{"id":29301,"date":"2026-06-02T15:06:37","date_gmt":"2026-06-02T18:06:37","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=29301"},"modified":"2026-06-02T15:06:37","modified_gmt":"2026-06-02T18:06:37","slug":"como-um-grupo-de-peixes-dominou-o-oceano-mais-frio-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/como-um-grupo-de-peixes-dominou-o-oceano-mais-frio-da-terra\/","title":{"rendered":"Como um grupo de peixes dominou o oceano mais frio da Terra"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Milh\u00f5es de anos antes do surgimento dos seres humanos, os peixes da subordem <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Notothenioidei<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0j\u00e1 haviam conquistado a Ant\u00e1rtica. Hoje, eles formam o grupo de vertebrados mais abundante e diverso da regi\u00e3o: s\u00e3o cerca de 155 esp\u00e9cies distribu\u00eddas em sete fam\u00edlias. Voc\u00ea pode estar se perguntando como essa linhagem conseguiu atravessar tantas eras. Os cientistas tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">At\u00e9 agora, sabe-se que, ao longo de sua hist\u00f3ria evolutiva, os chamados nototen\u00edoides desenvolveram glicoprote\u00ednas anticongelantes capazes de impedir a forma\u00e7\u00e3o de cristais de gelo no sangue e nos tecidos. Al\u00e9m disso, sem bexiga natat\u00f3ria, estrutura que ajuda peixes a controlar a flutua\u00e7\u00e3o, esses animais tamb\u00e9m adotaram estrat\u00e9gias para se manter em diferentes profundidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas a pesquisadora <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Mayara P. Neves, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR); e colegas das universidades de Rice, Oklahoma, e do estado de Ohio, nos Estados Unidos, quiseram entender tamb\u00e9m o que a variedade do cr\u00e2nio desses animais poderia mostrar sobre essa capacidade evolutiva.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO que nos motivou a olhar especificamente para o cr\u00e2nio foi a percep\u00e7\u00e3o de que a diversidade de formas cranianas nesses peixes \u00e9 enorme, e que essa diversidade est\u00e1 diretamente ligada ao que eles comem e onde vivem. O cr\u00e2nio \u00e9 a ferramenta de captura de alimento desses animais\u201d, diz a cientista.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O resultado dessa investiga\u00e7\u00e3o foi <\/span><span style=\"font-weight: 400\">publicado no peri\u00f3dico cient\u00edfico <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, em outubro do ano passado.\u00a0<\/span><\/p>\n<h2><b>Um quebra-cabe\u00e7a chamado modularidade\u00a0<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para compreender essa rela\u00e7\u00e3o, os cientistas partiram do conceito de modularidade, um padr\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o em que algumas estruturas do corpo apresentam relativa autonomia entre si e podem se transformar sem afetar significativamente as demais.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cImagine o cr\u00e2nio como um conjunto de LEGO: algumas pe\u00e7as est\u00e3o muito coladas umas \u00e0s outras e, por isso, quando uma muda, as demais tendem a mudar juntas. Isso \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o. Outras s\u00e3o mais independentes e conseguem se modificar sem arrastar as demais. Isso \u00e9 a modularidade\u201d, explica Neves.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os seres humanos apresentam um exemplo cl\u00e1ssico desse fen\u00f4meno. O cr\u00e2nio \u00e9 dividido em m\u00f3dulos como o neurocr\u00e2nio, que abriga e protege o c\u00e9rebro, e o complexo facial, formado por estruturas como a mand\u00edbula, o nariz e as ma\u00e7\u00e3s do rosto. Ao longo da evolu\u00e7\u00e3o dos homin\u00eddeos, o neurocr\u00e2nio se expandiu em resposta ao aumento do c\u00e9rebro, enquanto a face se tornou progressivamente menor. \u201cEssa transforma\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi poss\u00edvel porque esses m\u00f3dulos possuem certo grau de independ\u00eancia\u201d, afirma a pesquisadora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O conceito moderno de modularidade ganhou for\u00e7a a partir da d\u00e9cada de 1990, especialmente com os trabalhos do bi\u00f3logo G\u00fcnter Wagner. Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, tornou-se um dos temas centrais da biologia evolutiva do desenvolvimento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hoje, entende-se que estruturas mais modulares tendem a apresentar maior flexibilidade evolutiva, permitindo que diferentes partes do organismo respondam de forma independente \u00e0s press\u00f5es ambientais e favorecendo o surgimento de adapta\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<h2><b>22 milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o<\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para reconstruir a hist\u00f3ria evolutiva desses peixes, com foco na modularidade craniana, pesquisadores analisaram o cr\u00e2nio de 172 esp\u00e9cies de peixes atuais. Utilizando microtomografia computadorizada, t\u00e9cnica que produz imagens tridimensionais de alta resolu\u00e7\u00e3o, criaram modelos digitais detalhados dos ossos sem precisar danific\u00e1-los.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em seguida, compararam matematicamente o formato desses cr\u00e2nios para identificar semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as entre as esp\u00e9cies. Essas informa\u00e7\u00f5es foram posicionadas em uma \u00e1rvore evolutiva que indica quando cada linhagem surgiu, permitindo estimar como e em que velocidade a anatomia dos peixes mudou ao longo dos \u00faltimos 22 milh\u00f5es de anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os resultados mostraram que diferentes partes do cr\u00e2nio dos nototen\u00edoides evolu\u00edram com relativa independ\u00eancia umas das outras, atestando o papel da modularidade, que teria ajudado esses animais a se adaptarem rapidamente \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es ambientais provocadas pelo resfriamento da Ant\u00e1rtica.<\/span><\/p>\n<h2><b>Quando o clima remodelou os peixes da Ant\u00e1rtica\u00a0<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por meio desse estudo, foi poss\u00edvel tra\u00e7ar uma narrativa desse passado: h\u00e1 22 milh\u00f5es de anos, os nototen\u00edoides teriam emergido de um ancestral comum, e mudan\u00e7as no formato do cr\u00e2nio come\u00e7aram a ocorrer em ondas ligadas a eventos clim\u00e1ticos. O maior deles foi o chamado \u00d3timo Clim\u00e1tico do Mioceno, per\u00edodo de grande instabilidade clim\u00e1tica global h\u00e1 15 milh\u00f5es de anos. \u201cFoi quando detectamos as taxas de evolu\u00e7\u00e3o do cr\u00e2nio mais aceleradas dentro do grupo\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas, antes disso, por volta de 23 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, j\u00e1 havia sinais de uma primeira acelera\u00e7\u00e3o evolutiva, coincidindo com uma barreira oce\u00e2nica que isolou a Ant\u00e1rtida e transformou completamente o ecossistema, a forma\u00e7\u00e3o da Corrente Circumpolar Ant\u00e1rtica.\u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Neves, com o resfriamento do oceano, muitas esp\u00e9cies de peixes que n\u00e3o conseguiram se adaptar foram extintas, e os nototen\u00edoides ocuparam esses vazios ecol\u00f3gicos posteriormente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO cr\u00e2nio alongado dos nototen\u00edoides parece estar associado a estrat\u00e9gias de alimenta\u00e7\u00e3o em ambientes profundos, onde um formato mais hidrodin\u00e2mico favorece a efici\u00eancia de captura de presas\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Resta investigar agora os mecanismos gen\u00e9ticos e do desenvolvimento que produzem essa modularidade, como exatamente o ambiente seleciona por mais ou menos modularidade, e se esses peixes ter\u00e3o plasticidade evolutiva suficiente para resistir \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<h2><b>Nototen\u00edoides podem ensinar sobre o futuro\u00a0<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aprofundar o conhecimento sobre os nototen\u00edoides \u00e9 importante n\u00e3o apenas porque eles correspondem \u00e0 maior parte da biomassa de peixes do Oceano Ant\u00e1rtico, mas tamb\u00e9m por seu potencial adaptativo. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEstudar esse grupo \u00e9 como ter um laborat\u00f3rio natural de evolu\u00e7\u00e3o\u201d, argumenta a cientista.\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, pesquisadores lembram que os nototen\u00edoides evolu\u00edram em resposta a glacia\u00e7\u00f5es passadas, e agora enfrentam o processo inverso, o aquecimento do Oceano Ant\u00e1rtico, o que precisa ser estudado a fundo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cNossa pesquisa mostra que a modularidade craniana confere flexibilidade evolutiva. Mas a velocidade das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas atuais \u00e9 de magnitude maior do que as mudan\u00e7as geol\u00f3gicas do passado. Entender os mecanismos que permitiram a esses peixes prosperar \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de avaliar suas chances, e as de tantos outros organismos, diante do futuro que estamos construindo\u201d, conclui Neves.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">\u2795 Leia o artigo <\/span><a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/doi\/10.1073\/pnas.2503283122\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Cranial Modularity and Adaptive Radiation in Antarctic Icefishes<\/span><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Milh\u00f5es de anos antes do surgimento dos seres humanos, os peixes da subordem Notothenioidei\u00a0j\u00e1 haviam conquistado a Ant\u00e1rtica. 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