{"id":29598,"date":"2026-07-15T11:33:28","date_gmt":"2026-07-15T14:33:28","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=29598"},"modified":"2026-07-28T17:34:10","modified_gmt":"2026-07-28T20:34:10","slug":"nao-e-mais-possivel-pensar-em-estilo-brasileiro-de-jogar-futebol-com-jogadores-formados-no-exterior-andre-capraro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/nao-e-mais-possivel-pensar-em-estilo-brasileiro-de-jogar-futebol-com-jogadores-formados-no-exterior-andre-capraro\/","title":{"rendered":"&#8220;N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel pensar em \u2018estilo brasileiro de jogar futebol\u2019 com jogadores formados no exterior\u201d | Andr\u00e9 Capraro"},"content":{"rendered":"<p>Na esteira dos argumentos da Fifa por mais inclus\u00e3o e tecnicidade, a Copa do Mundo de 2026 trouxe algumas primeiras vezes para o futebol: primeira vez com 48 sele\u00e7\u00f5es, um recorde (eram 32); primeira vez com avatares representando os julgamentos do VAR (em ingl\u00eas, \u201c\u00e1rbitro assistente de v\u00eddeo\u201d); primeira vez com protocolo antirracismo para prote\u00e7\u00e3o de jogadores e torcida.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, para o professor e pesquisador Andr\u00e9 Mendes Capraro, que h\u00e1 30 anos observa processos hist\u00f3ricos do futebol, o campeonato ficar\u00e1 na mem\u00f3ria por outros motivos. A sensa\u00e7\u00e3o, diz ele, \u00e9 de que as modifica\u00e7\u00f5es, em vez de evitar, expuseram pol\u00eamicas ligadas \u00e0s escolhas da federa\u00e7\u00e3o internacional para a representa\u00e7\u00e3o do esporte.<\/p>\n<p>Segundo Capraro, o campeonato tem deixado entrever as consequ\u00eancias da consolida\u00e7\u00e3o do futebol como ind\u00fastria global. \u201cEmbora o futebol seja o esporte mais popular do mundo, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel entend\u00ea-lo sem levar em conta rela\u00e7\u00f5es comerciais, pol\u00edticas e identit\u00e1rias\u201d, acredita.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que contradi\u00e7\u00f5es no uso de recursos \u2014 que deveriam aumentar a transpar\u00eancia e a isonomia \u2014 criam efeito inverso. Em outras palavras, na Copa de 2026 a tecnologia que prometia objetividade se somou a decis\u00f5es pol\u00edticas de bastidores, mais \u00e0 ostensividade das casas de apostas como patrocinadoras, para deixar quest\u00f5es no ar.<\/p>\n<p>Em campo, a globaliza\u00e7\u00e3o deixa o futebol mais competitivo \u2014 afinal, todos treinam igual, nos mesmos clubes, seguindo f\u00f3rmulas definidas. Ao mesmo tempo, estilos nacionais acabam se diluindo. &#8220;Esse efeito acaba, em muitos casos, ocasionando crises identit\u00e1rias\u201d, analisa Capraro, um dos professores titulares do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e associado ao Instituto de Pesquisa Intelig\u00eancia Esportiva (Ipie).<\/p>\n<p>Na entrevista abaixo abordamos essas e outras quest\u00f5es, como a evolu\u00e7\u00e3o t\u00e1tica do esporte, o que significa o \u201cpadr\u00e3o Fifa&#8221; hoje e a dificuldade de combate ao racismo no futebol.<\/p>\n<h6 style=\"display: flex; align-items: center; justify-content: flex-end; gap: 5px; padding: 10px 5px 10px 5px; margin: 1; text-align: right; flex-wrap: nowrap; background-color: #f5f5f5; border-radius: 5px;\"><span style=\"flex: 1 1 0; min-width: 0; text-align: right; word-wrap: break-word; overflow-wrap: break-word; line-height: 1.4;\"><br \/>\n\ud83d\udde3\ufe0f Continuando a reflex\u00e3o sobre a <a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/tag\/copa-do-mundo-2026\/\">Copa do Mundo de 2026<\/a>, leia tamb\u00e9m a entrevista com Danielle Torri<br \/>\n<\/span><br \/>\n<a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Danielle-Torri-arbitrando-futsal-1.-Foto-Karine-Gerlach-Divulgacao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-29660 size-full\" style=\"flex-shrink: 0; float: none !important; width: 75px; height: 75px; max-width: 75px; display: block; margin: 0;\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Danielle-Torri-arbitrando-futsal-1.-Foto-Karine-Gerlach-Divulgacao.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Danielle-Torri-arbitrando-futsal-1.-Foto-Karine-Gerlach-Divulgacao.jpg 200w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Danielle-Torri-arbitrando-futsal-1.-Foto-Karine-Gerlach-Divulgacao-150x150.jpg 150w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Danielle-Torri-arbitrando-futsal-1.-Foto-Karine-Gerlach-Divulgacao-96x96.jpg 96w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><\/h6>\n<p><strong><br \/>\nO que a Copa do Mundo de 2026 tem trazido de ideias para a sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica? Da participa\u00e7\u00e3o da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, que acep\u00e7\u00f5es ficam sobre a estrutura desse esporte no Brasil, onde \u00e9, de longe, o esporte mais conhecido, de maior torcida, patroc\u00ednio e cultura? Do posicionamento das entidades, quais bastidores t\u00eam decidido os rumos do futebol?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Andr\u00e9 Mendes Capraro <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Essa Copa, sem d\u00favida, \u00e9 a mais polemizada nos \u00faltimos tempos. Tenho coletados dados para pesquisas ap\u00f3s a conclus\u00e3o do evento, inclusive dados quantitativos, mesmo n\u00e3o sendo o meu foco central [Capraro \u00e9 especialista em documenta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria oral]. Hoje em dia v\u00e1rias plataformas divulgam dados abertos, desde dados de desempenho t\u00e9cnico-t\u00e1tico individualizados at\u00e9 acerca da arbitragem.<\/p>\n<p>J\u00e1 podemos levantar hip\u00f3teses relevantes de que existem inconsist\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arbitragem, sobretudo interven\u00e7\u00f5es com crit\u00e9rios divergentes por parte do VAR, o que ocasionaria benef\u00edcios aos selecionados atletas que tenham rela\u00e7\u00e3o estreita com a Fifa. Al\u00e9m disso, a entidade, por meio do seu presidente, Gianni Infantino [antes dirigente da Uefa, a confedera\u00e7\u00e3o europeia, sucedeu a Joseph Blatter na Fifa em 2016], est\u00e1 sendo investigada por permitir interfer\u00eancias pol\u00edticas externas e internas.<\/p>\n<blockquote><p>Embora o futebol seja o esporte mais popular do mundo, sem d\u00favida, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel entend\u00ea-lo sem levar em conta rela\u00e7\u00f5es comerciais, pol\u00edticas e identit\u00e1rias.<\/p><\/blockquote>\n<p>Um fen\u00f4meno recente que ainda precisa ser aprofundado, por exemplo, \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o ao impacto que as bets, as casas virtuais de apostas, ocasionam no futebol.<\/p>\n<p><strong>Em que ponto estamos da hist\u00f3ria do futebol? O que a Copa de 2026 \u00e9 capaz de representar em termos de processos estruturais j\u00e1 em andamento que podem ter sido consolidados, ou mesmo de reformas que eventualmente podem vir a estar despontando? Estamos em um ponto de ruptura com estere\u00f3tipos nacionais?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AMC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Estamos em um ponto, creio que sem volta, no qual o futebol se transformou em uma ind\u00fastria global. Esse efeito acaba, em muitos casos, ocasionando crises identit\u00e1rias, sobretudo de car\u00e1ter nacionais. No caso brasileiro, por exemplo, atletas rumam muito cedo \u00e0 Europa e isso faz com que n\u00e3o se criem v\u00ednculos s\u00f3lidos com os clubes nacionais ou com a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<blockquote><p>Isso leva a crer que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel pensar na exist\u00eancia de um \u201cestilo\u201d brasileiro de jogar futebol, tendo em conta que boa parte do per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o esportiva se d\u00e1 no exterior, algumas vezes at\u00e9 em locais perif\u00e9ricos no mundo do futebol.<\/p><\/blockquote>\n<p>O pr\u00f3prio Lionel Messi [hoje, aos 39 anos, atuando no Inter Miami] foi muito cedo morar em Barcelona, abrindo uma discuss\u00e3o intensa na Argentina se esse tinha identifica\u00e7\u00e3o com o seu pa\u00eds. Durante as suas primeiras participa\u00e7\u00f5es em copas do mundo foi bastante cobrado, inclusive, declarando mais de uma vez que havia se aposentado da sele\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 mudou com a chegada de Gianni Infantino \u00e0 Fifa e um acolhimento ao jogador por parte da entidade, tendo em conta que a rela\u00e7\u00e3o cordial poderia trazer benef\u00edcios, sejam comerciais, financeiros, de marketing, etc., a todos os envolvidos.<\/p>\n<p><strong>O que a onipresen\u00e7a da tecnologia, como o VAR, significa para esse ponto da hist\u00f3ria do futebol? Em 1960 o Nelson Rodrigues comentarista de futebol disse: \u201co videoteipe \u00e9 burro\u201d. O VAR \u00e9 o qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AMC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Em rela\u00e7\u00e3o ao VAR, n\u00e3o sou um saudosista. Se existe tecnologia e ela \u00e9 acess\u00edvel, deve ser usada para minimizar erros graves cometidos pela arbitragem. N\u00f3s humanos estamos sujeitos a erros. Basta lembrar que a Copa j\u00e1 foi definida por um gol em que a bola n\u00e3o entrou, em 1966 [final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental, vencida por 4 a 2 pela primeira], e outro com um gol de m\u00e3o, em1986 [a Inglaterra derrotada nas quartas de final, dessa vez pela Argentina, por 2 a 1].<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a grande expectativa gerada pela chegada do VAR, a ingenuidade de que n\u00e3o existiriam mais erros gritantes, trouxe a proporcional frustra\u00e7\u00e3o que tais erros permanecem sendo cometidos.<\/p>\n<blockquote><p>O VAR acaba privilegiando sele\u00e7\u00f5es e, sobretudo, atletas com maior atrativo em termos de \u00edndices de audi\u00eancia.<\/p><\/blockquote>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o do VAR, ainda que sob um discurso de objetividade, pode se dar em v\u00e1rios casos, ditos excepcionais, mas s\u00e3o muitos, que permitem interpreta\u00e7\u00f5es subjetivas. Vide o caso do belo gol do Egito anulado na partida contra a Argentina [3 a 2, pelas oitavas de final no \u00faltimo dia 7].<\/p>\n<p>Devemos lembrar que a pr\u00f3pria Fifa tem uma grande marca esportiva como patrocinadora e essa marca patrocina tamb\u00e9m v\u00e1rias sele\u00e7\u00f5es e atletas.<\/p>\n<p><strong>Na hist\u00f3ria do futebol o Brasil introduziu um esquema t\u00e1tico, o 4-2-4, que anda mal falado por ser pouco defensivo e sobrecarregar o meio campo; enquanto o 4-1-4-1, que \u00e9 mais vers\u00e1til e tem solidez defensiva, despontou como uma f\u00f3rmula das sele\u00e7\u00f5es vencedoras nos \u00faltimos 15 anos. A Copa de 2026 sacramentou isso ou parece ter havido mais diversifica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AMC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> A Copa diversificou modelos. Dentre as candidatas ao t\u00edtulo, a sele\u00e7\u00e3o francesa foi uma das poucas que apresentou um sistema t\u00e1tico com alta intensidade, privilegiando o ataque. Isso foi poss\u00edvel porque a Fran\u00e7a j\u00e1 tinha uma base consolidada desde a \u00faltima Copa e v\u00e1rios atletas de uma mesma equipe, o Paris Saint Germain [PSG].<\/p>\n<p>O modelo que mais predominou foi a forma\u00e7\u00e3o de linhas baixas de marca\u00e7\u00e3o, ou seja, um modelo mais defensivo, reativo.<\/p>\n<blockquote><p>Em rela\u00e7\u00e3o aos talentos individuais, essa Copa foi marcada pela atua\u00e7\u00e3o consistente de v\u00e1rios protagonistas. Esses selecionados aprenderam a montar esquemas t\u00e1ticos que favorecem a atua\u00e7\u00e3o dos seus atletas mais talentosos.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Na produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de sua coautoria o futebol moderno \u00e9 descrito como um fen\u00f4meno complexo que transcende a pr\u00e1tica esportiva, caracterizando-se pela hipermercantiliza\u00e7\u00e3o, pela globaliza\u00e7\u00e3o e por uma evolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-t\u00e1tica baseada no vigor f\u00edsico. Qual tem sido o impacto desse dogma para o futebol brasileiro? Existe alguma amea\u00e7a a essa ideia que se apresentou na Copa ou ela continua forte? Ao mesmo tempo, a vontade de copiar o futebol moderno pode ter tornado a Copa de 2026 mais competitiva, com menos peso de \u201ccamisa\u201d?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AMC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Exatamente! Devido a padroniza\u00e7\u00e3o de modelos t\u00e1ticos de jogo e at\u00e9 de condi\u00e7\u00f5es de treinamento, as sele\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito parecidas em termos de desempenho.<\/p>\n<p>O predom\u00ednio da excel\u00eancia f\u00edsica gera muitas vantagens, mas, paradoxalmente, como todos priorizam isso, neste Mundial houve um nivelamento natural. Prova \u00e9 que, mesmo com aumento do n\u00famero de equipes, goleadas n\u00e3o foram muito comuns. V\u00e1rias partidas que, a princ\u00edpio, contavam com um grande favorito, foram muito disputadas. Vide o desempenho, por exemplo, da Sele\u00e7\u00e3o de Cabo Verde.<\/p>\n<blockquote><p>A condi\u00e7\u00e3o essencial para essa paridade \u00e9 a padroniza\u00e7\u00e3o do treinamento. N\u00e3o havendo grande desequil\u00edbrio no desempenho f\u00edsico geral, a tend\u00eancia \u00e9 que as partidas sejam definidas em detalhes.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 partida entre Brasil e Noruega, por exemplo, as altera\u00e7\u00f5es [de jogadores, no segundo tempo da partida] do Brasil que acarretariam, na teoria, maior poder ofensivo, geraram, como consequ\u00eancia, desequil\u00edbrio na marca\u00e7\u00e3o, por sinal, bem explorado pela Noruega, para a nossa infelicidade.<\/p>\n<p>L\u00f3gico, o futebol \u00e9 rico exatamente pelas marcas que nos deixa. Iremos lembrar do p\u00eanalti n\u00e3o convertido e do gol perdido pelo Endrick? &#8216;O que aconteceria se?\u2019.<\/p>\n<p><strong>A Copa do Mundo de 2026 foi a estreia do protocolo antirracismo da Fifa institu\u00eddo em 2024, por meio do qual a federa\u00e7\u00e3o internacional busca mostrar avan\u00e7os burocr\u00e1ticos desde casos como o de Grafite vs. Des\u00e1bato, na Libertadores de 2005. Foi poss\u00edvel perceber diferen\u00e7a do ambiente do campo ou mesmo do est\u00e1dio?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AMC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Eu pesquisei em conjunto com orientandos por muito tempo epis\u00f3dios de racismo, sobretudo, no \u00e2mbito dos campeonatos latino-americanos. A minha impress\u00e3o inicial era a de que seriam casos isolados, por\u00e9m, a frequ\u00eancia foi aumentando. Talvez por causa do aumento tamb\u00e9m do n\u00famero de c\u00e2meras, da maior conscientiza\u00e7\u00e3o social e da cobertura midi\u00e1tica.<\/p>\n<blockquote><p>Hoje tenho a convic\u00e7\u00e3o de que se trata de um caso cr\u00f4nico e emergencial.<\/p><\/blockquote>\n<p>Alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, n\u00e3o s\u00f3 a Argentina, n\u00e3o t\u00eam legisla\u00e7\u00f5es r\u00edgidas tipificando o racismo como crime. Se existe uma flexibilidade legal nos seus respectivos pa\u00edses, \u00e9 normal que atos hediondos como esses ocorram tamb\u00e9m em outros ambientes e pa\u00edses. O gesto de imitar um macaco com finalidade racista, por exemplo, foi flagrado algumas vezes durante a realiza\u00e7\u00e3o dessa Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Tratando-se desse assunto n\u00e3o tem como n\u00e3o mencionar o c\u00e2ntico racista, xen\u00f3fobo e at\u00e9 homof\u00f3bico cantado por parte significativa da torcida argentina na Copa de 2022. A m\u00fasica foi entoada por v\u00e1rios jogadores argentinos durante a comemora\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo e transmitida em live pelo atleta Enzo Fern\u00e1ndez.<\/p>\n<blockquote><p>A Fifa e outras entidades afiliadas emitem notas e multam atletas e clubes cujas torcidas fazem manifesta\u00e7\u00e3o desse car\u00e1ter, mas, pensando o mundo do futebol, os valores de tais multas s\u00e3o irris\u00f3rios. Essas iniciativas s\u00e3o paliativas e n\u00e3o bastam.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Sobre a Fifa e as federa\u00e7\u00f5es: o senhor estuda a &#8220;mercantiliza\u00e7\u00e3o&#8221; e a transforma\u00e7\u00e3o do futebol em espet\u00e1culo global. Como a ado\u00e7\u00e3o do &#8220;padr\u00e3o Fifa&#8221; e a depend\u00eancia financeira das federa\u00e7\u00f5es nacionais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 entidade m\u00e1xima alteraram a rela\u00e7\u00e3o do torcedor com o est\u00e1dio, transformando um espa\u00e7o de sociabilidade em um produto de consumo elitizado?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AMC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Pensando o futebol como um todo, n\u00e3o s\u00f3 as copas do mundo, houve um encarecimento geral do esporte nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O fen\u00f4meno come\u00e7ou na Inglaterra nos anos 1990, sob o pretexto de \u201cexpulsar\u201d os hooligans dos est\u00e1dios. Hoje, assistir a uma partida no est\u00e1dio, raras exce\u00e7\u00f5es, tem um custo significativo. Em uma Copa do Mundo \u00e9 de modo mais gritante.<\/p>\n<p>Sim, isso resulta em uma elitiza\u00e7\u00e3o do esporte, mas vejo como inevit\u00e1vel, tendo em conta que s\u00f3 o deslocamento, estadia e alimenta\u00e7\u00e3o em outro pa\u00eds inviabilizaria a presen\u00e7a de populares. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/live\/0IHW8UcJSUY?is=x33BUI9DPcKwZLmi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Esse processo como um todo tem aproximado o futebol do modelo de espet\u00e1culo esportivo oferecido nos EUA<\/a>, principalmente o basquete, o futebol americano e o beisebol.<\/p>\n<blockquote><p>Sem d\u00favida, o modo de torcer mudou. O torcedor que paga caro pelo ingresso tem uma tend\u00eancia de cobrar mais da equipe do que apoi\u00e1-la. Mas ainda faltam pesquisas consistentes sobre esse tipo de impacto no desempenho dos atletas em campo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o as enormes exig\u00eancias da Fifa para realiza\u00e7\u00e3o de eventos mundiais e, quando digo enormes, me refiro at\u00e9 a se sobrepor \u00e0s leis nacionais, essa Copa deixou claro que h\u00e1 sim espa\u00e7o para contesta\u00e7\u00f5es e at\u00e9 nega\u00e7\u00f5es de pedidos.<\/p>\n<p>Contesta\u00e7\u00f5es esdr\u00faxulas chegaram at\u00e9 o \u00e2mbito esportivo, como a suspens\u00e3o do cumprimento da pena autom\u00e1tica ap\u00f3s expuls\u00e3o por parte de um atleta norte-americano.<\/p>\n<blockquote><p>Estou muito curioso e pretendo acompanhar atentamente qual ser\u00e1 o impacto disso na realiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3xima Copa do Mundo Feminina, aqui no Brasil, em 2027. Agora sabemos que \u00e9 poss\u00edvel dizer \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 Fifa.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Pensando no futuro do esporte: o quanto o fato de bets estarem no centro do futebol hoje, em termos de populariza\u00e7\u00e3o e como principais patrocinadores, pode influir no desenvolvimento do esporte e dos seus campeonatos?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AMC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> As bets s\u00e3o um ponto nevr\u00e1lgico para compreens\u00e3o do esporte na atualidade e n\u00e3o s\u00f3 o futebol. Tenho impress\u00e3o at\u00e9 que elas poder\u00e3o, se j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o, influenciar na din\u00e2mica do jogo.<\/p>\n<p>Como se aposta praticamente em tudo, podem levar um atleta, por exemplo, a chutar mais ou menos em gol, dependendo das <em>odds<\/em> [em ingl\u00eas, &#8220;probabilidades&#8221;, s\u00e3o m\u00e9tricas num\u00e9ricas usadas nas apostas esportivas].<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio destacar que, volta e meia, o atleta \u00e9 comunicado em qual partida dever\u00e1 tomar o pr\u00f3ximo cart\u00e3o amarelo para ficar \u201czerado\u201d para partidas mais importantes. Mesmo sendo question\u00e1vel em termos morais, \u00e9 uma estrat\u00e9gia muito comum no futebol. O excepcional nesse caso \u00e9 que o atleta sabe antecipadamente de algo no qual se aposta.<\/p>\n<p>Alguns casos, por esse motivo, foram investigados e punidos aqui no Brasil, por\u00e9m, para uns as penas foram pesadas e, para outros, irrelevantes. A justi\u00e7a foi bem desigual nas puni\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span class=\"TextRun SCXW241010358 BCX0\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SCXW241010358 BCX0\">\u2795\u00a0<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW241010358 BCX0\">Leia sobre impress\u00f5es de jogadores brasileiros que disputaram copas no<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW241010358 BCX0\">\u00a0<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW241010358 BCX0\">livro<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW241010358 BCX0\"> &#8220;<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW241010358 BCX0\"><a href=\"https:\/\/share.google\/mcNoCX2hOv5zAhtyU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hist\u00f3ria oral e futebol: Um campo de possibilidades<\/a>&#8220;, organizado por <\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW241010358 BCX0\">Raphael Raj\u00e3o Ribeiro e Bernardo Buarque de\u00a0<\/span><span class=\"NormalTextRun SpellingErrorV2Themed SCXW241010358 BCX0\">Hollanda<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW241010358 BCX0\">, da editora Letra e Voz<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW241010358 BCX0\">, de 2024 (\u00e0 venda)<\/span><\/span><span class=\"EOP Selected SCXW241010358 BCX0\" data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na esteira dos argumentos da Fifa por mais inclus\u00e3o e tecnicidade, a Copa do Mundo de 2026 trouxe algumas primeiras&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2800,"featured_media":29600,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false},"categories":[1126,1614],"tags":[2854,2980,2979,2983,1628,1629,2954,2982,2984,2643,2981],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - 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