Frequentar o Edifício Dom Pedro I, que abriga a maioria das salas de aula do Campus Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Curitiba, significa se deparar com o cotidiano de um pequeno fenômeno social recente. A capital paranaense é uma das que mais recebeu imigrantes estrangeiros no Brasil nos últimos 15 anos, segundo números disponibilizados pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra).
Parte desses novos residentes passam pela UFPR, uma das federais empenhadas, há mais de dez anos, na promoção de cidadania dessa comunidade por meio do Programa Política Migratória e Universidade Brasileira (PMUB) e da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). No quarto andar do Dom Pedro I, por exemplo, fica a secretaria das aulas de português como segunda língua, o que explica os avisos nas paredes em inglês, espanhol, árabe e francês.
No nono andar fica o Departamento de Sociologia da UFPR, onde o professor titular Márcio de Oliveira tem pesquisado as novas levas de imigração internacional do Brasil. Historicamente um país de emigrantes, com mais de 4 milhões de nacionais vivendo no exterior, o país passa pelo que Oliveira descreve como uma espécie de espanto a cada aumento do trânsito em direção às suas próprias fronteiras.
“A atual leva de migrantes latinos vêm se instalando em algumas regiões brasileiras. Em relação aos pouco mais de 200 milhões de brasileiros, ainda não são muitos, mas começam a ser relativamente notados e igualmente importantes em algumas regiões. É assim que chamam atenção”, explica.
Esse aumento ocorreu principalmente com haitianos e venezuelanos, hoje as duas maiores comunidades de estrangeiros no Brasil, juntamente com portugueses, bolivianos e argentinos (as cinco principais). Atualmente são cerca de 1,48 milhão de estrangeiros vivendo no país, a maior parte em capitais do Sul-Sudeste.
Coordenador do projeto de pesquisa Atlas Sociodemográfico da Migração Internacional no Paraná, financiado pela Fundação Araucária, Márcio de Oliveira conhece como poucos a situação da imigração internacional no estado.
Nesta entrevista, ele comenta sobre as histórias desses grupos de imigrantes e seus impactos na sociedade brasileira, desde a absorção pelo mercado de trabalho até perspectivas culturais, passando pelos conflitos (cuja face mais problemática são a xenofobia e o racismo) e por uma nova ideia de integração como conceito sociológico que não apaga culturas.
Algum motivo específico o levou a estudar migração?
Márcio de Oliveira | O tema da migração me chamou a atenção desde que eu cheguei no Paraná, especialmente em Curitiba, por ter achado na cidade um caldo étnico, uma fusão étnica particular. É uma cidade que parecia muito branca em termos de perfil racial e cor. Mas me chamava a atenção também a questão ambiental da cidade, muitos parques e esses parques dedicados às etnias. Isso foi o primeiro ponto. Comecei estudando, inclusive, a origem dos parques e dos bosques de Curitiba. Publiquei sobre isso um pouco. Lentamente a partir disso me interessei por outros temas. Fui me interessando pela história do Paraná e da imigração no Brasil, na virada do XIX para o século XX.
Mais recentemente, de 2010 para cá, comecei a me interessar mais pela imigração porque justamente coincidiu com o aumento do fluxo, em especial com a chegada dos haitianos [ao Brasil]. Porque a gente já tinha fluxo de imigrantes sul-americanos importantes, peruanos, bolivianos, paraguaios, as três nacionalidades vizinhas. Pelo Mercosul, Argentina, Uruguai, a gente tinha um pouco também. Um pouco de africanos devido aos programas de intercâmbio [das universidades]. Mas a partir do terremoto [em 12 de janeiro de 2010. As estimativas indicam de 100 mil a 200 mil mortes e cerca de 3 milhões de afetados. Entre os mortos estão brasileiros, como a médica Zilda Arns, da Pastoral da Criança, e o diplomata Luiz Carlos da Costa] o Haiti entrou na mídia definitivamente e o Brasil se tornou rota para migração haitiana. Tudo isso foi contribuindo para que, de fato, a partir de 2013 eu começasse a estudar a migração internacional.
Isso coincide com a criação do Observatório das Migrações Internacionais, o OBMigra, que há pouco mais de dez anos. Conheci o coordenador, professor Leonardo [Cavalcanti, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (UnB)], e se tornou um amigo. E desde então trabalhamos muito em parceria, publicamos junto, fazemos evento junto. É um grande parceiro.
Com a produção de dados do OBMigra, percebemos que o fluxo de imigração se dirige mais aos estados do Sul. Ou seja, a imigração recente para o Brasil é focada nos estados do Sul. Está em sete em cada dez [imigrantes]. São imigrantes latino-americanos, africanos, asiáticos, paquistaneses, afegãos, que se dirigem para algum dos estados da região Sul.
Se pegar o conjunto dos imigrantes internacionais que estão no Brasil, as mais de 180 nacionalidades, o Estado de São Paulo continua o principal destino. Mas, se pegar a migração sul-americana, retirando dela os bolivianos, ainda muito ligados a São Paulo, vemos como muitos vão para os estados do Sul. E, como no passado, os estados do Sul passaram a atrair imigrantes.
Na virada do século XX, também sete em cada dez imigrantes estrangeiros tinham se instalado em São Paulo ou em algum estado do Sul. A proporção era quatro para São Paulo, um para o Paraná, um para Santa Catarina, um para o Rio Grande do Sul [e o restante, três, para outras regiões]. Mas, enfim, sete em cada dez estavam aqui.
Agora continua mais ou menos igual, só que São Paulo perdeu em importância entre os estados mais acolhedores [de migrantes sul-americanos].
Os destinos mais importantes são, pela ordem, Santa Catarina e Paraná, próximos um do outro, e o Rio Grande do Sul, um pouco inferior, mas ainda acima de São Paulo. Então os estados do Sul ainda são mais atrativos para a migração sul-americana e latino-americana do que São Paulo. Isso veio chamando a atenção e o foco para cá.

Paralelamente a isso o Paraná criou a Agência do Migrante [inaugurada em 2025 em Curitiba, na Rua Marechal Deodoro da Fonseca, n. 806], criou o Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas, e muitas entidades religiosas passaram a trabalhar, tanto as católicas, a Pastoral do Imigrante, o Cáritas, com as igrejas evangélicas, a Primeira Igreja Batista e outras.
A universidade [UFPR] criou o PBMIH [projeto de extensão Português Brasileiro para Migração Humanitária], que ensina português brasileiro para imigração humanitária, que foi uma demanda da Prefeitura de Curitiba.
A cidade de Curitiba em especial foi constituindo uma rede de atores, hoje muito grande, que trabalha sobre isso e que facilita o nosso trabalho. Tem gente do Tribunal de Justiça, tem gente das prefeituras, tem gente das universidades, tem associações dos próprios imigrantes, tem fórum de empresas com refugiados da Fiep [Federação das Indústrias do Estado do Paraná].
São atores em diversos níveis, em diversos espaços, que se interessam pela questão da migração. Mesmo na universidade isso reuniu colegas da Psicologia, do Direito, aqui da Sociologia, da História, de Letras, de Saúde, de Geografia.
Como sou sociólogo, estudo pessoas, os migrantes. Não apenas os dados, mas a realidade. Como estão se integrando, que é o nosso verbo tradicional na sociologia, o que estão trazendo para a sociedade, os conflitos que estão sendo eventualmente gerados, as eventuais práticas de racismo e xenofobia, que infelizmente ocorrem.
Já ocorria racismo no Brasil, claro, mas a xenofobia era mais rara. Começou a aparecer xenofobia também.
As reações de preconceito são bastante intrigantes, porque o brasileiro ainda é mais emigrante do que convive com imigrantes, certo?
MO | Essa é uma boa pergunta, é curioso que haja mais brasileiros no exterior do que estrangeiros no Brasil. A população estrangeira está em torno de 1%, 1,5% na melhor das hipóteses. Daria de um milhão a 1,5 milhão de estrangeiros no Brasil. Para quatro milhões de brasileiros vivendo fora do Brasil.
O Brasil continua exportando pessoas, não importando. Em termos jurídicos, o Brasil é acolhedor. Mas, em termos demográficos, como falei, a presença de migrantes no Brasil ainda é modesta.
O interesse do brasileiro sempre foi estudar em outros países, em especial nos Estados Unidos. Houve a leva de Governador Valadares [cidade mineira apelidada de “Valadólares”, por ser pólo de emigração para os EUA] por causa dos engenheiros de minas americanos que se estabeleceram no Vale do Rio Doce, criando uma corrente de valadarenses para a região de Boston e Massachusetts. Houve também os decasseguis [termo em japonês que significa “sair para conseguir dinheiro”, geralmente descendentes de japoneses] no Japão, os brasileiros em Portugal, que é o segundo país a receber brasileiros depois dos EUA. Também na França, na Espanha, na Inglaterra, em outros países, em menor quantidade. E brasileiros em países sul-americanos, em pequena quantidade, né? Brasileiros por aí tudo.
Na sua opinião como o brasileiro racionaliza a xenofobia com o imigrante? Falta conhecimento da posição do país no mundo?
MO | De fato, é o contato, né? Quer dizer, o brasileiro era acostumado com o imigrante [branco] europeu, no máximo o japonês, no máximo o sírio-libanês. Essa imigração já está na terceira ou quarta geração, são brasileiros.
A novidade começa com os haitianos, porque chegam aos estados do Sul, onde a maior parte da população é autodeclarada branca. E aí começou a ter realmente um conflito. O brasileiro se redescobriu racista, como se não soubesse que era. Efetivamente temos práticas de racismo em diversas áreas, mas o brasileiro nega isso.
O racismo foi a primeira coisa que apareceu nos contatos diários, em especial nas empresas. Ao lado disso veio a xenofobia, porque os imigrantes têm plenos direitos no Brasil. Não têm direitos políticos, de votar e ser votado. Mas têm os direitos sociais, acesso a tudo que um brasileiro tem. SUS, educação, vacinas, PIS Pasep, abono abono salarial, programas sociais, vagas nas escolas e nas creches.
Então, muitas vezes, lá numa creche municipal, o imigrante venezuelano conseguiu uma vaga para o filho. Aí o brasileiro fala: “Por que ele conseguiu, se eu não consegui?” Ou numa escola há crianças estrangeiras e as outras crianças reparam nisso, obviamente, porque não estavam acostumadas a conviver com crianças estrangeiras. E a escola muitas vezes não lida bem com isso, começa a dar uma visibilidade indevida àquela criança. Em vez de naturalizar, afinal são todas crianças, todos alunos, muitas vezes chama atenção por conta do sotaque, do choque com o sistema de ensino.
Começa a haver um conflito que seria facilmente solucionável, mas, como as escolas e o Estado não criaram políticas efetivas de integração… O Brasil abre as portas, mas não tem política de acolhimento efetiva.
Não tem professor de espanhol que acolhe bem, não tem estruturas do Estado. Quer dizer, a União até acolhe bem, mas cada estado faz a sua política. O Estado do Paraná fez, mas nem todos têm agência do imigrante, por exemplo. É um local de acolhimento, de triagem para regularização de documentação, de cartão SUS e com uma base Sine [Sistema Nacional de Emprego, de colocação no mercado de trabalho]. É um espaço bastante original em termos de Brasil.

Tem ainda a xenofobia de um patrão que não quer pagar os direitos integrais. Que diz: “você não entende direito português, então faz o pior serviço”. E esses patrões se valem disso e defendem, protegem seus empregados brasileiros em detrimento dos imigrantes venezuelanos ou haitianos. Isso é mais sério ainda com as mulheres, porque a gente sabe que o assédio a sexual e moral em relação às mulheres sempre é mais forte.
Isso é xenofobia, discriminar pela nacionalidade. Significa qualquer prática discriminatória que tenha por fundamento a nacionalidade que não seja brasileira.
Como a presença dos imigrantes negros em estados onde a maioria da população se autodeclara branca impacta o racismo já existente no Brasil? Há efeitos sobre a população negra brasileira, como ser confundido com estrangeiro, por exemplo?
MO | Isso é a coisa mais curiosa do mundo. A primeira coisa é que os haitianos se descobrem pretos [no sentido de ser posicionado continuamente em um espaço de minoria] quando chegam ao Brasil, porque 99% da população haitiana é preta, não há uma diferenciação com base em cor e raça.
A segunda é que, se existe essa confusão no Brasil, é porque é como se a população preta brasileira fosse invisível. E isso não é verdade. Se pegar o dado do IBGE, em Curitiba deve estar em torno aí de 25%, 30% de pardos e pretos. Mas é como se não tivesse ninguém.
Se alguém vê um brasileiro preto e logo intui que é haitiano, é porque nunca tinha reparado na diversidade da sua própria comunidade.
No fim o haitiano ainda trouxe isso, visibilizou a cor que o brasileiro negava. Negava que o outro era preto ou discriminava, mas dizia que não era isso. Porque racismo é crime, né? Há muito preconceito racial no Brasil dissimulado, negado, porque a pessoa, obviamente, pode ser acusada de um crime grave.
A gente vive num momento também onde essas práticas racistas, em especial nos últimos anos do anterior governo, foram realçadas. Formou-se uma extrema direita que se vale dessa [tese de] supremacia branca, imita elementos de fora do Brasil, incorpora certos valores. Apareceram grupúsculos, felizmente são grupúsculos, mas existem.
É interessante pensar que a presença da migração haitiana no Brasil pode ter mostrado que os pretos brasileiros estavam desaparecidos, tiveram suas expressões culturais invisibilizadas, cercadas de preconceito. Tudo isso é o que chamam de racismo estrutural da sociedade brasileira.
Em um artigo recente, o senhor comenta que a migração foi um tema que deixou de mobilizar a intelectualidade em um momento da academia brasileira, que passou a se voltar para outras questões, como desigualdade racial e formação de classe. Isso explica por que aumentos recentes da imigração surpreenderam políticas públicas?
Houve de fato deslocamento temático dentro de um campo científico particular, que são as ciências sociais. Houve uma mudança de foco em questões não apenas dos migrantes, mas a de comunidades rurais, de grupos comunitários em geral, de comunidades indígenas, porque se argumentava que eventualmente uma certa época todos seriam “assimilados”, portanto não haveria mais por que pensá-los a partir de variáveis.
Mas eu acho que a surpresa [das políticas] veio mesmo do grande fluxo. Porque se a gente pensar, que nos últimos 15 anos, chegaram ao Brasil quase 900 mil venezuelanos e haitianos, um número gigantesco para pouco tempo.
E esses grupos se instalando em poucos locais do Brasil. São poucos no Brasil como um todo, mas começam a ser relativamente notados e pessoalmente importantes em algumas regiões. Então, aí chama a atenção. Então, acho que o brasileiro foi surpreendido por esse fluxo porque o Brasil, como eu disse, ainda é exportador de mão de obra. Inclusive qualificada.

O Brasil não se achava um país rico suficiente para atrair imigrantes. Não era visto como a principal economia da América Latina, o país mais rico do Mercosul de longe.
A economia brasileira é muito forte e o Brasil é um país estável politicamente. Com exceção da tentativa de golpe recente, o Brasil já tem mais de 40 anos de democracia, uma estabilidade da moeda que vem desde os anos 1990, uma economia forte, diversificada.
Quando os imigrantes chegaram, em 2014, 2015, o Brasil tinha falta de mão de obra e pagava relativamente bem em dólar, melhor do que paga hoje. Isso é importante porque os imigrantes remetem aos familiares no país de origem uma parte do que ganham. O câmbio é muito importante para o imigrante.
Mas mais importante são as condições do país de origem. A Venezuela, por exemplo, se tornou um país complicado por uma série de fatores que seria longo explicar, mas que envolve o que eu chamo de uma geopolítica da economia mundial dos recursos naturais.
A Venezuela, como segunda maior reserva de petróleo do mundo, foi envolvida nessa geopolítica de recursos naturais. É um país de imigrantes, aliás, ainda hoje tem proporcionalmente mais estrangeiros do que o Brasil. Mesmo com a crise, para ver o quanto a Venezuela atraía estrangeiros.
A partir de 2014 a produção diária de barris de petróleo da qual a Venezuela dependia caiu até chegar a um terço do que era [três fatores se somaram: o país entrou em crise institucional, começou a sofrer embargos dos EUA e os preços do petróleo caíram, por aumento de oferta e desaceleração na demanda].
A crise se aprofundou e, de 2018 para cá, chegaram 96% de todos os 650 mil venezuelanos que vivem no Brasil. É muita gente em pouco tempo. Hoje em Curitiba há supermercado onde se escuta espanhol no caixa, na padaria, no açougue, na limpeza, o tempo inteiro.
O imigrante venezuelano se adapta mais facilmente ao Brasil, por serem sul-americanos, aprenderem português mais rapidamente. É uma língua distante para o haitiano. Há casos de xenofobia contra venezuelanos, mas de maneira geral, o acolhimento é maior. A presidente do Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas do Paraná é uma venezuelana [a professora Rockmillys Palomo, também presidente da ONG Ação Social Irmandade Sem Fronteiras, assumiu em 2025 o mandato do conselho até 2028]. Não é um cargo político, mas é um cargo dentro de uma estrutura de governo. Dá uma visibilidade, um reconhecimento, é importante.
A crise venezuelana não modificou em nada com a extradição, a captura do presidente [Nicolás] Maduro, então o fluxo migratório brasileiro continua tão intenso como era.
O senhor comentou que estudou os parques de Curitiba e as homenagens que eles fazem a etnias. Ainda assim, Curitiba tem registros de conflitos étnicos que remontam a poucas décadas.
MO | Veja, o principal conflito étnico em Curitiba foi entre dois grupos, poloneses e descendentes de alemães e austríacos. Na época da forte migração polonesa para o Paraná, a Polônia não existia como estado. Estava ocupada por três impérios, o Austro-Húngaro, mais ao Sul, a Prússia, mais a Oeste, e a Rússia mais a Leste. Os poloneses migravam com passaporte austro-húngaro ou alemão e, chegando ao Brasil, muitos foram enviados para áreas de colonização alemã no Vale do Itajaí [em Santa Catarina]. Havia um preconceito grande dos alemães contra os poloneses que é da Europa, não nosso. Um preconceito importado. Foi reproduzido em conflitos étnicos que ocorreram em Curitiba até os anos 1920, eu diria, mais um pouco na Segunda Guerra [1939 a 1945], porque o Brasil não ficou do lado da Alemanha em nenhuma das duas guerras mundiais.
Mas esse é um conflito importado, da mesma maneira que o entre poloneses e ucranianos. Aí a Polônia ocupou a Ucrânia, que era digamos o primo pobre na história. Esse conflito se reproduziu em certa medida aqui.
O fato é que essas comunidades se reconheciam como diferentes e se fecharam no início. A partir dos anos 1930, 1940, isso diminuiu. Virou coisa da memória dos mais antigos.
Como houve contra os japoneses, que aí sim [politicamente] foram inimigos do Brasil na Segunda Guerra. Houve preconceito contra japoneses e descendentes, em outros países também.
Esses comportamentos vão ao encontro das discriminações que já existiam no Brasil, um país que produzia desigualdade. Os imigrantes entram num país já, digamos assim, com uma vivência de separação de pessoas, de inferiorização, que não é outra coisa se não a luta por recursos na sociedade.
Toda vez que você inferioriza alguém, discrimina alguém, é para mostrar que aquela pessoa não tem direito ou não tem tanto direito àqueles recursos. É para dizer “eu mereço mais, eu mereço a posição que eu ocupo e você não merece”.
Daí eu não reconheço que aquele indivíduo tem um diploma, digo: “esse diploma é no seu país. Aqui você vai ser um caixa de supermercado”. Essa é uma desqualificação útil do ponto de vista do emprego, porque você contrata uma pessoa bem qualificada, que vai trabalhar bem, que precisa do emprego, que não vai faltar porque tem medo de ser mandado embora. E você desqualifica os saberes dela.
Hoje a economia paranaense se vale da mão de obra imigrante. E os dados mostram, não pagam o suficiente.
O quanto essa integração do imigrante é real na cidade?
MO | O processo de integração já foi chamado de aculturação ou assimilação. Os americanos ainda usam “assimilação”.
Não usamos mais esses termos porque negam a cultura, como se fosse algo que se deve esquecer. Como se fosse uma simbiose, uma fagocitose, um envolvimento tal por outra cultura que a sua cultura original desaparece.
Leva gerações para desaparecer, se é que desaparece. Sempre há memórias que são passadas e cultuadas, as histórias das famílias e as diferenças entre as pessoas. As pessoas são diferentes. Cultuar isso do ponto de vista familiar, cultural, afetivo, é um processo natural. Quando isso é instrumentalizado política e economicamente é que surgem os problemas.
Em todos os países americanos, porque as três Américas são de países de grandes fluxos de imigrantes, a tendência é natural é a integração, a formação de um caldo comum de nacionais. A Constituição Brasileira não separa nem discrimina devido a raízes étnicas, preferências religiosas, nenhuma dessas variáveis.
Antigamente as políticas migratórias brasileiras foram preconceituosas com alguns grupos. Por exemplo, ao dizerem que o japonês era “inassimilado”, por isso não deveria ser aceito. Francisco José de Oliveira Viana [sociólogo, jurista e um dos principais ideólogos do “branqueamento” do Brasil, crítico da imigração japonesa] escreveu nos anos 1930 que o japonês seria inassimilável “como enxofre na água”.
Nenhuma nacionalidade é homogênea, é bom lembrar. A distinção entre pessoas e grupos é o que marca as sociedades humanas. Não é harmonia e cooperação, ao contrário, são os conflitos. A história das nossas sociedades é uma história de conflitos. O Brasil não é diferente de nenhum outro país nesse sentido.
Quando a língua é muito distante, as comunidades de imigrantes se concentram em trabalhar na forma de redes. Vivem em torno daqueles que comungam a própria língua. As pessoas querem falar a própria língua, conversar sobre a saudade que sentem, reclamar de algum comportamento cultural brasileiro, comprar um ingrediente para manter hábitos culinários.
Aí que devemos entender que as comunidades imigrantes às vezes não querem se integrar totalmente. Isso é muito comum nos Estados Unidos, as comunidades latinas não querem mais ser necessariamente americanas. Podem viver no meio deles, ganhar dinheiro e trabalhar, ir para escola e escutar rádio, abrir comércio e fazer as suas festas. Para que se integrar totalmente? Não há mais uma perspectiva de integração total.
Por isso o que se deve garantir são oportunidades, um acolhimento inicial, a documentação, para que a pessoa faça a sua própria vida. Seja aqui, seja imigrando para outra cidade brasileira, seja eventualmente indo para outro país.
Agora a gente trata de fluxos migratórios e não do processo mais antigo, pelo qual o imigrante chegava e praticamente cortava as pontes com o seu país de origem. Hoje as pessoas vivem em comunidades transnacionais, em famílias transnacionais. A integração é uma integração seletiva. Tudo o que a gente vê de diferença e alguns podem chamar de fechamento são escolhas comunitárias. Pessoas querem produzir as suas próprias vidas em um mundo diverso, fragmentado.
Não é todo país que aceita essa perspectiva, certo? Por visão política, não há os que obrigam a uma integração?
MO | Veja, pesquisas recentes na França, o país que eu conheço mais, colocam a preocupação com a imigração em baixa prioridade. Para o francês comum, a principal preocupação é emprego e renda. Obviamente, são países em que sempre houve certa igualdade do ponto de vista salarial, mas onde o fosso entre os mais ricos e os mais pobres aumentou. Diferentemente dos EUA, o país de maior desigualdade dentre as nove economias, uma desigualdade que continua aumentando, países como França, Inglaterra e Alemanha não conheciam esse problema.
Frente a isso, a imigração não é um problema para a Europa. Efetivamente, não é. Mas é um problema muito falado no mundo.
Como são os pais mais ricos, há uma pressão, uma demanda de pessoas querendo entrar legal ou ilegalmente. Há uma pressão demográfica, porque há muita pobreza no mundo. Ou em guerra. A grande migração recente para a Alemanha foi de sírios. Por quê? Porque a Síria está há 15 anos em guerra. Moradores de Gaza não têm opção. Tentam entrar no Egito ou na Jordânia, que está cada vez mais colonizada [por Israel]. Para onde essas pessoas vão? Para os países mais ricos. Se não podem ir, escolhem outros. Quando sul-americanos não podem ir para os Estados Unidos, escolhem o Brasil. O Brasil nunca é a primeira opção, sempre é os Estados Unidos.

Mas voltando, se a imigração não é uma preocupação popular, por que um determinado grupo político, que a gente qualifica como extrema direita, coloca tanto esse motivo na campanha? Porque faz debate, chama atenção. Muitas vezes qualificam de imigrante até o neto do migrante. O neto de um senegalês, portanto, preto. Mas se já é terceira geração, ele é francês. Só que esses migrantes, obviamente, foram morar nas periferias das grandes cidades. E disputam o mercado de trabalho com os mais pobres.
Então, é um discurso atrativo para esses mais pobres. “Olha, está vendo o imigrante, ele comeu o pão, e você está sem emprego”. Não é verdade, porque a parcela de migrantes é pequena, está em 6%, 7%, 8%. Se o pobre francês está sem emprego é por outros motivos. Mas o discurso acaba fazendo muito efeito para essas comunidades.
É óbvio que pega um caldo racial, de xenofobia. O europeu muitas vezes se vê como uma ilha de prosperidade no meio de um mar de conflitos. Como se não fossem responsáveis por muitos desses conflitos.
Então, a extrema direita se vale muito de um tema que não é real em termos econômicos.
Ao contrário, os empresários desses países dizem: “Se mandar os estrangeiros embora, ninguém mais vai abrir a porta do metrô às cinco da manhã, nenhum alemão quer trabalhar às cinco da manhã”. Quem abre a porta do metrô é quem acorda às 4h30 para vir trabalhar de bicicleta, porque não vai ter transporte. Quem vai limpar o escritório de manhã cedo para você chegar às 8:30? Quem vai fazer a série de serviços básicos mal pagos que a mão de obra imigrante faz? Então, os empresários dizem: “Parem de criminalizar e de querer mandar embora estrangeiros, porque isso vai ser vai ter um baque na economia muito grande”.
Além disso, todos esses países têm um gap demográfico importante, pessoas nascem menos do que morrem. São populações declinantes, que estão envelhecendo, com pressão sobre os sistemas previdenciários. Esses grupos de extrema direita silenciam totalmente sobre esses pontos. Se alguém perguntar, vão inventar qualquer salada.
A política europeia deveria ser atrair a mão de obra. A imigração não é um problema. Ela tem que ser pensada como uma solução.
O Brasil em certa medida poderia acordar para isso também, porque tem certas áreas que está faltando mão de obra. A economia cresce e o Brasil está começando a chegar no seu limite demográfico também. Os demógrafos dizem que a gente deve chegar a algo entre 235 milhões e 245 milhões de habitantes, no máximo. A Argentina, por exemplo, parou nos seus 40 milhões há muito tempo, mas, como a economia não cresce muito, se estabelece. Agora a Argentina tem 5% de mão de obra estrangeira. Bolivianos e paraguaios, sobretudo.
Então há uma certa incoerência em vincular o crescimento da extrema direita à questão migratória. Isso não se sustenta nos fatos, mas se sustenta no discurso. Porque o discurso xenófobo, racista e preconceituoso faz muito efeito na Europa e esses grupos de direita estão se valendo disso.
O Brasil consegue acolher imigrantes estrangeiros? Como você avalia a Operação Acolhida, deflagrada pelo Exército em 2018 para resolver o povoamento da fronteira com a Venezuela em Rondônia por meio de uma política de interiorização de imigrantes?
MO | Emprego, redes e estrutura de acolhimento fazem com imigrantes estejam vindo mais para os estados do Sul. São estados em pleno emprego, onde falta mão de obra. Isso acontece também nos estados com agroindústria, setores beneficiados por enorme renúncia fiscal, com empresas que pagam poucos impostos e vendem muito, e têm alta rotatividade de mão de obra.
A Operação Acolhida foi criada pelo governo Temer para resolver uma questão humanitária. Era muita gente sem condição de ficar ali. Não tinha emprego para aquelas pessoas e o Brasil tinha que cumprir a proteção dos acordos internacionais. A Venezuela estava protegida pelo acordo de paz associado ao Mercosul, que depois foi revogado.
A cidade de fronteira, Pacaraima, no extremo Norte de Roraima, não tinha condições de abrigar tanta gente. Isso piorou problemas que já existiam. Não foi o imigrante que inventou os problemas de Roraima. O estado já tinha conflito em terra indígena, a Raposa Terra do Sol, de mineração ilegal, de contrabando de ouro, de tráfico de drogas. Mas a presença dos imigrantes leva muita gente a ter uma percepção equivocada.

A crise foi produzida pelas condições da Venezuela e o Brasil lidou não tão mal assim, eu diria. Talvez a operação pudesse ser gerida de maneira mais civil e não tão militar, mas interiorizar os imigrantes é um desejo também deles. A operação interiorizou uma parte dos imigrantes, por adesão deles mesmos.
Fora essa situação de crise, o atrativo do Brasil é o conjunto de direitos sociais e o sistema de proteção social brasileira. Os imigrantes sabem disso. O salário não é muito bom, mas o sistema de proteção social é.
O que você pensa da onda midiática dos brasileiros que mais recentemente decidiram emigrar para o Paraguai? Como isso se coloca dentro da história da migração do país?
MO | A relação mais tradicional entre os países são os brasiguaios, setores econômicos que compram terras no Brasil e no Paraguai para produzir. No Paraguai o sistema de impostos é barato, as terras são mais baratas. Então uma expansão do agro brasileiro vai para cima do Paraguai.
Os motivos antigos continuam nessa atual onda dita de direita. Menos impostos, facilidade de abrir empresas e, com certeza, a ideologia misturada. Nesse sentido há novidade. Vamos ver quanto tempo dura.
O Paraguai tem serviços públicos ruins, tanto que paraguaios é quem cruzam a fronteira para se consultar em Foz do Iguaçu [no Paraná] e municípios vizinhos, onerando a capacidade local. Reclamação antiga dos prefeitos da região.
Vai ser interessante acompanhar esses novos brasileiros quando precisarem de internações caras, tratamentos longos, que são caros. Imagino que vão recorrer ao SUS brasileiro.
Enfim, ir e voltar de um país não caracteriza migração. Por exemplo, há quatro faculdades de medicina, com muitos funcionários brasileiros, num raio de 30 quilômetros a partir do centro de Ciudad de Leste.
Os cursos são mais baratos do que os similares brasileiros e a formação é boa, inclusive com residência e atendimento à população paraguaia. Os estudantes brasileiros de Medicina não chegam a residir em Ciudad de Leste. Pegam vans vão e voltam todos os dias.
Como não moram lá, é um fato que não caracteriza migração. São fronteiriços originários de várias regiões do Brasil e, no retorno, enfrentam o Revalida [Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos, aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) para condição de exercício da medicina no Brasil].







