“Não é mais possível pensar em ‘estilo brasileiro de jogar futebol’ com jogadores formados no exterior” | André Capraro Conversamos com o professor do Departamento de Educação Física da UFPR (que pesquisa história do futebol há 30 anos) sobre os destaques da Copa do Mundo de 2026, a maior em número de seleções: os rumos da Seleção Brasileira, a onipresença do VAR e das bets, e a complexa estrutura global do esporte
A Copa de 2026 sela o fim da era dos estilos nacionais de jogar futebol, adianta André Capraro. Na foto, ele está no Centro de Memória do Departamento de Educação Física da UFPR, em Curitiba. Foto: Rodrigo Waki/PPGEDF/Reprodução

Na esteira dos argumentos da Fifa por mais inclusão e tecnicidade, a Copa do Mundo de 2026 trouxe algumas primeiras vezes para o futebol: primeira vez com 48 seleções, um recorde (eram 32); primeira vez com avatares representando os julgamentos do VAR (em inglês, “árbitro assistente de vídeo”); primeira vez com protocolo antirracismo para proteção de jogadores e torcida.

Porém, para o professor e pesquisador André Mendes Capraro, que há 30 anos observa processos históricos do futebol, o campeonato ficará na memória por outros motivos. A sensação, diz ele, é de que as modificações, em vez de evitar, expuseram polêmicas ligadas às escolhas da federação internacional para a representação do esporte.

Segundo Capraro, o campeonato tem deixado entrever as consequências da consolidação do futebol como indústria global. “Embora o futebol seja o esporte mais popular do mundo, não é mais possível entendê-lo sem levar em conta relações comerciais, políticas e identitárias”, acredita.

É nesse contexto que contradições no uso de recursos — que deveriam aumentar a transparência e a isonomia — criam efeito inverso. Em outras palavras, na Copa de 2026 a tecnologia que prometia objetividade se somou a decisões políticas de bastidores, mais à ostensividade das casas de apostas como patrocinadoras, para deixar questões no ar.

Em campo, a globalização deixa o futebol mais competitivo — afinal, todos treinam igual, nos mesmos clubes, seguindo fórmulas definidas. Ao mesmo tempo, estilos nacionais acabam se diluindo. “Esse efeito acaba, em muitos casos, ocasionando crises identitárias”, analisa Capraro, um dos professores titulares do Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e associado ao Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva (Ipie).

Na entrevista abaixo abordamos essas e outras questões, como a evolução tática do esporte, o que significa o “padrão Fifa” hoje e a dificuldade de combate ao racismo no futebol.


🗣️ Continuando a reflexão sobre a Copa do Mundo de 2026, leia também a entrevista com Danielle Torri


O que a Copa do Mundo de 2026 tem trazido de ideias para a sua produção científica? Da participação da Seleção Brasileira, que acepções ficam sobre a estrutura desse esporte no Brasil, onde é, de longe, o esporte mais conhecido, de maior torcida, patrocínio e cultura? Do posicionamento das entidades, quais bastidores têm decidido os rumos do futebol?


André Mendes Capraro | Essa Copa, sem dúvida, é a mais polemizada nos últimos tempos. Tenho coletados dados para pesquisas após a conclusão do evento, inclusive dados quantitativos, mesmo não sendo o meu foco central [Capraro é especialista em documentação de história oral]. Hoje em dia várias plataformas divulgam dados abertos, desde dados de desempenho técnico-tático individualizados até acerca da arbitragem.

Já podemos levantar hipóteses relevantes de que existem inconsistências em relação à arbitragem, sobretudo intervenções com critérios divergentes por parte do VAR, o que ocasionaria benefícios aos selecionados atletas que tenham relação estreita com a Fifa. Além disso, a entidade, por meio do seu presidente, Gianni Infantino [antes dirigente da Uefa, a confederação europeia, sucedeu a Joseph Blatter na Fifa em 2016], está sendo investigada por permitir interferências políticas externas e internas.

Embora o futebol seja o esporte mais popular do mundo, sem dúvida, não é mais possível entendê-lo sem levar em conta relações comerciais, políticas e identitárias.

Um fenômeno recente que ainda precisa ser aprofundado, por exemplo, é em relação ao impacto que as bets, as casas virtuais de apostas, ocasionam no futebol.

Em que ponto estamos da história do futebol? O que a Copa de 2026 é capaz de representar em termos de processos estruturais já em andamento que podem ter sido consolidados, ou mesmo de reformas que eventualmente podem vir a estar despontando? Estamos em um ponto de ruptura com estereótipos nacionais?


AMC | Estamos em um ponto, creio que sem volta, no qual o futebol se transformou em uma indústria global. Esse efeito acaba, em muitos casos, ocasionando crises identitárias, sobretudo de caráter nacionais. No caso brasileiro, por exemplo, atletas rumam muito cedo à Europa e isso faz com que não se criem vínculos sólidos com os clubes nacionais ou com a Seleção Brasileira.

Isso leva a crer que não é mais possível pensar na existência de um “estilo” brasileiro de jogar futebol, tendo em conta que boa parte do período de formação esportiva se dá no exterior, algumas vezes até em locais periféricos no mundo do futebol.

O próprio Lionel Messi [hoje, aos 39 anos, atuando no Inter Miami] foi muito cedo morar em Barcelona, abrindo uma discussão intensa na Argentina se esse tinha identificação com o seu país. Durante as suas primeiras participações em copas do mundo foi bastante cobrado, inclusive, declarando mais de uma vez que havia se aposentado da seleção. A situação só mudou com a chegada de Gianni Infantino à Fifa e um acolhimento ao jogador por parte da entidade, tendo em conta que a relação cordial poderia trazer benefícios, sejam comerciais, financeiros, de marketing, etc., a todos os envolvidos.

O que a onipresença da tecnologia, como o VAR, significa para esse ponto da história do futebol? Em 1960 o Nelson Rodrigues comentarista de futebol disse: “o videoteipe é burro”. O VAR é o quê?


AMC | Em relação ao VAR, não sou um saudosista. Se existe tecnologia e ela é acessível, deve ser usada para minimizar erros graves cometidos pela arbitragem. Nós humanos estamos sujeitos a erros. Basta lembrar que a Copa já foi definida por um gol em que a bola não entrou, em 1966 [final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental, vencida por 4 a 2 pela primeira], e outro com um gol de mão, em1986 [a Inglaterra derrotada nas quartas de final, dessa vez pela Argentina, por 2 a 1].

Porém, a grande expectativa gerada pela chegada do VAR, a ingenuidade de que não existiriam mais erros gritantes, trouxe a proporcional frustração que tais erros permanecem sendo cometidos.

O VAR acaba privilegiando seleções e, sobretudo, atletas com maior atrativo em termos de índices de audiência.

A atuação do VAR, ainda que sob um discurso de objetividade, pode se dar em vários casos, ditos excepcionais, mas são muitos, que permitem interpretações subjetivas. Vide o caso do belo gol do Egito anulado na partida contra a Argentina [3 a 2, pelas oitavas de final no último dia 7].

Devemos lembrar que a própria Fifa tem uma grande marca esportiva como patrocinadora e essa marca patrocina também várias seleções e atletas.

Na história do futebol o Brasil introduziu um esquema tático, o 4-2-4, que anda mal falado por ser pouco defensivo e sobrecarregar o meio campo; enquanto o 4-1-4-1, que é mais versátil e tem solidez defensiva, despontou como uma fórmula das seleções vencedoras nos últimos 15 anos. A Copa de 2026 sacramentou isso ou parece ter havido mais diversificação?


AMC | A Copa diversificou modelos. Dentre as candidatas ao título, a seleção francesa foi uma das poucas que apresentou um sistema tático com alta intensidade, privilegiando o ataque. Isso foi possível porque a França já tinha uma base consolidada desde a última Copa e vários atletas de uma mesma equipe, o Paris Saint Germain [PSG].

O modelo que mais predominou foi a formação de linhas baixas de marcação, ou seja, um modelo mais defensivo, reativo.

Em relação aos talentos individuais, essa Copa foi marcada pela atuação consistente de vários protagonistas. Esses selecionados aprenderam a montar esquemas táticos que favorecem a atuação dos seus atletas mais talentosos.

Na produção acadêmica de sua coautoria o futebol moderno é descrito como um fenômeno complexo que transcende a prática esportiva, caracterizando-se pela hipermercantilização, pela globalização e por uma evolução técnico-tática baseada no vigor físico. Qual tem sido o impacto desse dogma para o futebol brasileiro? Existe alguma ameaça a essa ideia que se apresentou na Copa ou ela continua forte? Ao mesmo tempo, a vontade de copiar o futebol moderno pode ter tornado a Copa de 2026 mais competitiva, com menos peso de “camisa”?


AMC | Exatamente! Devido a padronização de modelos táticos de jogo e até de condições de treinamento, as seleções são muito parecidas em termos de desempenho.

O predomínio da excelência física gera muitas vantagens, mas, paradoxalmente, como todos priorizam isso, neste Mundial houve um nivelamento natural. Prova é que, mesmo com aumento do número de equipes, goleadas não foram muito comuns. Várias partidas que, a princípio, contavam com um grande favorito, foram muito disputadas. Vide o desempenho, por exemplo, da Seleção de Cabo Verde.

A condição essencial para essa paridade é a padronização do treinamento. Não havendo grande desequilíbrio no desempenho físico geral, a tendência é que as partidas sejam definidas em detalhes.

Em relação à partida entre Brasil e Noruega, por exemplo, as alterações [de jogadores, no segundo tempo da partida] do Brasil que acarretariam, na teoria, maior poder ofensivo, geraram, como consequência, desequilíbrio na marcação, por sinal, bem explorado pela Noruega, para a nossa infelicidade.

Lógico, o futebol é rico exatamente pelas marcas que nos deixa. Iremos lembrar do pênalti não convertido e do gol perdido pelo Endrick? ‘O que aconteceria se?’.

A Copa do Mundo de 2026 foi a estreia do protocolo antirracismo da Fifa instituído em 2024, por meio do qual a federação internacional busca mostrar avanços burocráticos desde casos como o de Grafite vs. Desábato, na Libertadores de 2005. Foi possível perceber diferença do ambiente do campo ou mesmo do estádio?


AMC | Eu pesquisei em conjunto com orientandos por muito tempo episódios de racismo, sobretudo, no âmbito dos campeonatos latino-americanos. A minha impressão inicial era a de que seriam casos isolados, porém, a frequência foi aumentando. Talvez por causa do aumento também do número de câmeras, da maior conscientização social e da cobertura midiática.

Hoje tenho a convicção de que se trata de um caso crônico e emergencial.

Alguns países da América Latina, não só a Argentina, não têm legislações rígidas tipificando o racismo como crime. Se existe uma flexibilidade legal nos seus respectivos países, é normal que atos hediondos como esses ocorram também em outros ambientes e países. O gesto de imitar um macaco com finalidade racista, por exemplo, foi flagrado algumas vezes durante a realização dessa Copa do Mundo.

Tratando-se desse assunto não tem como não mencionar o cântico racista, xenófobo e até homofóbico cantado por parte significativa da torcida argentina na Copa de 2022. A música foi entoada por vários jogadores argentinos durante a comemoração do título e transmitida em live pelo atleta Enzo Fernández.

A Fifa e outras entidades afiliadas emitem notas e multam atletas e clubes cujas torcidas fazem manifestação desse caráter, mas, pensando o mundo do futebol, os valores de tais multas são irrisórios. Essas iniciativas são paliativas e não bastam.

Sobre a Fifa e as federações: o senhor estuda a “mercantilização” e a transformação do futebol em espetáculo global. Como a adoção do “padrão Fifa” e a dependência financeira das federações nacionais em relação à entidade máxima alteraram a relação do torcedor com o estádio, transformando um espaço de sociabilidade em um produto de consumo elitizado?


AMC | Pensando o futebol como um todo, não só as copas do mundo, houve um encarecimento geral do esporte nas últimas décadas. O fenômeno começou na Inglaterra nos anos 1990, sob o pretexto de “expulsar” os hooligans dos estádios. Hoje, assistir a uma partida no estádio, raras exceções, tem um custo significativo. Em uma Copa do Mundo é de modo mais gritante.

Sim, isso resulta em uma elitização do esporte, mas vejo como inevitável, tendo em conta que só o deslocamento, estadia e alimentação em outro país inviabilizaria a presença de populares. Esse processo como um todo tem aproximado o futebol do modelo de espetáculo esportivo oferecido nos EUA, principalmente o basquete, o futebol americano e o beisebol.

Sem dúvida, o modo de torcer mudou. O torcedor que paga caro pelo ingresso tem uma tendência de cobrar mais da equipe do que apoiá-la. Mas ainda faltam pesquisas consistentes sobre esse tipo de impacto no desempenho dos atletas em campo.

Em relação as enormes exigências da Fifa para realização de eventos mundiais e, quando digo enormes, me refiro até a se sobrepor às leis nacionais, essa Copa deixou claro que há sim espaço para contestações e até negações de pedidos.

Contestações esdrúxulas chegaram até o âmbito esportivo, como a suspensão do cumprimento da pena automática após expulsão por parte de um atleta norte-americano.

Estou muito curioso e pretendo acompanhar atentamente qual será o impacto disso na realização da próxima Copa do Mundo Feminina, aqui no Brasil, em 2027. Agora sabemos que é possível dizer “não” à Fifa.

Pensando no futuro do esporte: o quanto o fato de bets estarem no centro do futebol hoje, em termos de popularização e como principais patrocinadores, pode influir no desenvolvimento do esporte e dos seus campeonatos?


AMC | As bets são um ponto nevrálgico para compreensão do esporte na atualidade e não só o futebol. Tenho impressão até que elas poderão, se já não estão, influenciar na dinâmica do jogo.

Como se aposta praticamente em tudo, podem levar um atleta, por exemplo, a chutar mais ou menos em gol, dependendo das odds [em inglês, “probabilidades”, são métricas numéricas usadas nas apostas esportivas].

Também é necessário destacar que, volta e meia, o atleta é comunicado em qual partida deverá tomar o próximo cartão amarelo para ficar “zerado” para partidas mais importantes. Mesmo sendo questionável em termos morais, é uma estratégia muito comum no futebol. O excepcional nesse caso é que o atleta sabe antecipadamente de algo no qual se aposta.

Alguns casos, por esse motivo, foram investigados e punidos aqui no Brasil, porém, para uns as penas foram pesadas e, para outros, irrelevantes. A justiça foi bem desigual nas punições.

➕ Leia sobre impressões de jogadores brasileiros que disputaram copas no livroHistória oral e futebol: Um campo de possibilidades“, organizado por Raphael Rajão Ribeiro e Bernardo Buarque de Hollanda, da editora Letra e Voz, de 2024 (à venda) 
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