{"id":29729,"date":"2026-08-09T12:33:02","date_gmt":"2026-08-09T15:33:02","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=29729"},"modified":"2026-09-15T16:45:29","modified_gmt":"2026-09-15T19:45:29","slug":"homicidios-de-mulheres-indigenas-no-brasil-crescem-500-em-20-anos-diz-estudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/homicidios-de-mulheres-indigenas-no-brasil-crescem-500-em-20-anos-diz-estudo\/","title":{"rendered":"Agosto Lil\u00e1s: Homic\u00eddios de mulheres ind\u00edgenas crescem 500% em 20 anos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 20 anos, o n\u00famero de homic\u00eddios de mulheres e meninas ind\u00edgenas no Brasil cresceu 500%. \u00c9 o que diz um artigo de pesquisadores do Departamento de Sa\u00fade Coletiva da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), publicado na revista <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ci\u00eancia &amp; Sa\u00fade Coletiva<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> no fim do ano passado. Os autores analisaram homic\u00eddios registrados no Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade (SIM) entre 2003 e 2022, considerando apenas v\u00edtimas de 10 anos ou mais. Mantida pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a base re\u00fane informa\u00e7\u00f5es sobre os \u00f3bitos ocorridos no pa\u00eds, incluindo causa da morte, dados sociodemogr\u00e1ficos e local da ocorr\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>O estudo da UFPR tamb\u00e9m utilizou informa\u00e7\u00f5es do Censo Demogr\u00e1fico 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) e reuniu 394 ocorr\u00eancias, sem estabelecer rela\u00e7\u00f5es de causalidade entre as vari\u00e1veis.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Jovens de 15 a 29 anos representavam 40,4% das v\u00edtimas, seguidas pelas faixas de 30 a 39 (19,3%), 40 a 49 (12,4%) e 10 a 14 (7,1%).\u00a0 A maioria era solteira (52%). Segundo o estudo, uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que o fim de relacionamentos abusivos pode aumentar a vulnerabilidade a situa\u00e7\u00f5es como o feminic\u00eddio (homic\u00eddio de mulheres em contexto de viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar, menosprezo ou discrimina\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o feminina). Os pesquisadores, no entanto, ressaltam que o estado civil \u00e9 um indicador limitado, j\u00e1 que nem todas as uni\u00f5es s\u00e3o formalizadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A maior parte das mortes aconteceu em locais n\u00e3o especificados (36%), mas muitas ocorreram em domic\u00edlio (28%), hospitais (18,8%) ou vias p\u00fablicas (14,7%). A regi\u00e3o Centro-Oeste apresentou a maior taxa de homic\u00eddios, com destaque para o Mato Grosso do Sul.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O uso de objetos cortantes foi predominante, representando 34% dos crimes. Isso sugere proximidade f\u00edsica entre o agressor e a v\u00edtima, n\u00e3o necessariamente implicando premedita\u00e7\u00e3o, diz o estudo. O percentual de homic\u00eddios cometidos com armas de fogo tamb\u00e9m foi expressivo (22,1%), endossando a tese de que o acesso facilitado a armamentos afeta a seguran\u00e7a das mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A maioria das v\u00edtimas apresentava baixa escolaridade ou n\u00e3o tinha educa\u00e7\u00e3o formal. Para os autores do artigo, uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que mulheres com menor n\u00edvel de escolaridade tendem a ter menos autonomia financeira e menor acesso a redes de apoio.\u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Os pesquisadores argumentam, por\u00e9m, que o acesso desigual \u00e0 educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um desafio isolado. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEle integra um quadro maior, que inclui racismo estrutural, expropria\u00e7\u00e3o territorial e desassist\u00eancia do Estado\u201d, diz o professor Cl\u00f3vis Wanzinack, coordenador do Bacharelado em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica da UFPR e coautor do artigo, em entrevista \u00e0 Ci\u00eancia UFPR.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h2><b>Mulheres ind\u00edgenas est\u00e3o mais vulner\u00e1veis a viol\u00eancias<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pesquisa se refere exclusivamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e n\u00e3o inclui uma s\u00e9rie comparativa com mulheres n\u00e3o ind\u00edgenas no mesmo per\u00edodo. Ainda assim, destaca a magnitude do aumento observado e cita um achado de outro mapeamento referente a 2010-2014, em que a taxa de homic\u00eddio de mulheres ind\u00edgenas era quase 2,5 vezes maior que a de n\u00e3o ind\u00edgenas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, Wanzinack ressalta a import\u00e2ncia de considerar especificidades culturais, territoriais e sociais dessa popula\u00e7\u00e3o no desenvolvimento de medidas de prote\u00e7\u00e3o. Mulheres e meninas ind\u00edgenas enfrentam o que os autores chamam de vulnerabilidade ampliada, uma interse\u00e7\u00e3o de discrimina\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, de g\u00eanero e de classe que se complementam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A ativista Jaqueline Gomes de Moura, ind\u00edgena do Povo Kambiw\u00e1, concorda, e defende que enfrentar a viol\u00eancia contra as mulheres ind\u00edgenas exige compreender que ela est\u00e1 relacionada ao racismo, ao colonialismo, a viola\u00e7\u00f5es territoriais, \u00e0s desigualdades e \u00e0 aus\u00eancia hist\u00f3rica de pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cQuando um territ\u00f3rio \u00e9 invadido ou permanece sem prote\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia contra as mulheres tamb\u00e9m se intensifica\u201d, diz Moura, que atua na Coordena\u00e7\u00e3o de Promo\u00e7\u00e3o dos Direitos das Mulheres e Meninas Ind\u00edgenas da Articula\u00e7\u00e3o Nacional das Mulheres Ind\u00edgenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA).<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo a ativista, conflitos territoriais aumentam a presen\u00e7a de invasores, grileiros, garimpeiros, madeireiros e outros agentes que disputam ilegalmente essas \u00e1reas.<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u201cEsses contextos costumam estar associados ao crescimento das amea\u00e7as, do ass\u00e9dio, da viol\u00eancia sexual, da explora\u00e7\u00e3o de meninas, da circula\u00e7\u00e3o de armas, do consumo abusivo de \u00e1lcool e outras drogas, e da criminaliza\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as ind\u00edgenas, especialmente das mulheres que assumem posi\u00e7\u00f5es de defesa do territ\u00f3rio\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 por essa multiplicidade de cen\u00e1rios que iniciativas estatais generalistas nem sempre conseguem proteger meninas e mulheres ind\u00edgenas, diz o estudo. O acesso aos mecanismos de prote\u00e7\u00e3o previstos pela Lei Maria da Penha, por exemplo, pode ser dificultado por barreiras lingu\u00edsticas, culturais e geogr\u00e1ficas, especialmente em \u00e1reas remotas.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEm diversas situa\u00e7\u00f5es, denunciar significa percorrer centenas de quil\u00f4metros sem recursos financeiros e, muitas vezes, retornar ao mesmo ambiente de viol\u00eancia por falta de alternativas\u201d, diz Moura.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas n\u00e3o necessariamente disp\u00f5em de profissionais preparados para lidar com especificidades sociais e culturais, segundo a ativista. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u201cAinda \u00e9 comum que servidores desconhe\u00e7am as formas de organiza\u00e7\u00e3o social dos povos, seus idiomas, suas lideran\u00e7as e seus protocolos comunit\u00e1rios, o que produz desconfian\u00e7a, revitimiza\u00e7\u00e3o, e leva muitas mulheres a desistir de buscar prote\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<h2><b>Protagonismo nas pol\u00edticas p\u00fablicas deve ser priorizado<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas, afinal, como resolver esses impasses? Wanzinack argumenta que s\u00e3o necess\u00e1rias pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas para essa popula\u00e7\u00e3o, profissionais capacitados culturalmente para atuar nessas comunidades, provis\u00e3o intersetorial de servi\u00e7os de sa\u00fade, seguran\u00e7a, justi\u00e7a e educa\u00e7\u00e3o, e um equil\u00edbrio entre a justi\u00e7a ind\u00edgena e a estatal, com participa\u00e7\u00e3o ativa das pr\u00f3prias mulheres na formula\u00e7\u00e3o dessas a\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 justamente esse protagonismo que as mulheres ind\u00edgenas t\u00eam buscado, segundo Moura. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cH\u00e1 cada vez mais mulheres ind\u00edgenas liderando organiza\u00e7\u00f5es, associa\u00e7\u00f5es, pesquisas, processos de forma\u00e7\u00e3o, espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o social e articula\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais que impactam a agenda p\u00fablica\u201d.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As Marchas das Mulheres Ind\u00edgenas, que acontecem desde 2019, exemplificam esse movimento. A constru\u00e7\u00e3o coletiva de mulheres ind\u00edgenas tamb\u00e9m fomentou o surgimento de mais de 240 organiza\u00e7\u00f5es como a ANMIGA, que atualmente desenvolve o 1\u00b0 Mapa da Viol\u00eancia contra Mulheres e Meninas Ind\u00edgenas dos Sete Biomas Brasileiros. O projeto visa identificar viol\u00eancias e construir ferramentas para cobrar respostas do Estado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cGarantir a participa\u00e7\u00e3o das mulheres ind\u00edgenas nas decis\u00f5es n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de representatividade. \u00c9 reconhecer que somos sujeitas pol\u00edticas, produtoras de conhecimento e protagonistas na constru\u00e7\u00e3o de um futuro em que nossos corpos, povos e territ\u00f3rios possam viver com dignidade, autonomia e prote\u00e7\u00e3o\u201d, refor\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">\u2795 Leia o artigo <\/span><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/csc\/a\/HwSBxWxzDLkfhjvzgxKk3NR\/?format=html&amp;lang=pt\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Silenciadas pela viol\u00eancia: um olhar sobre os homic\u00eddios de mulheres e meninas ind\u00edgenas no Brasil (2003-2022), <\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400\">publicado na revista <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Ci\u00eancia &amp; Sa\u00fade Coletiva no fim do ano passado;<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0aberto, em portugu\u00eas<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 20 anos, o n\u00famero de homic\u00eddios de mulheres e meninas ind\u00edgenas no Brasil cresceu 500%. \u00c9 o que diz&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2822,"featured_media":29731,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false},"categories":[2210,1126,1618,1612,2202,1610],"tags":[2854,2996,3007,2878,1860,2997,1640,2335,2877],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - 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