{"id":29674,"date":"2026-07-22T14:53:36","date_gmt":"2026-07-22T17:53:36","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=29674"},"modified":"2026-08-21T20:42:29","modified_gmt":"2026-08-21T23:42:29","slug":"por-que-ainda-nao-conseguimos-prever-terremotos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/por-que-ainda-nao-conseguimos-prever-terremotos\/","title":{"rendered":"Por que ainda n\u00e3o conseguimos prever terremotos?"},"content":{"rendered":"<p>Quase um m\u00eas ap\u00f3s o duplo terremoto que atingiu o norte da Venezuela, equipes de resgate ainda encontram v\u00edtimas sob os escombros, e o n\u00famero de mortos ultrapassa 5,2 mil. Uma pergunta que surge em meio a abalos assim \u00e9: em que medida a ci\u00eancia consegue prev\u00ea-los? O professor Eduardo Salamuni, do Departamento de Geologia do Setor de Ci\u00eancias da Terra da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), explica.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Ci\u00eancia UFPR, ele afirma que, embora cientistas saibam quais regi\u00f5es do planeta apresentam maior risco s\u00edsmico, ainda n\u00e3o d\u00e1 para determinar exatamente onde, quando e com que magnitude ocorrer\u00e1 o pr\u00f3ximo grande terremoto.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7a com a estrutura da Terra: sua superf\u00edcie \u00e9 formada por grandes blocos rochosos, as placas tect\u00f4nicas ou litosf\u00e9ricas, que est\u00e3o em contato entre si por meio de rupturas que interrompem a continuidade das rochas (as falhas geol\u00f3gicas). Nas \u00e1reas de converg\u00eancia, elas podem se movimentar, deslizando lateralmente ou mergulhando uma sob a outra. Esse movimento \u00e9 intermitente ou muito lento, e as placas podem permanecer travadas pelo atrito entre as rochas durante anos, d\u00e9cadas ou at\u00e9 s\u00e9culos.<\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">Quando a tens\u00e3o supera a for\u00e7a do atrito entre os blocos, isso alivia a tens\u00e3o local, mas libera energia e movimenta o solo, levando a um terremoto.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os terremotos de maior impacto costumam se formar assim, e se concentrar nas regi\u00f5es de converg\u00eancia entre as placas. Mas Salamuni acrescenta que eventos menos significativos em termos de riscos s\u00edsmicos tamb\u00e9m podem ocorrer em \u00e1reas onde as placas se afastam, no interior delas e em regi\u00f5es com atividade vulc\u00e2nica.\u00a0<\/span><\/p>\n<h2>An\u00e1lise de risco \u00e9 diferente de previs\u00e3o<\/h2>\n<p>Se a ci\u00eancia conhece essas regi\u00f5es, por que ainda n\u00e3o consegue prever um terremoto? A d\u00favida nasce da confus\u00e3o entre dois conceitos: an\u00e1lise de risco e previs\u00e3o. A primeira permite identificar \u00e1reas mais suscet\u00edveis a grandes abalos e estimar a probabilidade de que eles ocorram. A segunda exigiria saber, com anteced\u00eancia, o local, o momento e a magnitude de um terremoto espec\u00edfico, algo que ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Cientistas reconhecem, por exemplo, falhas geol\u00f3gicas, e compreendem como uma movimenta\u00e7\u00e3o ali gera tens\u00e3o. O problema \u00e9 que uma falha pode se estender por dezenas ou at\u00e9 centenas de quil\u00f4metros. Ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel saber que h\u00e1 tens\u00e3o acumulada, mas n\u00e3o determinar em que ponto haver\u00e1 libera\u00e7\u00e3o dela, nem quando isso vai acontecer.<\/p>\n<p>Segundo o professor, alguns estudos conseguem estimar intervalos m\u00e9dios entre grandes eventos em determinadas falhas, como a de San Andreas, nos Estados Unidos, mas ainda n\u00e3o s\u00e3o previs\u00f5es. Terremotos menores podem liberar parte da tens\u00e3o acumulada e alterar o comportamento esperado da falha, tornando o desafio ainda maior.<\/p>\n<h2>Magnitude \u00e9 diferente de intensidade<\/h2>\n<p>O que a ci\u00eancia consegue hoje \u00e9 criar mecanismos para reduzir os impactos desses eventos. Isso envolve investir em estruturas mais resistentes, aprimorar sistemas de monitoramento e alerta, e preparar a popula\u00e7\u00e3o para agir diante de um tremor. Nesse sentido, o especialista faz uma diferencia\u00e7\u00e3o entre magnitude (a pot\u00eancia do terremoto a partir da energia liberada em sua origem) e intensidade (o grau de destrui\u00e7\u00e3o gerado em um evento).<\/p>\n<p>A magnitude costuma ser medida pela chamada magnitude de momento (Mw). Cada aumento de um ponto nessa escala corresponde a cerca de 32 vezes mais energia liberada. Assim, um terremoto de magnitude 6 libera aproximadamente 32 vezes mais energia que um de magnitude 5 e aproximadamente mil vezes mais que um de magnitude 4. A famosa escala Richter, criada na d\u00e9cada de 1930, tamb\u00e9m \u00e9 usada, mas apresenta limita\u00e7\u00f5es para eventos muito grandes.<\/p>\n<p>J\u00e1 a intensidade indica os efeitos que um terremoto provoca em determinado local. Ela \u00e9 medida pela escala de Mercalli modificada, que considera aspectos como a percep\u00e7\u00e3o do tremor pelas pessoas e danos causados a constru\u00e7\u00f5es. Seus n\u00edveis v\u00e3o de 1 a 12, em que 1 corresponde ao tremor n\u00e3o sentido, e 12 \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p>Terremotos com magnitudes similares podem apresentar intensidades muito diferentes. A intensidade envolve uma combina\u00e7\u00e3o de fatores como a proximidade de \u00e1reas densamente povoadas, a vulnerabilidade das constru\u00e7\u00f5es, a organiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de emerg\u00eancia e a capacidade de resposta das institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 justamente por isso que reduzir o n\u00famero de v\u00edtimas depende de novas tecnologias, planejamento urbano adequado e treinamento da popula\u00e7\u00e3o, segundo Salamuni.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNo terremoto da Venezuela, por exemplo, vidas foram salvas por um dispositivo criado pela Universidade de Berkeley (EUA) usado pelo Google para alertar, via celular, a vinda iminente de ondas de choque segundos antes de sua chegada\u201d, diz.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas essa estrutura varia de acordo com o panorama socioecon\u00f4mico de cada pa\u00eds. \u201cNo terremoto do Jap\u00e3o em Fukushima, em 2011, as perdas de vidas humanas foram bem menores do que as do terremoto da Indon\u00e9sia, em 2004, e ambos provocaram tsunamis muito destrutivos do ponto de vista de perdas materiais\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>\u201cE n\u00e3o bastam normativas burocr\u00e1ticas. \u00c9 preciso que a sociedade possua uma cultura que s\u00f3 se sustenta por meio de um trabalho t\u00e9cnico e educacional efetivo\u201d, acrescenta.<\/p>\n<h2>Mitos cercam os terremotos<\/h2>\n<p>Grandes terremotos tamb\u00e9m costumam ser acompanhados por ondas de desinforma\u00e7\u00e3o, lembra o professor. Uma das associa\u00e7\u00f5es mais frequentes \u00e9 atribu\u00ed-los \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, rela\u00e7\u00e3o que nunca foi comprovada.<\/p>\n<p>Outra cren\u00e7a difundida envolve o comportamento de animais. Ser\u00e1 que eles conseguem prever um terremoto? O que se sabe \u00e9 que diversas esp\u00e9cies apresentam sensibilidade \u00e0s vibra\u00e7\u00f5es produzidas pelas ondas s\u00edsmicas e podem demonstrar comportamento incomum segundos antes da movimenta\u00e7\u00e3o do solo, diz o professor.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cJ\u00e1 foram relatados casos de pessoas que perceberam essa mudan\u00e7a de comportamento em seus animais dom\u00e9sticos e deixaram suas casas momentos antes do terremoto. Tamb\u00e9m h\u00e1 registros de elefantes que se deslocaram para \u00e1reas mais elevadas antes da chegada do tsunami na Indon\u00e9sia\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas, de acordo com o pesquisador, isso n\u00e3o significa que os animais sejam capazes de prever terremotos com anteced\u00eancia suficiente para substituir sistemas cient\u00edficos de monitoramento.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto a ci\u00eancia ainda busca compreender melhor os sinais que antecedem um terremoto, as principais ferramentas para reduzir trag\u00e9dias continuam sendo as mesmas: investir em pesquisa, educa\u00e7\u00e3o, monitoramento e infraestrutura resistente e igualit\u00e1ria\u201d, finaliza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase um m\u00eas ap\u00f3s o duplo terremoto que atingiu o norte da Venezuela, equipes de resgate ainda encontram v\u00edtimas sob&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2822,"featured_media":29675,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false},"categories":[2210,2211,2202,1611],"tags":[2854,2989,2101,2988],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Por que ainda n\u00e3o conseguimos prever terremotos? 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