{"id":29529,"date":"2026-06-23T19:07:30","date_gmt":"2026-06-23T22:07:30","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=29529"},"modified":"2026-07-07T16:57:43","modified_gmt":"2026-07-07T19:57:43","slug":"pesquisador-da-ufpr-descobre-especie-de-caramujo-desaparecida-ha-milhares-de-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/pesquisador-da-ufpr-descobre-especie-de-caramujo-desaparecida-ha-milhares-de-anos\/","title":{"rendered":"Esp\u00e9cie de caramujo que viveu h\u00e1 milhares de anos \u00e9 descoberta no Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Encontrar um caramujo desconhecido pela zoologia j\u00e1 seria uma grande surpresa para um cientista. Agora imagine identificar uma esp\u00e9cie que, al\u00e9m de nunca ter sido catalogada, n\u00e3o existe mais. Essa foi a descoberta dos pesquisadores Marcos de Vasconcellos Gernet, do Laborat\u00f3rio de Evolu\u00e7\u00e3o e Diversidade Zool\u00f3gica da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR); Luiz Ricardo L. Simone, do Museu de Zoologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP); e Fabiano Pinheiro, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Rede Nacional para Ensino das Ci\u00eancias Ambientais, tamb\u00e9m da UFPR.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao analisar um sambaqui (s\u00edtio arqueol\u00f3gico pr\u00e9-colonial) de aproximadamente 3 mil anos, na Ilha do Teixeira, no litoral do Paran\u00e1, a equipe encontrou conchas de um caramujo terrestre pertencente ao g\u00eanero <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Thaumastus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, que possui 38 esp\u00e9cies na Am\u00e9rica do Sul, sendo 18 delas registradas no Brasil<\/span><span style=\"font-weight: 400\">. \u201cElas tinham entre 3 e 6 cent\u00edmetros de comprimento, o que para um caramujo terrestre, \u00e9 consideravelmente grande\u201d, diz Gernet.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas os exemplares n\u00e3o correspondiam a nenhuma esp\u00e9cie j\u00e1 conhecida. A principal diferen\u00e7a estava na parte pontuda da concha, estrutura chamada de espira. Nos outros carac\u00f3is do mesmo grupo, essa ponta costuma ser mais longa. A superf\u00edcie tamb\u00e9m tinha como diferenciais faixas marrom-avermelhadas e uma linha branca em espiral que os indiv\u00edduos do mesmo g\u00eanero n\u00e3o possu\u00edam.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s constatar a novidade, os pesquisadores passaram dois anos investigando a Ilha do Teixeira para localizar mais exemplares do caramujo identificado, e n\u00e3o encontraram. \u201cN\u00e3o achamos sequer conchas vazias, nem animais do g\u00eanero, mesmo no sambaqui ao lado\u201d, diz o professor. \u201cNossa hip\u00f3tese \u00e9 de que eles viviam restritos ao mangue e dificilmente conseguiam acessar o continente\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As 23 conchas encontradas no sambaqui foram limpas e depositadas no Museu de Zoologia da USP, e o artigo com a descri\u00e7\u00e3o do animal foi publicado no peri\u00f3dico <\/span><b>Pap\u00e9is Avulsos de Zoologia<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, da mesma institui\u00e7\u00e3o, no final de 2025. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">A esp\u00e9cie foi batizada como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Thaumastus teixeirensis<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">em men\u00e7\u00e3o ao seu g\u00eanero e \u00e0 ilha onde foi encontrada.\u00a0<\/span><\/p>\n<h2><b>O que ter\u00e1 acontecido com <\/b><b><i>Thaumastus teixeirensis?<\/i><\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante dos vest\u00edgios, uma das principais perguntas em aberto \u00e9: o que aconteceu com o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0teixeirensis<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">? O desaparecimento pode estar ligado a uma r\u00e1pida mudan\u00e7a no clima, marcada por um longo per\u00edodo de estiagem ou altera\u00e7\u00f5es no n\u00edvel do mar, segundo o professor.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u201cMoluscos s\u00e3o sens\u00edveis a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Quando o tempo est\u00e1 seco, eles se recolhem nas conchinhas at\u00e9 a umidade voltar para que eles possam se locomover e procurar alimento. Se o tempo \u00famido n\u00e3o volta, eles simplesmente n\u00e3o saem, e morrem\u201d.<\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Uma ocupa\u00e7\u00e3o mais intensa da ilha a partir do ano 1700 tamb\u00e9m pode ter contribu\u00eddo com a extin\u00e7\u00e3o. \u201cPossivelmente n\u00e3o seja a causa principal, mas pode ter ajudado, j\u00e1 que comunidades costumam comer caramujos terrestres\u201d, argumenta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tamb\u00e9m n\u00e3o se sabe ainda como a esp\u00e9cie interagia com o ecossistema da Ilha do Teixeira e se o animal existiu em outros sambaquis ou \u00e1reas que ainda n\u00e3o foram escavadas ou estudadas.\u00a0<\/span><\/p>\n<h2><b>Hist\u00f3rias que o sambaqui conta<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A descoberta do<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Thaumastus teixeirensis <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">refor\u00e7a a import\u00e2ncia dos sambaquis. A palavra, que deriva do tupi e significa monte de conchas, corresponde a s\u00edtios arqueol\u00f3gicos comuns em regi\u00f5es costeiras, que foram constru\u00eddos por grupos humanos vivendo no litoral brasileiro milhares de anos antes da coloniza\u00e7\u00e3o europeia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;A presen\u00e7a de um sambaqui indica que ali havia popula\u00e7\u00f5es que ca\u00e7avam, pescavam e coletavam recursos da fauna e da flora locais&#8221;, explica Gernet. Assim, pesquisadores encontram desde restos de alimentos e esqueletos humanos at\u00e9 artefatos como anz\u00f3is, pontas de lan\u00e7a e outras ferramentas,\u00a0 que ajudam a reconstruir a hist\u00f3ria humana e da biodiversidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As conchas s\u00e3o importantes marcadores de um sambaqui porque resistem bem \u00e0 a\u00e7\u00e3o do tempo e ajudam a preservar informa\u00e7\u00f5es sobre o ambiente e os organismos que existiam na regi\u00e3o. \u201cPortanto, estudar os moluscos \u00e9 fundamental para compreendermos nosso passado. A constru\u00e7\u00e3o dos sambaquis dependia deles\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, o professor refor\u00e7a a necessidade de proteger os sambaquis. As conchas que levaram \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o da nova esp\u00e9cie, por exemplo, foram encontradas em uma \u00e1rea que estava sendo cimentada e se a interven\u00e7\u00e3o tivesse avan\u00e7ado um pouco mais, os pesquisadores talvez nunca encontrassem os materiais que permitiram sua descri\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 preciso preservar esses registros para que possamos entender como a biodiversidade mudou e ainda pode mudar\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">\u2795 Leia <\/span><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/paz\/a\/76664PNVPBDCDXfDLzcGK3y\/?format=html&amp;lang=en\"><span style=\"font-weight: 400\">o artigo<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> A new and already extinct Thaumastus from shell mounds (sambaquis) in Paran\u00e1, Brazil (Mollusca, Eupulmonata, Orthalicoidea)<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, publicado no peri\u00f3dico <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Pap\u00e9is Avulsos de Zoologia, do Museu de Zoologia da USP<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encontrar um caramujo desconhecido pela zoologia j\u00e1 seria uma grande surpresa para um cientista. 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