Reprodução de perereca da Mata Atlântica cai 83% após surtos de ranavírus, alerta estudo
Perereca-de-folha (Phyllomedusa distincta) é uma espécie endêmica da Mata Atlântica ameaçada pelo ranavírus. Foto: Germano Whoel Jr.

A perereca-de-folha (Phyllomedusa distincta) está entre os bichos mais intrigantes da Mata Atlântica. De tonalidade verde, ela se esconde entre as plantas, caminhando pela vegetação em vez de saltar e, quando ameaçada por predadores, costuma se fingir de morta. Espécie endêmica no Brasil (ou seja, só existe naturalmente aqui), é sensível às alterações ambientais, ajudando a revelar transformações do seu entorno. 

Mas um estudo publicado no periódico Biodiversity and Conservation nesta quinta-feira (20) identificou uma queda na produção de ovos desse animal entre 1999 e 2026, associada a uma infecção por ranavírus, capaz de matar anfíbios em massa. 

Diante de um declínio populacional observado nessa espécie, pesquisadores se uniram para investigar o que estava acontecendo. A pesquisa envolveu uma parceria entre o Laboratório de Interações Biológicas e o Departamento de Biologia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR); o Instituto de Pesquisa em Biodiversidade (IMIB), da Espanha; o Instituto de Zoologia da Sociedade Zoológica de Londres, no Reino Unido; o Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade; o Departamento de Ciências Patobiológicas da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos; e o Laboratório de História Natural de Anfíbios Brasileiros (LaHNAB), do Departamento de Biologia Animal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Testes de biologia molecular permitiram detectar material genético do ranavirus nos animais. Cientistas também identificaram alterações compatíveis com infecções virais por meio da análise dos tecidos das pererecas ao microscópio, e compararam o vírus encontrado com outros para saber a linhagem dos organismos envolvidos na infecção. Ainda foram cruzadas estatísticas do período estudado para investigar se determinadas condições ambientais, especialmente a umidade, estavam associadas à ocorrência dos surtos.

Ranavírus aparece como principal causa do declínio populacional 

Constatou-se que, além da mortalidade dos sapos, a reprodução da espécie havia caído 83% no período analisado, comprometendo sua capacidade de recuperação. Embora as condições climáticas também tenham contribuído para o fenômeno, surtos de ranavírus do clado FV3 foram apontados como a principal causa do declínio populacional. 

Doenças causadas por esse grupo de vírus, muito associado a mortes em massa de anfíbios, já são conhecidas em outras partes do mundo, como Europa e América do Norte, mas havia poucas informações sobre seu impacto em populações da América do Sul. 

“Nosso estudo é o primeiro a comprovar esse vírus como causador de mortalidade em massa de um anfíbio nativo no Brasil”, disse à Ciência UFPR a professora Karla Magalhães Campião, do Departamento de Zoologia da UFPR, co-autora do artigo.

Anfíbios funcionam como sentinelas dos ecossistemas 

Por terem um ciclo de vida bifásico (parte na água e parte em terra), os anfíbios estão sujeitos às mudanças que ocorrem nos dois ambientes, o que os torna especialmente sensíveis às alterações ambientais. “Em torno de 40% deles sofrem algum grau de ameaça de extinção”, diz Campião. Essa mesma sensibilidade faz com que o declínio de suas populações funcione como alerta quando algo está errado no entorno. Por isso, eles são considerados sentinelas ambientais.

Mas os anfíbios não são apenas indicadores da saúde dos ecossistemas, também desempenham funções importantes para seu equilíbrio, diz Aline Fonseca, doutoranda em Ecologia e Conservação na UFPR e uma das autoras principais do artigo. Eles se alimentam de uma grande variedade de organismos, incluindo larvas de insetos que são potencialmente transmissores de doenças. Ao mesmo tempo, servem de alimento para outros animais, como aves, integrando diferentes níveis da cadeia alimentar. 

Ainda não se sabe, porém, qual é a origem da linhagem viral identificada. Também permanece em aberto como o vírus chega e se dissemina entre populações silvestres. Essas respostas importam porque doenças infecciosas podem provocar quedas rápidas em populações inteiras, demandando maior vigilância sanitária da fauna e acompanhamento de novos surtos mesmo em áreas de conservação. Uma das hipóteses investigadas é a participação de espécies exóticas invasoras, que poderiam atuar como reservatórios do vírus e contribuir para sua manutenção e disseminação no ambiente. 

 “Quando uma espécie é reservatório do vírus, ela não fica doente, nem apresenta sintomas da doença. No entanto, o vírus está presente em sua corrente sanguínea e pode ser transmitido a outros indivíduos”, diz Fonseca. 

A cientista cita como exemplo a rã-touro-americana (Lithobates catesbeianus), introduzida no país na década de 1930 para a criação comercial e o consumo de sua carne. Com o fracasso da atividade, muitos ranários foram abandonados e parte dos animais escapou para a natureza, onde encontrou condições favoráveis para se estabelecer. “Há uma grande preocupação em relação a como ela pode estar contribuindo para a disseminação do vírus na Mata Atlântica”, diz a pesquisadora. 

Mas essa relação ainda está sendo investigada, segundo Fonseca. A pesquisadora dedica seu doutorado a compreender o papel da rã-touro na dinâmica do ranavírus e sua relação com as espécies nativas da Mata Atlântica. A expectativa é que os resultados ajudem a aprimorar o monitoramento e o manejo dessas espécies e contribuam para estratégias de conservação mais eficazes diante da ameaça dos surtos de ranavirose.

 “Acredito que os estudos contribuirão para a construção de protocolos de monitoramento e manejo das espécies nativas e, com isso, poderemos ser mais ativos nas estratégias de conservação”, conclui. 

➕ Leia o artigo Population decline of a leaf frog coincident with recurrent ranavirosis outbreaks in the Atlantic Forest, publicado no periódico Biodiversity and Conservation (aberto; em inglês)
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