Todo mês de janeiro, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) recebe os aprovados do vestibular com uma piscina de lama. Ao conferirem seus nomes na lista, afixada em um painel do Setor de Ciências Agrárias, em Curitiba, os futuros alunos entram nela para comemorar a conquista com muito barro, risadas e celulares erguidos, num misto de caos e emoção.
Este ano, a festa acontece nesta sexta-feira (16) e a revista Ciência UFPR resolveu checar se os benefícios desse banho vão além da mera celebração. É verdade ou mito que a lama faz bem para a pele? Quais cuidados tomar para se proteger de bactérias e riscos à saúde durante a comemoração?
Primeiro, é preciso entender o que é a lama. Segundo a dermatologista Flávia Trevisan, professora do curso de Medicina da UFPR, essa mistura heterogênea é formada por processos geológicos e biológicos, e inclui água, minerais (como cálcio, zinco, magnésio e sódio), matéria orgânica (como ácidos húmicos, fúlvicos e acético) e microrganismos (como bactérias). Exatamente por ser tão plural, ela pode apresentar propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, hidratantes e anti-envelhecimento.
Mas agora vem o x da questão: nem toda lama traz benefícios. Em cada lugar, ela tem uma composição distinta, portanto, é preciso estudar amostra por amostra com profundidade e rigor científico, para só então verificar seus potenciais, diz a pesquisadora. Em outras palavras, a piscina de lama da UFPR não vai hidratar sua pele, só vale mesmo pela celebração.
O professor Michel Otuki, do Departamento de Farmacologia da UFPR, explica que o uso de lama pela população é ancestral, cultural e empírico, e a ciência moderna vem tentando entender essa prática. Segundo o pesquisador, é graças a esses esforços que hoje se conhece as propriedades da argila, composto mineral que integra a lama, e é um ingrediente cosmético bem estabelecido, presente em máscaras faciais e outros produtos de uso diário.
Um estudo publicado em 2023 na revista Skin Research and Technology acompanhou adultos com pele oleosa ou acne leve a moderada que usaram uma máscara facial à base de argila duas vezes por semana, durante quatro semanas. Avaliando parâmetros objetivos, como oleosidade, hidratação, perda de água, número de lesões de acne e sinais de irritação, a pesquisa constatou benefícios reais.
“Em geral, esses cosméticos ajudam a absorver a oleosidade da pele, remover resíduos da superfície, refinar os poros e dar aquela sensação de limpeza profunda, além de melhorar o viço e a textura. Mas também não fazem milagres, como desintoxicar o corpo ou curar doenças como psoríase, dermatite ou acne severa por si só”, diz o pesquisador.
Cuidados com a pele durante o banho de lama
Sobre a lama em si, além de não se poder garantir que toda variedade é benéfica, não dá também para ignorar riscos de contaminações, alergias e irritações por abrasão, alerta Trevisan. Segundo Irene Gonçalves Calixto, responsável pela montagem da estrutura da piscina deste ano, a lama utilizada é composta exclusivamente por terra preta de boa qualidade adquirida em empresa especializada. “Após recebida, a terra é peneirada, livre de carvão, pedras, raízes ou quaisquer outras impurezas”, diz. Mesmo assim, a dermatologista destaca alguns cuidados durante a comemoração do vestibular.
“Em primeiro lugar, verifique se há lesões ou doenças de pele ativas antes de entrar na piscina, e evite o contato da lama com feridas abertas, olhos e mucosas, se atentando também para não ingeri-la. Lembrando que pessoas imunossuprimidas ou com doenças de pele devem consultar um médico antes de entrar na brincadeira”.
Também é importante hidratar a pele antes e depois do banho, não esfregar lama no corpo para não se ferir, evitar exposição prolongada a ela, e lavar bem o corpo ao fim da comemoração, diz a médica. “Se observar qualquer sinal de irritação ou infecção, como vermelhidão persistente, coceira, bolhas ou piora de lesões, procure atendimento dermatológico”, recomenda.
Tomando esses cuidados, será possível curtir o momento com segurança, de acordo com a professora. Ela diz que passou pelo banho de lama duas vezes: uma em 2003, ao ser aprovada em Engenharia; e outra em 2004, quando passou em Medicina. Hoje, há mais de duas décadas na UFPR, conta ter carinho pelo marco que o evento representou e deixa um recado para os futuros alunos.
“A gente se sente parte da universidade. O que eu diria para os aprovados é: aproveitem muito, o banho de lama é um ritual, um momento de muita alegria. Que essa experiência marque mesmo a vida de vocês porque é uma das nossas melhores fases. E sejam muito bem-vindos”.
No mais, para quem quiser buscar benefício real para a cútis após o evento, a recomendação dos especialistas é apostar em máscaras à base de argilas, que passam por processos de controle e têm critérios científicos mais bem definidos como adjuvantes no cuidado com a pele do que a lama da piscina. É o glow up mais seguro para o seu primeiro dia de aula.
➕Leia o estudo Comprehensive assessment of the efficacy and safety of a clay mask in oily and acne skin, indicado pelo professor Michel Otuki, do Departamento de Farmacologia da UFPR
➕Assista a entrevista com a professora Flávia Trevisan
➕Leia O que você precisa saber sobre o Banho de Lama 2026








