{"id":29748,"date":"2026-08-13T18:54:44","date_gmt":"2026-08-13T21:54:44","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=29748"},"modified":"2026-08-14T19:05:05","modified_gmt":"2026-08-14T22:05:05","slug":"tanto-o-alheamento-do-cidadao-quanto-o-despreparo-dos-territorios-sao-perigosos-frente-as-mudancas-climaticas-alice-grimm","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/tanto-o-alheamento-do-cidadao-quanto-o-despreparo-dos-territorios-sao-perigosos-frente-as-mudancas-climaticas-alice-grimm\/","title":{"rendered":"&#8220;Alheamento do cidad\u00e3o e despreparo dos territ\u00f3rios s\u00e3o perigosos frente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&#8221; | Alice Grimm"},"content":{"rendered":"<p>No Oceano Pac\u00edfico, a mais de 5 mil quil\u00f4metros do Brasil, fica o Ni\u00f1o 3.4, um ponto monitorado por sat\u00e9lites de ag\u00eancias cient\u00edficas que medem se as \u00e1guas superficiais est\u00e3o mais quentes ou subiram de n\u00edvel. Esses s\u00e3o os indicadores para a previs\u00e3o do El Ni\u00f1o, a fase quente da oscila\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica chamada ENOS (El Ni\u00f1o-Oscila\u00e7\u00e3o Sul), que alterna entre o aquecimento e o resfriamento da superf\u00edcie do mar, influenciando o tempo em quase todo o planeta. Dessa medi\u00e7\u00e3o partiu o aviso de que as \u00e1guas come\u00e7aram a esquentar entre abril e junho deste ano com acelera\u00e7\u00e3o incomum, sugerindo um El Ni\u00f1o de grau &#8220;muito forte&#8221; para 2026, que deve ter seu pico de intensidade perto do fim do ano.<\/p>\n<p>O El Ni\u00f1o acontece em intervalos irregulares de dois a sete anos e sempre \u00e9 pauta p\u00fablica, porque aumenta o risco de desastres e preju\u00edzo econ\u00f4mico. Por sua localiza\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o continental, o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses mais impactados por essa oscila\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, que tende a ficar mais comum e intensa como resultado do aquecimento global. Hoje o El Ni\u00f1o j\u00e1 aumenta a propens\u00e3o para seca e inc\u00eandios ao Norte, tempestades, enchentes e ciclones mais ao Sul, e crise h\u00eddrica em boa parte do pa\u00eds.<\/p>\n<h5><strong><span style=\"color: #cf6777;\"><span style=\"color: #000000;\">V\u00cdDEO <\/span><\/span><span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Aquecimento das \u00e1guas do Oceano Pac\u00edfico tropical ao longo de 20 semanas, entre janeiro e julho deste ano, indicando evento El Ni\u00f1o. Em tons de azul, as \u00e1guas mais frias; em amarelo a vermelho, as mais quentes; e \u00edndices Roni em destaque<\/h5>\n<figure id=\"attachment_29768\" aria-describedby=\"caption-attachment-29768\" style=\"width: 812px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/mftime75psdef.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-29768 size-full\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/mftime75psdef.gif\" alt=\"\" width=\"812\" height=\"376\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29768\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: IRI\/Columbia\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Isso leva \u00e0 quest\u00e3o: como o Brasil, que est\u00e1 no caminho das rotas preferenciais das altera\u00e7\u00f5es causadas pelo El Ni\u00f1o, tem se preparado para essa e outras oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas? Segundo a professora titular e pesquisadora Alice Grimm, do Departamento de F\u00edsica da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), onde coordena o Laborat\u00f3rio de Meteorologia (Labmet), h\u00e1 urg\u00eancia na revis\u00e3o de posicionamentos.<\/p>\n<p>Alice Marlene Grimm figura na lista da Universidade de Stanford entre os cientistas mais influentes do mundo, com destaque nacional no campo das ci\u00eancias atmosf\u00e9ricas. Outras credenciais da pesquisadora passam pela revis\u00e3o do quinto relat\u00f3rio (2013-2014) do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), \u00f3rg\u00e3o cient\u00edfico da ONU sobre quest\u00f5es de clima, e pela atua\u00e7\u00e3o em comit\u00eas cient\u00edficos internacionais, como o da Rede de Pesquisa em Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas Urbanas (UCCRN) da Universidade de Columbia e o do Painel de Mon\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial (WMO), no qual representou a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Os desastres clim\u00e1ticos que se repetem no pa\u00eds espelham entraves resistentes, como a insufici\u00eancia de planejamento estrutural de longo prazo e a falha de comunica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica entre a ci\u00eancia e a gest\u00e3o p\u00fablica. Um exemplo disso est\u00e1 nos resultados do <a href=\"https:\/\/www.tce.pr.gov.br\/noticias\/pr-mais-da-metade-dos-municipios-nao-essa-preparado-para-desastres-climaticos.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Paran\u00e1<\/a> que exp\u00f4s, em julho, que 60% das prefeituras do estado n\u00e3o possuem estrutura de Defesa Civil e 70% carecem de sistemas de alerta de riscos para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste ano, a professora tem agido para tentar quebrar o ciclo de desinforma\u00e7\u00e3o, apresentando pontos de vista cient\u00edficos a gestores p\u00fablicos. Uma dessa falas est\u00e1 marcada para essa segunda-feira (17), \u00e0s 14 horas, em Curitiba, com transmiss\u00e3o on-line pelo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=E0zy58ORuEA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">canal de eventos da UFPR TV no YouTube<\/a>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eventos Clim\u00e1ticos Extremos - e os desafios para a gest\u00e3o dos munic\u00edpios\" width=\"810\" height=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/E0zy58ORuEA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Como pano de fundo dessa atua\u00e7\u00e3o est\u00e1 uma motiva\u00e7\u00e3o antiga, a mesma que a levou a estudar oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Em 1983, mestre em Ci\u00eancias Geod\u00e9sicas e \u00e0 procura de um tema para doutorado, vivenciou o que significa um desastre natural para uma fam\u00edlia. Os pais de Grimm perderam parte da casa onde residiam no Vale do Itaja\u00ed (SC) durante a enchente que deixou a cidade debaixo d\u2019\u00e1gua, em julho daquele ano, durante um evento de El Ni\u00f1o. Assim a pesquisadora come\u00e7ou a construir sua trajet\u00f3ria na investiga\u00e7\u00e3o de eventos clim\u00e1ticos de teleconex\u00e3o, o conceito meteorol\u00f3gico que trata da liga\u00e7\u00e3o entre regi\u00f5es distantes do planeta.<\/p>\n<p>Na entrevista abaixo, Alice Grimm explica descobertas cient\u00edficas recentes a respeito das oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas naturais e das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas antr\u00f3picas, al\u00e9m de comentar os aspectos que colocam o Brasil em risco na pauta clim\u00e1tica: o foco em rea\u00e7\u00e3o em vez de preven\u00e7\u00e3o, a desinforma\u00e7\u00e3o, e as lacunas de dados confi\u00e1veis e adaptados ao continente para serem disponibilizados aos gestores p\u00fablicos, entre outras quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Qual foi sua a motiva\u00e7\u00e3o para se dedicar \u00e0 pesquisa sobre clima?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Alice Grimm <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Sou a quinta de cinco filhos de um casal de professores que tinham muito amor pela profiss\u00e3o, tendo minha m\u00e3e se aposentado ap\u00f3s 50 anos de exerc\u00edcio. Dos cinco filhos, quatro seguiram a miss\u00e3o dos pais. Sou formada em F\u00edsica, em 1972, e em Arquitetura e Urbanismo, em 1973, na UFPR, tendo sido admitida antes da unifica\u00e7\u00e3o do vestibular. O curso de Arquitetura e Urbanismo tinha uma sele\u00e7\u00e3o muito competitiva, devido ao renome da arquitetura paranaense, cujos expoentes, a maioria professores da UFPR, venciam concursos nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s formada, comecei a trabalhar no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano [Ippuc], em Curitiba, a convite de Jaime Lerner, tamb\u00e9m professor da UFPR, mas licenciado para seu primeiro mandato de prefeito. Foi um per\u00edodo de grandes transforma\u00e7\u00f5es e avan\u00e7os em Curitiba e, para mim, uma grande experi\u00eancia. No entanto, talvez guiada por uma heran\u00e7a gen\u00e9tica, me candidatei a uma vaga de professor no Departamento de F\u00edsica da UFPR e fui aprovada, sendo contratada em 10 de abril de 1975. Fui a primeira docente mulher do Departamento de F\u00edsica. Ainda trabalhei como arquiteta por algum tempo, mas logo reconheci que havia encontrado minha verdadeira voca\u00e7\u00e3o na vida acad\u00eamica.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, com a reestrutura\u00e7\u00e3o da carreira do magist\u00e9rio superior, passei a me dedicar exclusivamente a esta voca\u00e7\u00e3o. Como ainda n\u00e3o havia p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em F\u00edsica na UFPR, fiz mestrado em Ci\u00eancias Geod\u00e9sicas na UFPR. Quando terminei, ainda n\u00e3o havia doutorado em F\u00edsica na UFPR.<\/p>\n<figure id=\"attachment_29765\" aria-describedby=\"caption-attachment-29765\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/img43.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-29765\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/img43.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/img43.jpg 1920w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/img43-300x169.jpg 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/img43-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/img43-768x432.jpg 768w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/img43-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/img43-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29765\" class=\"wp-caption-text\">A cidade de Rio do Sul (SC), onde morava a fam\u00edlia de Alice Grimm, debaixo de uma enchente em julho de 1983. Foto: Acervo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>A escolha da minha \u00e1rea de pesquisa foi influenciada pela trag\u00e9dia da grande enchente de julho de 1983 no Vale do Itaja\u00ed, em Santa Catarina. Havia indica\u00e7\u00f5es de que aquele desastre tinha sido ocasionado por um evento El Ni\u00f1o, ocorrido no Oceano Pac\u00edfico equatorial, ainda pouco conhecido no Brasil.<\/p>\n<blockquote><p>Fiquei fascinada por este problema: como uma anomalia clim\u00e1tica ocorrida a tamanha dist\u00e2ncia p\u00f4de produzir tanta destrui\u00e7\u00e3o no Sul do Brasil? Al\u00e9m do fascinante problema cient\u00edfico, tive intensa motiva\u00e7\u00e3o pessoal para definir minha \u00e1rea de pesquisa.<\/p><\/blockquote>\n<p>A casa dos meus pais foi parcialmente destru\u00edda e eles s\u00f3 foram retirados dela ap\u00f3s a invas\u00e3o das \u00e1guas, durante a madrugada. Minha m\u00e3e sofreu intenso choque, suas defesas se esva\u00edram e ela faleceu um m\u00eas ap\u00f3s o desastre. Esta perda me marcou muito e decidi estudar Meteorologia para ajudar a prevenir tais desastres.<\/p>\n<p>O programa de doutorado mais pr\u00f3ximo estava na Universidade de S\u00e3o Paulo [USP], para onde tive que viajar semanalmente. J\u00e1 tinha dois filhos quando o iniciei e no meio do doutorado tive que interromp\u00ea-lo temporariamente, devido ao nascimento de minha terceira filha.<\/p>\n<p>Apesar de todas as dificuldades, foi uma decis\u00e3o extremamente gratificante. Propus como tema da tese de doutorado o estudo da influ\u00eancia remota de fontes an\u00f4malas tropicais de calor como, por exemplo, as produzidas pela convec\u00e7\u00e3o an\u00f4mala associada ao fen\u00f4meno El Ni\u00f1o. Desenvolvi uma ferramenta, as Fun\u00e7\u00f5es de Influ\u00eancia, para estudar as teleconex\u00f5es atmosf\u00e9ricas, respons\u00e1veis pela influ\u00eancia de for\u00e7antes de uma determinada regi\u00e3o, como o El Ni\u00f1o no Pac\u00edfico equatorial, na circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica e no clima de outras regi\u00f5es, como o Sul do Brasil. Essa ferramenta tem sido muito usada para localizar a fonte de v\u00e1rias teleconex\u00f5es de oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que afetam o Brasil, produzindo eventos extremos. Minha tese ganhou o Pr\u00eamio USP de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o de 1993.<\/p>\n<p>O trabalho intenso de reunir dados e estudar os impactos de eventos El Ni\u00f1o produziu um convite para trabalhar na Universidade de Columbia, em Nova York, como pesquisadora visitante. Esta foi uma oportunidade de conviver com expoentes da meteorologia mundial, como Chester Ropelewski [cientista de clima da Columbia e do National Oceanic and Atmospheric Administration]. A extens\u00e3o do meu trabalho a outras oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e seus impactos na Am\u00e9rica do Sul, a quest\u00f5es de previsibilidade, ao sistema de mon\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul e \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas antr\u00f3picas motivou convites de participa\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios comit\u00eas cient\u00edficos da Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial e no Grupo de Gest\u00e3o da Comiss\u00e3o de Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas desta organiza\u00e7\u00e3o, onde representei a Am\u00e9rica do Sul por oito anos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_29775\" aria-describedby=\"caption-attachment-29775\" style=\"width: 420px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/info_el-nino-enos-e-etc_cienciaufpr_g-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-29775\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/info_el-nino-enos-e-etc_cienciaufpr_g-1.png\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"1750\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/info_el-nino-enos-e-etc_cienciaufpr_g-1.png 875w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/info_el-nino-enos-e-etc_cienciaufpr_g-1-72x300.png 72w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/info_el-nino-enos-e-etc_cienciaufpr_g-1-246x1024.png 246w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/info_el-nino-enos-e-etc_cienciaufpr_g-1-768x3200.png 768w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/info_el-nino-enos-e-etc_cienciaufpr_g-1-150x625.png 150w\" sizes=\"(max-width: 420px) 100vw, 420px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29775\" class=\"wp-caption-text\">(Clique para ampliar | <a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/info_el-nino-enos-e-etc_cienciaufpr.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Baixe em pdf<\/a>)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Apesar das dificuldades enfrentadas, houve alguns pr\u00eamios que me incentivaram, a alegria de trabalhar com estudantes e v\u00ea-los se desenvolverem e o prazer de explorar dados, descobrir rela\u00e7\u00f5es e testar hip\u00f3teses sobre os mecanismos da variabilidade e mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Apesar de n\u00e3o ter perseguido grande produ\u00e7\u00e3o num\u00e9rica de artigos, procurei faz\u00ea-los abrangentes e \u00fateis. Minha inclus\u00e3o na lista dos cientistas mais influentes, entre os cinco cientistas brasileiros da lista na \u00e1rea de Meteorologia e Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas, da Terra e do Meio Ambiente, indica que eles foram \u00fateis, pois motivaram outros estudos.<\/p>\n<p><strong>O que se espera do &#8220;Super El Ni\u00f1o&#8221; de 2026 e por que alguns especialistas discordam dessa nomenclatura? \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> O evento El Ni\u00f1o de 2026 e 2027, que j\u00e1 est\u00e1 ocorrendo desde o trimestre que abrange abril, maio e junho, tem 97% de chance de se estender at\u00e9 o in\u00edcio do outono de 2027 [que, no Brasil, come\u00e7a em 20 de mar\u00e7o de 2027]. Tem tamb\u00e9m probabilidade de 81% de ser muito forte no trimestre de outubro, novembro e dezembro, quando seus efeitos s\u00e3o relativamente os mais intensos no Sul do Brasil. Essas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o obtidas de proje\u00e7\u00f5es de numerosos modelos.<\/p>\n<blockquote><p>Nomenclaturas como &#8220;Super El Ni\u00f1o&#8221;, &#8220;El Ni\u00f1o Godzilla&#8221;, etc, n\u00e3o s\u00e3o cient\u00edficas. Creio que podem causar confus\u00f5es. A classifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica d\u00e1 intervalos bem definidos de aumento da temperatura para classificar um El Ni\u00f1o. Por outro lado, o que \u00e9 um super El Ni\u00f1o ou El Ni\u00f1o Godzilla?<\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 classifica\u00e7\u00f5es mais bem aceitas entre os cientistas, como aquela baseada no \u00edndice Roni [\u00cdndice Relativo de Ni\u00f1o Oce\u00e2nico, na sigla em ingl\u00eas]. O \u00edndice Roni trimestral permite avaliar se o El Ni\u00f1o foi fraco, moderado, forte ou muito forte, de acordo com a varia\u00e7\u00e3o registrada, respectivamente, nos intervalos 0,5\u00b0C a 1,0\u00b0C, 1,0\u00b0C a 1,5\u00b0C, 1,5\u00b0C a 2,0\u00b0C e de 2,0\u00b0C para cima. Para que se possa dizer no futuro que ocorreu um evento El Ni\u00f1o, uma varia\u00e7\u00e3o de 0,5\u00b0C para cima deve ter acontecido pelo menos por cinco trimestres m\u00f3veis consecutivos.<\/p>\n<p>Um El Ni\u00f1o muito forte n\u00e3o \u00e9 absolutamente in\u00e9dito. Em \u00e9poca mais recente, depois de 1980, houve eventos muito fortes. Do mais para o menos forte, tivemos esse cen\u00e1rio entre 1982 e 1983, entre 1997 e 1998, e entre 2015 e 2016. O maior valor observado de Roni trimestral, por exemplo, foi 2,5, em dois trimestres entre novembro de 1982 e janeiro de 1983.<\/p>\n<p>Neste ano o evento j\u00e1 come\u00e7ou, pois o \u00edndice Roni entre abril e junho de 2026 j\u00e1 foi igual a 0,5. De acordo com as previs\u00f5es mais recentes, o m\u00e1ximo de intensidade ser\u00e1 atingido entre outubro e dezembro de 2026. H\u00e1 97% de chance de isso se estender at\u00e9 o in\u00edcio do outono de 2027, entre fevereiro e abril. As pr\u00f3ximas previs\u00f5es, feitas com o evento j\u00e1 em curso, dar\u00e3o indica\u00e7\u00f5es mais seguras sobre sua evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por enquanto, n\u00e3o se pode dizer que a previs\u00e3o \u00e9 de um fen\u00f4meno de dura\u00e7\u00e3o longa. Existe a previs\u00e3o apenas at\u00e9 o outono de 2027, o que n\u00e3o caracterizaria um El Ni\u00f1o muito longo. \u00c9 relativamente comum um evento El Ni\u00f1o come\u00e7ar no inverno de um ano e estender-se at\u00e9 o in\u00edcio do outono do ano seguinte. As pr\u00f3ximas previs\u00f5es dar\u00e3o indica\u00e7\u00f5es melhores sobre a dura\u00e7\u00e3o. Mas El Ni\u00f1o longos j\u00e1 ocorreram desde 1980. O mais longo deles, o evento entre 1982 e 1983, durou cerca de 15 meses.<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 preciso dizer que o El Ni\u00f1o n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico respons\u00e1vel pelas enchentes e pelos deslizamentos que em todo fim de ano atingem certas regi\u00f5es, mesmo porque n\u00e3o h\u00e1 El Ni\u00f1o todo ano. Outros fen\u00f4menos tamb\u00e9m podem produzir esses desastres, mas o El Ni\u00f1o pode aumentar os efeitos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Um exemplo \u00e9 a Oscila\u00e7\u00e3o de Madden-Julian [na sigla, OMJ], uma oscila\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica natural intrasazonal [cujo per\u00edodo \u00e9 menor que uma esta\u00e7\u00e3o do ano, mas maior que o da chamada variabilidade sin\u00f3tica, em torno de duas semanas], que pode ter grande efeito sobre as chuvas de ver\u00e3o no Centro-Leste do Brasil, que inclui o Sudeste. Uma pesquisa realizada por uma doutoranda sob minha orienta\u00e7\u00e3o, La\u00eds Fernandes, e que j\u00e1 est\u00e1 publicada, mostra que em certas fases dessa oscila\u00e7\u00e3o no ver\u00e3o de anos com El Ni\u00f1o h\u00e1 efeitos muito mais fortes e com mais eventos extremos nessa regi\u00e3o do que em anos sem El Ni\u00f1o.<\/p>\n<p>Outra doutoranda, Luana Scheibe, estuda o efeito de El Ni\u00f1o sobre os impactos da oscila\u00e7\u00e3o em outras esta\u00e7\u00f5es do ano e <a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/metodo-melhora-previsao-de-chuvas-no-brasil-para-periodo-que-desafia-meteorologistas\/\">j\u00e1 verificou que El Ni\u00f1o potencializa os efeitos da oscila\u00e7\u00e3o em algumas de suas fases<\/a>, produzindo eventos extremos mais fortes e frequentes.<\/p>\n<p>O desastre de final de abril e in\u00edcio de maio de 2024 no Rio Grande do Sul \u00e9 um exemplo disso.<\/p>\n<p><strong>Por que o El Ni\u00f1o tem efeitos t\u00e3o diversos no Brasil, causando enchentes no Sul-Sudeste e seca na Amaz\u00f4nia, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Durante o El Ni\u00f1o h\u00e1 \u00e1guas mais quentes no Pac\u00edfico Central-Leste, onde s\u00e3o normalmente frias, e ent\u00e3o ocorre mais forma\u00e7\u00e3o de nuvens e chuva nessas regi\u00f5es, onde normalmente isso n\u00e3o acontece. Na forma\u00e7\u00e3o de nuvens, h\u00e1 transforma\u00e7\u00e3o de fase de vapor de \u00e1gua em got\u00edculas de \u00e1gua l\u00edquida, o que significa libera\u00e7\u00e3o de calor latente na atmosfera, ou seja, de energia.<\/p>\n<p>Essa fonte de energia an\u00f4mala produz perturba\u00e7\u00f5es na circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, que se propagam por ondas atmosf\u00e9ricas, tanto em rota equatorial como em rotas extratropicais. Essas \u00faltimas n\u00e3o se propagam igualmente em todas as dire\u00e7\u00f5es, mas em caminhos preferenciais, que dependem da circula\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da atmosfera.<\/p>\n<p>O Sul do Brasil est\u00e1 numa dessas rotas extratropicais preferenciais. As perturba\u00e7\u00f5es produzidas sobre essa regi\u00e3o causam mais movimento ascendente na atmosfera, ou seja, mais nuvens e mais chuva do que a m\u00e9dia. Mas essas anomalias n\u00e3o t\u00eam a mesma intensidade ao longo do ciclo de vida do El Ni\u00f1o.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Amaz\u00f4nia e parte do Nordeste est\u00e3o numa rota de propaga\u00e7\u00e3o equatorial das perturba\u00e7\u00f5es. L\u00e1 elas produzem movimento descendente na atmosfera, inibindo a produ\u00e7\u00e3o de nuvens e diminuindo a chuva.<\/p>\n<figure id=\"attachment_29763\" aria-describedby=\"caption-attachment-29763\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1760v1_20150831-PACstorms_lrg.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-29763\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1760v1_20150831-PACstorms_lrg.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1760v1_20150831-PACstorms_lrg.jpg 1920w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1760v1_20150831-PACstorms_lrg-300x169.jpg 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1760v1_20150831-PACstorms_lrg-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1760v1_20150831-PACstorms_lrg-768x432.jpg 768w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1760v1_20150831-PACstorms_lrg-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1760v1_20150831-PACstorms_lrg-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29763\" class=\"wp-caption-text\">M\u00faltiplos ciclones sobre o Oceano Pac\u00edfico em agosto de 2015. O El Ni\u00f1o desse ano foi um dos mais fortes j\u00e1 registrados. Foto: NOAA.gov\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os efeitos de El Ni\u00f1o na Am\u00e9rica do Sul dependem da intensidade do evento. De maneira geral, quanto mais forte ele \u00e9, mais fortes s\u00e3o os impactos.<\/p>\n<p><strong>Como podemos situar esse fen\u00f4meno, esperado para este ano, entre os que afetam os eventos extremos, t\u00e3o citados como uma das amea\u00e7as da crise clim\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Nossos estudos t\u00eam demonstrado que os eventos El Ni\u00f1o tem a capacidade de alterar a frequ\u00eancia e a intensidade dos eventos extremos, de forma at\u00e9 mais significativa do que alteram as precipita\u00e7\u00f5es m\u00e9dias sazonais ou mensais, principalmente no Sul do Brasil.<\/p>\n<p>Realmente, os eventos extremos na Regi\u00e3o Sul aumentam, de forma geral, mas n\u00e3o de forma uniforme, ao longo do ciclo de vida do evento El Ni\u00f1o, pelo aumento da quantidade de chuva e da frequ\u00eancia de eventos extremos. Por outro lado, causa diminui\u00e7\u00e3o de chuva e de eventos extremos na Amaz\u00f4nia, principalmente em sua parte leste.<\/p>\n<p><strong>Sua pesquisa tem indicado caminhos para uma previs\u00e3o mais acertada dos impactos do El Ni\u00f1o sobre a Am\u00e9rica do Sul, considerando a resposta estatisticamente mais consistente associada com eventos El Ni\u00f1o do passado. Como essa proposta tem avan\u00e7ado?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Embora os eventos El Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a n\u00e3o sejam iguais entre si, eles produzem impactos estatisticamente consistentes, que variam significativamente ao longo do ciclo de vida de cada evento.<\/p>\n<p>Os modelos nem sempre reproduzem satisfatoriamente essas varia\u00e7\u00f5es ou at\u00e9 mesmo os sinais dos impactos, como a chuva a mais ou a menos do que a m\u00e9dia, em per\u00edodos importantes deste ciclo.<\/p>\n<p>O planejamento da Defesa Civil e de outros setores, como agricultura, produ\u00e7\u00e3o de energia, abastecimento de \u00e1gua, ind\u00fastria de vestu\u00e1rio, alimentos e bebidas, turismo, etc, dependem do clima. Portanto, \u00e9 essencial que esses impactos sejam mais detalhados, pois tais varia\u00e7\u00f5es podem fazer grande diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Por exemplo, em outubro de 1997, no evento El Ni\u00f1o de 1997 a 1998, uma revista de grande circula\u00e7\u00e3o publicou a mat\u00e9ria de capa\u202f\u201cA f\u00faria do El Ni\u00f1o\u201d [uma edi\u00e7\u00e3o de outubro de 1997 da revista <em>Veja<\/em>]. A reportagem descrevia os impactos sobre o Brasil como redu\u00e7\u00e3o de chuvas na Amaz\u00f4nia e no Sert\u00e3o, e chuvas torrenciais e inunda\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas no Sul. Na \u00e9poca, o conhecimento dos impactos era mais gen\u00e9rico e, realmente, na m\u00e9dia sobre todo o ciclo de vida de um evento El Ni\u00f1o, chove acima do normal no Sul e abaixo do normal no Norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Contudo, o impacto n\u00e3o \u00e9 uniforme ao longo do El Ni\u00f1o. O meu primeiro artigo sobre a influ\u00eancia de ENOS [El Ni\u00f1o-Oscila\u00e7\u00e3o Sul, &#8220;nome completo&#8221; do ciclo que abrange El Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a] no Sul do Brasil, escrito com dois alunos, j\u00e1 alertava para a grande varia\u00e7\u00e3o sazonal dos impactos na maior parte da regi\u00e3o, do m\u00e1ximo relativo na primavera para um m\u00ednimo relativo em parte do ver\u00e3o, al\u00e9m de um deslocamento dos maiores impactos para oeste entre a primavera e o ver\u00e3o. (LINK: https:\/\/doi.org\/10.1175\/1520-0442(1998)011%3C2863:PAISBA%3E2.0.CO;2 )Ele foi publicado em 1998, mas antes disso, os resultados j\u00e1 tinham sido apresentados em Congresso Brasileiro de Meteorologia e at\u00e9 recebido pr\u00eamio de melhor trabalho, o que significa que a informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava dispon\u00edvel para o p\u00fablico mais especializado, que deveria ter sido procurado para opinar antes da publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cobertura massiva dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o afirmando que o Sul enfrentaria &#8220;chuvas torrenciais e inunda\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas&#8221; assustou os turistas. Cidades tur\u00edsticas litor\u00e2neas e da regi\u00e3o do Vale do Itaja\u00ed registraram cancelamentos em massa de reservas para as f\u00e9rias de ver\u00e3o. No fim, embora o evento tenha causado chuvas acima da m\u00e9dia no Sul, n\u00e3o houve chuvas torrenciais ou enchentes hist\u00f3ricas na parte leste de Santa Catarina no ver\u00e3o. Sindicatos de hot\u00e9is, federa\u00e7\u00f5es de turismo e prefeituras catarinenses se mobilizaram para criticar o &#8220;terrorismo clim\u00e1tico&#8221; da imprensa, argumentando que as previs\u00f5es catastr\u00f3ficas generalizavam os temporais para toda a regi\u00e3o no ver\u00e3o, o que n\u00e3o ocorreu.<\/p>\n<blockquote><p>Se a generaliza\u00e7\u00e3o for evitada, a partir de informa\u00e7\u00f5es com mais detalhe temporal e espacial, \u00e9 poss\u00edvel evitar erros e preju\u00edzos ainda maiores. \u00c9 claro que haver\u00e1 eventos nos quais os impactos mais fortes ser\u00e3o diferentes daqueles estatisticamente mais significativos, mas eles ser\u00e3o minoria.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para achar uma resposta estatisticamente mais robusta para abranger os aspectos mais marcantes em eventos El Ni\u00f1o do passado, \u00e9 necess\u00e1rio juntar longas s\u00e9ries de dados, com a m\u00e1xima quantidade poss\u00edvel de dados diretamente observados, de modo que a interpola\u00e7\u00e3o em pontos de grade n\u00e3o altere muito a intensidade dos eventos extremos. Assim, haver\u00e1 amostra suficiente de eventos para a obten\u00e7\u00e3o de sinais significativos. Tamb\u00e9m usamos um m\u00e9todo mais completo para determinar eventos El Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a, a partir da determina\u00e7\u00e3o da oscila\u00e7\u00e3o ENOS com dados de temperatura da superf\u00edcie do mar em todo o globo, o que descreve mais completamente esta oscila\u00e7\u00e3o do que apenas o \u00edndice RONI.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio estudar os processos f\u00edsicos que explicam os impactos e a sua varia\u00e7\u00e3o sazonal e at\u00e9 mensal ao longo do ciclo de vida m\u00e9dio de um evento El Ni\u00f1o, para que todos os resultados em conjunto fa\u00e7am sentido.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o feita a partir do nosso conjunto de dados mais recente, com 75 anos, permitiu um detalhamento espacial e temporal maior do que \u00e9 normalmente feito, em grade de um grau de latitude e de longitude [ou seja, em regi\u00f5es mais espec\u00edficas] e resolu\u00e7\u00e3o mensal [entendendo as nuances do fen\u00f4meno em per\u00edodos mais curtos, enquanto ele ocorre].<\/p>\n<p><strong>O quanto uma previs\u00e3o meteorol\u00f3gica melhor, seja de curto prazo ou sazonal, poderia ajudar nas pol\u00edticas p\u00fablicas referentes \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de desastres naturais? \u00c9 poss\u00edvel melhorar, por exemplo, a incerteza sobre a intensidade dos eventos previstos?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Uma previs\u00e3o clim\u00e1tica sazonal, com anteced\u00eancia acima de um m\u00eas, das caracter\u00edsticas estat\u00edsticas dos eventos extremos, por exemplo, sua frequ\u00eancia e intensidade m\u00e9dia, ajuda na preven\u00e7\u00e3o de desastres naturais. Permite reduzir os fatores de risco que podem ser alterados pela a\u00e7\u00e3o humana, ou seja, a vulnerabilidade e a exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A previs\u00e3o de curto prazo de um determinado evento, que \u00e9 a chamada previs\u00e3o de tempo, com anteced\u00eancia menor do que tr\u00eas semanas, permite detalhar melhor um determinado evento clim\u00e1tico. Nesse curto prazo, geralmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alterar o grau de vulnerabilidade por meio de obras, restando reduzir o grau de exposi\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da remo\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o a ser potencialmente atingida ou de outras medidas para reduzir danos e preju\u00edzos.<\/p>\n<blockquote><p>Ainda \u00e9 poss\u00edvel melhorar a previs\u00e3o da intensidade e do instante de ocorr\u00eancia de um evento extremo, reduzindo a incerteza, mas h\u00e1 limites te\u00f3ricos para a previs\u00e3o das caracter\u00edsticas de um determinado evento.<\/p><\/blockquote>\n<p>Esses limites s\u00e3o impostos porque os sistemas clim\u00e1ticos cont\u00eam processos n\u00e3o-lineares. Isso produz grandes diferen\u00e7as nas previs\u00f5es a partir de estados iniciais muito parecidos do sistema, depois de aproximadamente duas semanas.<\/p>\n<p>Apesar desse limite, melhorias ainda s\u00e3o poss\u00edveis atrav\u00e9s da melhor representa\u00e7\u00e3o de processos. Por exemplo, melhorando as equa\u00e7\u00f5es que descrevem certos processos e aumentando a resolu\u00e7\u00e3o dos modelos. O uso de recursos de intelig\u00eancia artificial tamb\u00e9m \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O que significam a tend\u00eancia \u00e0 &#8220;revers\u00e3o primavera-ver\u00e3o&#8221; nas chuvas do Centro-Leste da Am\u00e9rica do Sul e a tend\u00eancia ao \u201cEl Ni\u00f1o permanente\u201d no clima futuro?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> A tend\u00eancia \u00e0 revers\u00e3o [invers\u00e3o de sinal] entre as anomalias de chuva na primavera e no ver\u00e3o no Centro-Leste do Brasil significa que uma primavera mais seca (chuvosa) do que o normal naquela regi\u00e3o tende a ser seguida por ver\u00e3o mais chuvoso (seco).<\/p>\n<p>Descobrimos essa tend\u00eancia \u00e0 revers\u00e3o quando est\u00e1vamos explorando rela\u00e7\u00f5es entre dados de precipita\u00e7\u00e3o de diferentes esta\u00e7\u00f5es no ano. Inicialmente, ficamos intrigados com essa tend\u00eancia, mas depois de uma an\u00e1lise dos dados de temperatura e de circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica associados a essa revers\u00e3o, chegamos a uma hip\u00f3tese para explic\u00e1-la e a testamos com um modelo clim\u00e1tico regional, que permitia simula\u00e7\u00f5es com maior resolu\u00e7\u00e3o. Os diferentes experimentos realizados com o modelo confirmaram a hip\u00f3tese e esse trabalho j\u00e1 foi publicado. Vou explic\u00e1-la.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o Centro-Leste do Brasil, que abrange parte do Centro, sul do Nordeste e o Sudeste do Brasil, chove pouco no inverno e muito na esta\u00e7\u00e3o da mon\u00e7\u00e3o, de outubro a mar\u00e7o. Portanto, no final do inverno o solo dessa regi\u00e3o est\u00e1 muito seco. \u00c0 medida que passa a primavera, in\u00edcio da mon\u00e7\u00e3o, a radia\u00e7\u00e3o solar vai aumentando e a chuva de mon\u00e7\u00e3o come\u00e7a a aparecer, umedecendo o solo. Contudo, quando, na primavera, devido ao efeito de alguma oscila\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, h\u00e1 um anticiclone sobre a regi\u00e3o e chove muito pouco, o solo fica mais seco ainda e o aumento da radia\u00e7\u00e3o solar produz aquecimento acima do normal da superf\u00edcie e do ar acima. Esse aquecimento an\u00f4malo diminui a press\u00e3o na superf\u00edcie e, com a ajuda do relevo montanhoso na regi\u00e3o, causa converg\u00eancia e movimento ascendente do ar, produzindo um ciclone no in\u00edcio do ver\u00e3o, causando o desvio do transporte de umidade para o Centro-Leste do Brasil e diminuindo o transporte para o Sul. Essas mudan\u00e7as causam mais chuva na regi\u00e3o e o solo se umedece e a temperatura cai, desaparecendo o motivo da invers\u00e3o.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 uma oscila\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, como o El Ni\u00f1o, que ainda produza teleconex\u00e3o no outono semelhante \u00e0 primavera, embora mais fraca, as condi\u00e7\u00f5es de primavera retornam enfraquecidas. Portanto, a tend\u00eancia \u00e0 revers\u00e3o entre primavera e ver\u00e3o resulta da intera\u00e7\u00e3o local entre superf\u00edcie e atmosfera no auge do ver\u00e3o, que se torna mais forte do que o efeito da teleconex\u00e3o produzida por El Ni\u00f1o. Esta tend\u00eancia tem influ\u00eancia tamb\u00e9m no Sul do Brasil, pois enquanto chove mais no Centro-Leste no auge do ver\u00e3o, tende a diminuir o impacto sobre o Sul, principalmente na sua parte leste,<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 tend\u00eancia a um estado de \u201cEl Ni\u00f1o permanente\u201d no clima futuro, refere-se ao fato de que a oscila\u00e7\u00e3o ENOS tender\u00e1 a ser mais assim\u00e9trica no futuro.<\/p>\n<p>A fase positiva, o El Ni\u00f1o, ser\u00e1 mais intensa do que sua fase negativa, a La Ni\u00f1a, em rela\u00e7\u00e3o ao clima atual. A retifica\u00e7\u00e3o dessa mudan\u00e7a no clima m\u00e9dio produzir\u00e1 no futuro um clima mais parecido com as condi\u00e7\u00f5es de El Ni\u00f1o.<\/p>\n<p><strong>Como essas tend\u00eancias podem influenciar a agricultura e outros setores afetados pelo clima, o meio ambiente e as \u00e1reas urbanas?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> A maioria dos modelos [conjuntos de equa\u00e7\u00f5es usadas nas previs\u00f5es de tempo e clima] tem fraco desempenho na previs\u00e3o sazonal da chuva de ver\u00e3o para o Centro-Leste do Brasil, talvez porque n\u00e3o reproduzam bem esses mecanismos citados.<\/p>\n<p>Isso causa maior incerteza na previs\u00e3o clim\u00e1tica para o auge da esta\u00e7\u00e3o chuvosa de mon\u00e7\u00e3o numa regi\u00e3o importante para a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, gera\u00e7\u00e3o de hidroeletricidade, e por abrigar ecossistemas importantes, al\u00e9m de ser muito populosa na sua parte sudeste.<\/p>\n<p>Portanto, estudos diagn\u00f3sticos e de modelagem, como esse que fizemos [da revers\u00e3o primavera-ver\u00e3o], relacionando o comportamento do clima no ver\u00e3o com o da primavera precedente, indicam alguma previsibilidade para a esta\u00e7\u00e3o de ver\u00e3o nessa regi\u00e3o, o que pode ser explorado na previs\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>O fato de que no futuro teremos um clima mais parecido com as condi\u00e7\u00f5es de El Ni\u00f1o e teremos eventos El Ni\u00f1o mais fortes do que no presente, influencia todos os setores que dependem do clima, pois ENOS \u00e9 a oscila\u00e7\u00e3o natural que mais influencia a variabilidade do clima na Am\u00e9rica do Sul.<\/p><\/blockquote>\n<p>Isso afetar\u00e1, por exemplo, a chuva e seus eventos extremos na Amaz\u00f4nia e na Regi\u00e3o Sul, que s\u00e3o consistentemente afetados por El Ni\u00f1o, al\u00e9m de outras regi\u00f5es em per\u00edodos mais curtos. Isso \u00e9 um aspecto preocupante, pois demanda medidas de adapta\u00e7\u00e3o, tendo em vista que mesmo os impactos de El Ni\u00f1o atual j\u00e1 causam desastres naturais.<\/p>\n<p><strong>Por que as popula\u00e7\u00f5es de baixa renda s\u00e3o sempre as que &#8220;pagam a conta&#8221; mais alta nos eventos extremos?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> A popula\u00e7\u00e3o de baixa renda \u201cpaga a conta\u201d mais alta dos eventos extremos por v\u00e1rias raz\u00f5es. \u00c9 ela que predomina entre os ocupantes de \u00e1reas de risco, sem infraestrutura adequada, mais expostas aos desastres, como enchentes e deslizamentos, porque nessas \u00e1reas comumente a moradia \u00e9 mais barata. Suas casas s\u00e3o mais fr\u00e1geis e, portanto, mais facilmente destru\u00eddas. Ela n\u00e3o tem poupan\u00e7a para recome\u00e7ar e o apoio p\u00fablico, geralmente, n\u00e3o \u00e9 suficiente, nem r\u00e1pido.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea explicaria o que o El Ni\u00f1o muda na vida pr\u00e1tica? Devemos nos preparar para o aumento no pre\u00e7o dos alimentos devido \u00e0s quebras de safra ou para contas de luz mais caras pela falta de \u00e1gua nas hidrel\u00e9tricas?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> O El Ni\u00f1o pode afetar v\u00e1rios aspectos na vida pr\u00e1tica, al\u00e9m de afetar as pessoas diretamente expostas aos desastres naturais causados pelos eventos extremos favorecidos pelo El Ni\u00f1o. Contudo, como ele n\u00e3o afeta o clima da mesma maneira em todo o pa\u00eds, os efeitos podem ser diferentes.<\/p>\n<p>Na Regi\u00e3o Norte, em m\u00e9dia, pode haver diminui\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o de energia hidroel\u00e9trica, mas na Regi\u00e3o Sul \u00e9 mais prov\u00e1vel que ocorra o contr\u00e1rio. Contudo, como o sistema de distribui\u00e7\u00e3o de energia \u00e9 interligado, \u00e9 poss\u00edvel haver redistribui\u00e7\u00e3o entre as regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o impacto n\u00e3o \u00e9 constante ao longo do ciclo de vida de El Ni\u00f1o. Por exemplo, no Centro-Leste do Brasil, onde h\u00e1 bacias hidrogr\u00e1ficas contribuintes a muitas hidroel\u00e9tricas, h\u00e1 chuvas abaixo da m\u00e9dia na primavera, mas um pouco acima da m\u00e9dia no auge do ver\u00e3o. Da mesma forma, o impacto sobre a produ\u00e7\u00e3o de alimentos varia de uma regi\u00e3o para outra.<\/p>\n<p>Vamos usar, como exemplo, a Regi\u00e3o Sul, onde vivemos. Quanto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, embora o ENOS exer\u00e7a uma influ\u00eancia significativa no clima do Sul do Brasil, essa influ\u00eancia n\u00e3o \u00e9 onipresente. Mesmo em \u00e1reas onde o ENOS influencia o clima de forma consistente, o manejo da cultura ou as necessidades h\u00eddricas das plantas podem determinar se o fen\u00f4meno ter\u00e1 um impacto significativo na produtividade agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Estudos mostram o impacto sobre a produtividade de diversas culturas em eventos El Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a, mas os resultados podem variar de acordo com a metodologia do estudo e os ciclos de culturas adotados. Al\u00e9m do favorecimento ou preju\u00edzo \u00e0s necessidades h\u00eddricas das plantas, devidos \u00e0s anomalias de chuva e temperatura acima ou abaixo da m\u00e9dia, \u00e9 importante o efeito de chuvas muito intensas e inunda\u00e7\u00f5es extensivas, que causam significativas perdas agr\u00edcolas durante eventos El Ni\u00f1o.<\/p>\n<blockquote><p>Se eventos extremos se tornarem mais frequentes e intensos, como previsto neste El Ni\u00f1o, pode haver diminui\u00e7\u00e3o de safras e isso pode impactar no pre\u00e7o de alguns alimentos. Al\u00e9m disso, o pre\u00e7o tamb\u00e9m pode aumentar se houver dificuldades no transporte devidas a danos ou interrup\u00e7\u00f5es na infraestrutura vi\u00e1ria, causados pelas enchentes.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Quais os alheamentos mais perigosos, no seu entender, o do cidad\u00e3o comum em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ou o despreparo dos territ\u00f3rios para lidar com elas? Al\u00e9m dessa indiferen\u00e7a, a desinforma\u00e7\u00e3o preocupa?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas antr\u00f3picas [provocadas pela a\u00e7\u00e3o humana] muito provavelmente ir\u00e3o intensificar os impactos de El Ni\u00f1o no futuro, o que \u00e9 indesej\u00e1vel, tendo em vista que tais impactos no presente j\u00e1 causam desastres naturais.<\/p>\n<blockquote><p>Portanto, s\u00e3o perigosos tanto o alheamento do cidad\u00e3o comum em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como o despreparo dos territ\u00f3rios para enfrentar seus efeitos, pela falta de medidas de adapta\u00e7\u00e3o a essas mudan\u00e7as. Ambos os tipos de alheamentos s\u00e3o perigosos e interligados.<\/p><\/blockquote>\n<p>Cidad\u00e3os que n\u00e3o se importam com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o exigem medidas de mitiga\u00e7\u00e3o, nem acham necess\u00e1rias medidas de adapta\u00e7\u00e3o. Assim, haver\u00e1 desastres naturais mais recorrentes e intensos em rela\u00e7\u00e3o ao clima atual, pois aumentam seus fatores de risco.<\/p>\n<p>Na realidade, creio que \u00e9 a desinforma\u00e7\u00e3o que produz a indiferen\u00e7a. \u00c9 necess\u00e1rio explicar ao cidad\u00e3o comum, de maneira intelig\u00edvel, mas tamb\u00e9m correta, quais s\u00e3o as bases cient\u00edficas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, porque entendimento conduz \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o e ao engajamento.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o se deva entrar em detalhes da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica e das leis da radia\u00e7\u00e3o, deve-se resumir os processos de forma correta e compreens\u00edvel, evitando afirma\u00e7\u00f5es muito superficiais e gen\u00e9ricas, carentes de fundamenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>No caso do despreparo dos territ\u00f3rios, al\u00e9m de informar aos gestores os fundamentos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, \u00e9 necess\u00e1rio fornecer-lhes informa\u00e7\u00f5es robustas e acion\u00e1veis para medidas de adapta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 resultados de proje\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas por vezes discrepantes entre grupos de diferentes modelos, o que pode produzir muitas d\u00favidas.<\/p>\n<p><strong>Como obter informa\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas robustas e acion\u00e1veis para medidas de adapta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> A necessidade de adapta\u00e7\u00e3o deve ser mostrada a partir de proje\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas robustas, de modelos selecionados com crit\u00e9rios baseados nos mecanismos f\u00edsicos relevantes para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no nosso continente. As pesquisas do nosso grupo desvendaram tais mecanismos e selecionaram tais modelos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante enfatizar que indica\u00e7\u00f5es robustas de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas antr\u00f3picas para planejamento de medidas de adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o obtidas simplesmente por monitoramento de vari\u00e1veis, como temperatura e chuva, e c\u00e1lculo de tend\u00eancias nas s\u00e9ries de medidas destas vari\u00e1veis. Embora monitoramento e coleta de dados seja algo bom, deve haver conhecimento de oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas naturais e dos mecanismos f\u00edsicos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na Am\u00e9rica do Sul, para que se possa selecionar os modelos para as proje\u00e7\u00f5es de clima futuro na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas naturais interdecadais [que ocorrem entre uma d\u00e9cada e outra] que produzem varia\u00e7\u00f5es lentas e d\u00e3o a impress\u00e3o de \u201ctend\u00eancias\u201d em certos intervalos de tempo. Um exemplo disto \u00e9 mostrado num artigo que escrevemos sobre a seca de 2020 e -2021 no Sul do Brasil. Olhando as s\u00e9ries de anomalias de chuvas de outono em duas \u00e1reas do Sul do Brasil entre 1980 e 2020, nota-se uma tend\u00eancia negativa, de chuvas predominantemente acima do normal at\u00e9 2000 e abaixo do normal ap\u00f3s este ano. Isto n\u00e3o representa uma tend\u00eancia ou mudan\u00e7a clim\u00e1tica para seca na Regi\u00e3o Sul no futuro. Representa um trecho de uma oscila\u00e7\u00e3o natural. Na realidade, tal \u201cmudan\u00e7a\u201d deve-se \u00e0 mudan\u00e7a de fases de oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas interdecadais do Atl\u00e2ntico e do Pac\u00edfico em torno de 2000, que no futuro mudar\u00e3o novamente. Todos os melhores modelos clim\u00e1ticos projetam aumento de chuva no futuro no Sul do Brasil, pelo menos at\u00e9 2100, com base num arcabou\u00e7o din\u00e2mico consistente.<\/p>\n<p><strong>Avalia que os alertas de \u201ctempestade forte\u201d das prefeituras no celular, talvez a medida de defesa civil mais conhecida pelo cidad\u00e3o no seu cotidiano, funcionam nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> N\u00e3o posso dar resposta precisa a essa pergunta, pois n\u00e3o realizei nem tomei conhecimento de pesquisas de opini\u00e3o de usu\u00e1rios que tenham dado informa\u00e7\u00e3o a este respeito. Em todo caso, acho que \u00e9 melhor ter este tipo de alerta do que n\u00e3o t\u00ea-lo. Haver\u00e1 avisos que n\u00e3o se concretizam, que s\u00e3o falso alarme, mas este recurso ter\u00e1 valido a pena se houver uma fra\u00e7\u00e3o que efetivamente evite desastres.<\/p>\n<p><strong>O que o morador de periferia ou comunidade ribeirinha deve reivindicar de seus prefeitos e governadores? Para al\u00e9m da ajuda humanit\u00e1ria ap\u00f3s a trag\u00e9dia, existem investimentos espec\u00edficos em preven\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o, como infraestrutura resiliente, que est\u00e3o sendo negligenciados? E como a ci\u00eancia pode ajudar essas comunidades a fazerem esse di\u00e1logo?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AG <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> A resposta a essa pergunta e a responsabilidade por situa\u00e7\u00f5es que podem produzir trag\u00e9dias seriam muito espec\u00edficas para cada munic\u00edpio. Portanto, o que vou dar a seguir s\u00e3o respostas gen\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Pode haver casos nos quais as inunda\u00e7\u00f5es em certa \u00e1rea ocupada sempre existiram, mesmo antes da ocupa\u00e7\u00e3o, com uma frequ\u00eancia que n\u00e3o seria aceit\u00e1vel, e essa \u00e1rea sofreu ocupa\u00e7\u00e3o irregular. Por outro lado, pode haver casos de inunda\u00e7\u00f5es que n\u00e3o ocorriam quando houve a ocupa\u00e7\u00e3o regular, ou eram extremamente raras, e hoje ocorrem mais frequentemente, por a\u00e7\u00f5es ou omiss\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e do poder p\u00fablico. Exemplos disto s\u00e3o a destrui\u00e7\u00e3o da mata ciliar, o assoreamento dos rios, as obras que interferiram em escoamento natural, etc.<\/p>\n<blockquote><p>O importante \u00e9 verificar o que se pode fazer agora para evitar novos erros, diminuir o efeito de erros anteriores e remediar erros \u201cconsolidados\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em teoria, territ\u00f3rios vulner\u00e1veis, aqueles inund\u00e1veis ou sujeitos a deslizamentos, n\u00e3o deveriam ser ocupados. Se a ocupa\u00e7\u00e3o iniciou, deveria haver interrup\u00e7\u00e3o do processo e talvez reassentamento. A defini\u00e7\u00e3o e a fiscaliza\u00e7\u00e3o desses territ\u00f3rios deveriam ser feitas pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Em casos de ocupa\u00e7\u00f5es muito consolidadas ou para benef\u00edcio do munic\u00edpio como um todo, \u00e9 necess\u00e1rio diagnosticar quais investimentos espec\u00edficos em preven\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o devem ser feitos, e implement\u00e1-los, mesmo que gradativamente.<\/p>\n<blockquote><p>Embora ajuda humanit\u00e1ria seja sempre necess\u00e1ria, o foco deve ser nas a\u00e7\u00f5es que representem benef\u00edcios mais duradouros.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Oceano Pac\u00edfico, a mais de 5 mil quil\u00f4metros do Brasil, fica o Ni\u00f1o 3.4, um ponto monitorado por sat\u00e9lites&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2800,"featured_media":29751,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false},"categories":[1614,1617,2186,1612],"tags":[2854,2625,2139,1184,2622,2624,2140,2998,1778,2229,1641],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>&quot;Alheamento do cidad\u00e3o e despreparo dos territ\u00f3rios s\u00e3o perigosos frente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&quot; 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