vegetação nativa de campos e potencialmente poderiam permitir o estabelecimento de cada espécie de palmeira.
Além disso, pensamos em duas situações diferentes: em uma delas, as palmeiras não conseguiriam se dispersar para longe, mesmo que o ambiente mudasse e ficasse ruim para elas. Na outra situação, elas conseguiriam se dispersar aos poucos, viajando até 1 km por ano, encontrando novos locais para viver.
Por fim, comparamos os mapas de distribuição das palmeiras com os mapas das unidades de conservação, para tentar entender se essas áreas conseguem proteger as palmeiras no presente, e para projetar se seriam capazes de proteger as palmeiras no futuro (2050) nos dois cenários propostos (realista e pessimista).
Ao avaliar o impacto das mudanças climáticas e do uso do solo na distribuição geográfica das espécies de palmeiras dos campos Sulinos, os pesquisadores descobriram que, desconsiderando a dispersão, todas as espécies de palmeiras perderiam área de distribuição no futuro; e, considerando a dispersão, todas as espécies ganhariam área.
Avaliar juntos os efeitos das mudanças climáticas e do uso do solo, considerando cenários com e sem dispersão das espécies, é importante porque, se essa análise não for feita de forma completa, os resultados podem subestimar ou superestimar as perdas ou ganhos de área onde as espécies podem viver, atrapalhando a criação de estratégias para conservá-las.
Embora o cenário com dispersão pareça positivo (já que mostra as palmeiras ocupando novas áreas no futuro), é pouco provável que isso realmente aconteça. Para que uma espécie consiga se estabelecer em novos locais, ela precisa primeiramente se dispersar, demandando a presença de animais que ajudam na polinização.
Esses animais, por sua vez, necessitam da presença de vegetação nativa conectando diferentes áreas para conseguir se mover entre fragmentos de campos, o que pode ser dificultado em paisagens muito fragmentadas como aquelas em que hoje estão presentes a maioria das palmeiras dos campos Sulinos.
Uma vez que a dispersão da semente ocorre, a muda de palmeira precisa tolerar as condições (como clima e tipo do solo) do novo lugar, até se tornar adulta e poder produzir seus próprios frutos e sementes. Outro ponto importante é que o cenário com dispersão parte do pressuposto de que a legislação ambiental brasileira continuará sendo respeitada e, portanto, garantirá a presença de vegetação nativa de campos sulinos para que as espécies de palmeiras possam se estabelecer. No entanto, com as atuais políticas voltadas à expansão agrícola, muitas vezes em detrimento da proteção da vegetação campestre, isso é cada vez menos garantido.
UCs ainda são pouco eficazes para a conservação das palmeiras
Quando avaliamos a efetividade das unidades de conservação na proteção das espécies de palmeira, descobrimos que a rede de UCs não é eficaz em proteger espécies como Butia witeckii e B. paraguayensis, com toda a sua distribuição fora da rede de UCs. Além disso, outras espécies têm sua distribuição dentro de UCs de proteção integral menor do que 1%, como B. exilata.
Para as outras espécies, os resultados mostraram que a representatividade das palmeiras dentro de UCs de proteção integral é menor que 2%, padrão que segue para as UCs de uso sustentável, com a exceção de B. pubispatha, Allagoptera campestris e B. microspadix, que tinham 100%, 25% e 22% de sua distribuição dentro deste tipo de UC, respectivamente. Esse resultado provavelmente se deve ao fato de que os campos sulinos contam com uma cobertura baixa de UCs.
Para os cenários futuros, com e sem dispersão, é possível prever um leve aumento na área de distribuição de B. microspadix, B. odorata e Trithrinax acanthocoma dentro das UCs de proteção integral, ressaltando na necessidade de que sejam implementados planos de manejo dentro dessas UCs que incluam essas espécies.
Os planos de manejo podem prever ações para a manutenção do ecossistema de campos, assim podendo servir de refúgio para as palmeiras campestres. Eventualmente, algumas UCs devem prever ações de manejo para limitar o avanço da floresta sobre o campo, principalmente quando o objetivo da UC é proteger palmeiras tipicamente campestres, como é o caso do Parque Estadual do Papagaio-Charão, no Rio Grande do Sul (RS), criad, entre outros objetivos, para proteger a população de Butia exilata, hoje quase desaparecendo. Visitamos esse parque estadual em 2019 e a maioria dos indivíduos de B. exilata dentro do parque se encontrava perecendo sob a sombra de uma floresta jovem que avançou sobre o campo em que habitavam.
Os resultados do estudo mostram que, sem a ajuda de animais que dispersem as sementes, todas as espécies de palmeiras analisadas tendem a perder espaço para viver no futuro. Isso é preocupante porque essas palmeiras já estão em risco, principalmente por causa da destruição e fragmentação dos seus habitats, e muitas só existem em áreas restritas.
Além disso, os modelos usados na pesquisa para prever a distribuição futura dessas espécies de palmeiras não consideraram como os animais que polinizam e dispersam essas palmeiras vão reagir às mudanças no clima e no uso do solo. Portanto, nossa avaliação de perda de área adequada para essas espécies no futuro pode estar subestimada.
Com nosso estudo, concluímos que são necessárias medidas urgentes de conservação que visem as palmeiras dos campos do sul do Brasil. Acreditamos que elas podem servir como espécies-bandeira para a conservação de nossos campos, pois além de terem um papel importante na natureza, muitas delas também são valorizadas por comunidades locais, seja por seus frutos, fibras usadas para confecção de chapéus e vassouras, folhas usadas para alimentar o gado no inverno ou por sua beleza.
Por isso, é importante investir em mais pesquisas sobre essas palmeiras, criar políticas para proteger o ambiente onde vivem, ampliar a rede de unidades de conservação na região dos campos Sulinos, além de implementar as existentes e elaborar planos de manejo efetivos para as que ainda não têm. Além disso, será fundamental conectar, através de restauração ecológica, áreas de campos remanescentes, sejam em UCs ou em áreas privadas. As tarefas para a conservação das palmeiras dos campos Sulinos e desse ecossistema são desafiadoras. Para isso, a ciência pode e deve contribuir. Há muito trabalho em frente.
REFERÊNCIAS
Calambás T, LF. Brum F, T. Hoffmann, P. Gurski, EM. Velazco, SJE. Carlucci, M.B. Avaliação do impacto das mudanças climáticas e no uso do solo na distribuição geográfica de palmeiras dos campos sulinos do Brasil. Dissertação de mestrado em
Ecologia e Conservação – Setor de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Paraná, 2020.
Calambás-Trochez, L. F., Velazco, S. J. E., Hoffmann, P. M., Gurski, E. M., Brum, F. T., & Carlucci, M. B. (2021). Climate and land-use changes coupled with low coverage of protected areas threaten palm species in South Brazilian grasslands. Perspectives in Ecology and Conservation, 19(3), 345-353. https://doi.org/10.1016/j.pecon.2021.03.010
AUTORES
MARCOS BERGMANN CARLUCCI é professor do Departamento de Botânica, onde coordena o Laboratório de Ecologia Funcional de Comunidades, além de ser o coordenador do PPG Ecologia e Conservação da UFPR
LICET FERNANDA CALAMBAS TROCHEZ é mestre em Ecologia e Conservação e doutora em Botânica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Edição: Lívia Inácio








