{"id":29537,"date":"2026-06-30T18:09:03","date_gmt":"2026-06-30T21:09:03","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=29537"},"modified":"2026-07-15T11:34:01","modified_gmt":"2026-07-15T14:34:01","slug":"por-que-a-populacao-lgbtqiapn-ainda-enfrenta-barreiras-no-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/por-que-a-populacao-lgbtqiapn-ainda-enfrenta-barreiras-no-sus\/","title":{"rendered":"Por que a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+ ainda enfrenta barreiras no SUS"},"content":{"rendered":"<p>Durante uma consulta, uma mulher l\u00e9sbica pode temer que seu relato sofra julgamento moral. Um homem gay pode ter o atendimento reduzido a perguntas sobre infec\u00e7\u00f5es sexualmente transmiss\u00edveis (ISTs). Pessoas trans podem enfrentar desrespeito ao nome social. Experi\u00eancias assim ajudam a mostrar como o cuidado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+ ainda representa um desafio no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), mesmo 15 anos ap\u00f3s a institui\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade Integral de L\u00e9sbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ada em 2011, e aprovada em meio a reivindica\u00e7\u00f5es de movimentos sociais e debates sobre equidade, ela estabeleceu diretrizes como respeito ao nome social e \u00e0 identidade de g\u00eanero; a qualifica\u00e7\u00e3o permanente dos profissionais de sa\u00fade; e o enfrentamento da discrimina\u00e7\u00e3o institucional. Mas sua aplica\u00e7\u00e3o ainda possui gargalos.<\/p>\n<p>Para entender como esses desafios se manifestam na pr\u00e1tica, um estudo explorat\u00f3rio publicado em 2023 no peri\u00f3dico <em>Divers@!, <\/em>sobre quest\u00f5es de diversidade, por pesquisadores da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), mostrou os resultados da escuta de representantes da comunidade LGBT+, profissionais de sa\u00fade e gestores p\u00fablicos divididos em quatro grupos de discuss\u00e3o, totalizando 48 participantes no Paran\u00e1. A an\u00e1lise identificou desde dificuldades burocr\u00e1ticas, como a falta de informa\u00e7\u00e3o sobre onde buscar atendimento, at\u00e9 barreiras psicol\u00f3gicas, como o medo da discrimina\u00e7\u00e3o, que leva pessoas a adiar a procura por servi\u00e7os.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m mapeou fragilidades curriculares, apontando que muitos profissionais da sa\u00fade conclu\u00edam a gradua\u00e7\u00e3o com s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, mas pouca prepara\u00e7\u00e3o para oferecer um atendimento acolhedor e equitativo. A professora Laura Christina Macedo, do Departamento de Enfermagem da UFPR, tamb\u00e9m enxerga essa lacuna. \u201cEla persiste mesmo em cursos com projetos pedag\u00f3gicos mais atualizados\u201d, diz \u00e0 <em>Ci\u00eancia UFPR<\/em>. Pesquisadora das \u00e1reas de g\u00eanero e viol\u00eancia de g\u00eanero, a especialista afirma que o ensino ainda \u00e9 centrado em uma perspectiva heteronormativa e cisg\u00eanera, negligenciando necessidades espec\u00edficas da popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+.<\/p>\n<h2>Forma\u00e7\u00e3o em sa\u00fade deve ser transversal<\/h2>\n<p>Para a docente, compet\u00eancia cultural, acolhimento e sa\u00fade mental devem integrar a matriz curricular de forma transversal. Disciplinas como ginecologia precisam lembrar da necessidade de exames de rotina baseados na anatomia do paciente, independentemente do g\u00eanero. J\u00e1 mat\u00e9rias relacionadas \u00e0 sa\u00fade mental precisam preparar discentes para identificar e acolher quadros de ansiedade, depress\u00e3o e idea\u00e7\u00e3o suicida agravados pela discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o se trata de adicionar uma aula isolada de inclus\u00e3o no final do semestre\u201d, diz o doutorando Augusto Platini Menna Barreto Gomes, que estuda a epidemia de HIV\/AIDS no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da UFPR.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para ele, \u00e9 necess\u00e1rio pensar curr\u00edculos capazes de questionar uma estrutura social que ainda trata a diversidade como anomalia, e n\u00e3o como express\u00e3o leg\u00edtima da experi\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Macedo ressalta, por\u00e9m, que o desafio n\u00e3o se restringe \u00e0 forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. \u00c9 importante que a Educa\u00e7\u00e3o Permanente em Sa\u00fade, oferecida \u00e0s trabalhadoras e aos trabalhadores do SUS, incorpore temas como diversidade e direitos humanos, alcan\u00e7ando toda a equipe, incluindo profissionais da medicina, enfermagem, sa\u00fade bucal e recep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;\u00c9 importante combater formas sutis de discrimina\u00e7\u00e3o, aquela viol\u00eancia invis\u00edvel, que n\u00e3o necessariamente se manifesta em coment\u00e1rios inadequados, mas afasta a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+ dos servi\u00e7os de sa\u00fade&#8221;, diz a professora.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cPerguntar o nome social e os pronomes n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de etiqueta, \u00e9 o reconhecimento da exist\u00eancia de um sujeito\u201d, exemplifica Gomes, que, al\u00e9m de pesquisador, coordena o coletivo <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/viveracao\">ViverA\u00e7\u00e3o<\/a>, voltado \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, da sexualidade e da cidadania da popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+.<\/p>\n<h2>Cuidado exige mais do que protocolos<\/h2>\n<p>O estudo de 2023 citado anteriormente n\u00e3o ignora aspectos log\u00edsticos e burocr\u00e1ticos no SUS. Um deles \u00e9 a desarticula\u00e7\u00e3o entre os n\u00edveis de aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade. Por exemplo, uma pessoa pode ser bem atendida no posto (aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria), mas, ao ser encaminhada para um especialista (aten\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria), as informa\u00e7\u00f5es deixam de ser compartilhadas e o tratamento \u00e9 comprometido por falhas na comunica\u00e7\u00e3o entre os servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Ainda assim, a pesquisa conclui que o principal desafio continua sendo o fator humano. Para enfrent\u00e1-lo, especialistas defendem estrat\u00e9gias de acolhimento, forma\u00e7\u00e3o adequada e o fortalecimento das chamadas tecnologias relacionais, pr\u00e1ticas baseadas na escuta qualificada e no v\u00ednculo entre profissional e paciente. Segundo Gomes, melhorar esse cen\u00e1rio passa por compreender estruturas que produzem exclus\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAs altas taxas de suicidio LGBTQIAPN+, por exemplo, residem no esgotamento cr\u00f4nico de habitar um tecido social e institucional que recusa nossa exist\u00eancia diariamente. A identidade n\u00e3o adoece ningu\u00e9m; o que adoece \u00e9 o desgaste de precisar sobreviver \u00e0 norma\u201d, argumenta.<\/p><\/blockquote>\n<p>O pesquisador defende o combate a pr\u00e1ticas e concep\u00e7\u00f5es ainda presentes nos servi\u00e7os de sa\u00fade, como o foco excessivo na profilaxia das ISTs; a falsa cren\u00e7a de que mulheres l\u00e9sbicas e bissexuais, por n\u00e3o manterem rela\u00e7\u00f5es com homens cisg\u00eaneros, n\u00e3o precisam de rastreamento ginecol\u00f3gico cont\u00ednuo; o desconhecimento de que homens trans podem necessitar de acompanhamento ginecol\u00f3gico e mulheres trans, de cuidados relacionados \u00e0 pr\u00f3stata; e a invisibiliza\u00e7\u00e3o da autonomia corporal das pessoas intersexo.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto a dissid\u00eancia de sexo e g\u00eanero for tratada como uma nota de rodap\u00e9, um exotismo ou um problema a ser domesticado, a pr\u00e1tica em sa\u00fade continuar\u00e1 falhando no seu princ\u00edpio mais elementar, que \u00e9 o de n\u00e3o causar dano\u201d, conclui.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\">\u2795 Leia o artigo <a href=\"https:\/\/revistas.ufpr.br\/diver\/article\/view\/92640?\"><em>Barreiras e potencialidades do cuidado integral \u00e0 sa\u00fade de l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no estado do Paran\u00e1, <\/em><\/a>publicado no peri\u00f3dico <em>Divers@!<\/em> (aberto; em portugu\u00eas)<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante uma consulta, uma mulher l\u00e9sbica pode temer que seu relato sofra julgamento moral. 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