{"id":29291,"date":"2026-06-09T14:47:58","date_gmt":"2026-06-09T17:47:58","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=29291"},"modified":"2026-06-19T20:24:08","modified_gmt":"2026-06-19T23:24:08","slug":"a-imigracao-nao-e-um-problema-ela-tem-que-ser-pensada-como-solucao-marcio-de-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/a-imigracao-nao-e-um-problema-ela-tem-que-ser-pensada-como-solucao-marcio-de-oliveira\/","title":{"rendered":"&#8220;A imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema, ela tem que ser pensada como solu\u00e7\u00e3o&#8221; | M\u00e1rcio de Oliveira"},"content":{"rendered":"<p>Frequentar o Edif\u00edcio Dom Pedro I, que abriga a maioria das salas de aula do Campus Reitoria da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) em Curitiba, significa se deparar com o cotidiano de um pequeno fen\u00f4meno social recente. A capital paranaense \u00e9 uma das que mais recebeu imigrantes estrangeiros no Brasil nos \u00faltimos 15 anos, segundo n\u00fameros disponibilizados pelo Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es Internacionais (OBMigra).<\/p>\n<p>Parte desses novos residentes passam pela UFPR, uma das federais empenhadas, h\u00e1 mais de dez anos, na promo\u00e7\u00e3o de cidadania dessa comunidade por meio do Programa Pol\u00edtica Migrat\u00f3ria e Universidade Brasileira (PMUB) e da C\u00e1tedra S\u00e9rgio Vieira de Mello, do Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (Acnur). No quarto andar do Dom Pedro I, por exemplo, fica a secretaria das aulas de portugu\u00eas como segunda l\u00edngua, o que explica os avisos nas paredes em ingl\u00eas, espanhol, \u00e1rabe e franc\u00eas.<\/p>\n<p>No nono andar fica o Departamento de Sociologia da UFPR, onde o professor titular M\u00e1rcio de Oliveira tem pesquisado as novas levas de imigra\u00e7\u00e3o internacional do Brasil. Historicamente um pa\u00eds de emigrantes, com mais de 4 milh\u00f5es de nacionais vivendo no exterior, o pa\u00eds passa pelo que Oliveira descreve como uma esp\u00e9cie de espanto a cada aumento do tr\u00e2nsito em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s suas pr\u00f3prias fronteiras.<\/p>\n<p>\u201cA atual leva de migrantes latinos v\u00eam se instalando em algumas regi\u00f5es brasileiras. Em rela\u00e7\u00e3o aos pouco mais de 200 milh\u00f5es de brasileiros, ainda n\u00e3o s\u00e3o muitos, mas come\u00e7am a ser relativamente notados e igualmente importantes em algumas regi\u00f5es. \u00c9 assim que chamam aten\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n<p>Esse aumento ocorreu principalmente com haitianos e venezuelanos, hoje as duas maiores comunidades de estrangeiros no Brasil, juntamente com portugueses, bolivianos e argentinos (as cinco principais). Atualmente s\u00e3o cerca de 1,48 milh\u00e3o de estrangeiros vivendo no pa\u00eds, a maior parte em capitais do Sul-Sudeste.<\/p>\n<p>Coordenador do projeto de pesquisa Atlas Sociodemogr\u00e1fico da Migra\u00e7\u00e3o Internacional no Paran\u00e1, financiado pela Funda\u00e7\u00e3o Arauc\u00e1ria, M\u00e1rcio de Oliveira conhece como poucos a situa\u00e7\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o internacional no estado.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, ele comenta sobre as hist\u00f3rias desses grupos de imigrantes e seus impactos na sociedade brasileira, desde a absor\u00e7\u00e3o pelo mercado de trabalho at\u00e9 perspectivas culturais, passando pelos conflitos (cuja face mais problem\u00e1tica s\u00e3o a xenofobia e o racismo) e por uma nova ideia de integra\u00e7\u00e3o como conceito sociol\u00f3gico que n\u00e3o apaga culturas.<\/p>\n<p><strong>Algum motivo espec\u00edfico o levou a estudar migra\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>M\u00e1rcio de Oliveira <span style=\"color: #8eaebd\">|<\/span><\/strong> O tema da migra\u00e7\u00e3o me chamou a aten\u00e7\u00e3o desde que eu cheguei no Paran\u00e1, especialmente em Curitiba, por ter achado na cidade um caldo \u00e9tnico, uma fus\u00e3o \u00e9tnica particular. \u00c9 uma cidade que parecia muito branca em termos de perfil racial e cor. Mas me chamava a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a quest\u00e3o ambiental da cidade, muitos parques e esses parques dedicados \u00e0s etnias. Isso foi o primeiro ponto. Comecei estudando, inclusive, a origem dos parques e dos bosques de Curitiba. Publiquei sobre isso um pouco. Lentamente a partir disso me interessei por outros temas. Fui me interessando pela hist\u00f3ria do Paran\u00e1 e da imigra\u00e7\u00e3o no Brasil, na virada do XIX para o s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Mais recentemente, de 2010 para c\u00e1, comecei a me interessar mais pela imigra\u00e7\u00e3o porque justamente coincidiu com o aumento do fluxo, em especial com a chegada dos haitianos [ao Brasil]. Porque a gente j\u00e1 tinha fluxo de imigrantes sul-americanos importantes, peruanos, bolivianos, paraguaios, as tr\u00eas nacionalidades vizinhas. Pelo Mercosul, Argentina, Uruguai, a gente tinha um pouco tamb\u00e9m. Um pouco de africanos devido aos programas de interc\u00e2mbio [das universidades]. Mas a partir do terremoto [em 12 de janeiro de 2010. As estimativas indicam de 100 mil a 200 mil mortes e cerca de 3 milh\u00f5es de afetados. Entre os mortos est\u00e3o brasileiros, como a m\u00e9dica Zilda Arns, da Pastoral da Crian\u00e7a, e o diplomata Luiz Carlos da Costa] o Haiti entrou na m\u00eddia definitivamente e o Brasil se tornou rota para migra\u00e7\u00e3o haitiana. Tudo isso foi contribuindo para que, de fato, a partir de 2013 eu come\u00e7asse a estudar a migra\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<div class=\"flourish-embed flourish-chart\" data-src=\"visualisation\/29240756\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/29240756\/thumbnail\" width=\"100%\" alt=\"chart visualization\" \/><\/div>\n<p>Isso coincide com a cria\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/portaldeimigracao.mj.gov.br\/pt\/observatorio\/1715-obmigra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es Internacionais, o OBMigra<\/a>, que h\u00e1 pouco mais de dez anos. Conheci o coordenador, professor Leonardo [Cavalcanti, do Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Bras\u00edlia (UnB)], e se tornou um amigo. E desde ent\u00e3o trabalhamos muito em parceria, publicamos junto, fazemos evento junto. \u00c9 um grande parceiro.<\/p>\n<blockquote><p>Com a produ\u00e7\u00e3o de dados do OBMigra, percebemos que o fluxo de imigra\u00e7\u00e3o se dirige mais aos estados do Sul. Ou seja, a imigra\u00e7\u00e3o recente para o Brasil \u00e9 focada nos estados do Sul. Est\u00e1 em sete em cada dez [imigrantes]. S\u00e3o imigrantes latino-americanos, africanos, asi\u00e1ticos, paquistaneses, afeg\u00e3os, que se dirigem para algum dos estados da regi\u00e3o Sul.<\/p><\/blockquote>\n<p>Se pegar o conjunto dos imigrantes internacionais que est\u00e3o no Brasil, as mais de 180 nacionalidades, o Estado de S\u00e3o Paulo continua o principal destino. Mas, se pegar a migra\u00e7\u00e3o sul-americana, retirando dela os bolivianos, ainda muito ligados a S\u00e3o Paulo, vemos como muitos v\u00e3o para os estados do Sul. E, como no passado, os estados do Sul passaram a atrair imigrantes.<\/p>\n<p>Na virada do s\u00e9culo XX, tamb\u00e9m sete em cada dez imigrantes estrangeiros tinham se instalado em S\u00e3o Paulo ou em algum estado do Sul. A propor\u00e7\u00e3o era quatro para S\u00e3o Paulo, um para o Paran\u00e1, um para Santa Catarina, um para o Rio Grande do Sul [e o restante, tr\u00eas, para outras regi\u00f5es]. Mas, enfim, sete em cada dez estavam aqui.<\/p>\n<p>Agora continua mais ou menos igual, s\u00f3 que S\u00e3o Paulo perdeu em import\u00e2ncia entre os estados mais acolhedores [de migrantes sul-americanos].<\/p>\n<p>Os destinos mais importantes s\u00e3o, pela ordem, Santa Catarina e Paran\u00e1, pr\u00f3ximos um do outro, e o Rio Grande do Sul, um pouco inferior, mas ainda acima de S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o os estados do Sul ainda s\u00e3o mais atrativos para a migra\u00e7\u00e3o sul-americana e latino-americana do que S\u00e3o Paulo. Isso veio chamando a aten\u00e7\u00e3o e o foco para c\u00e1.<\/p>\n<figure id=\"attachment_29329\" aria-describedby=\"caption-attachment-29329\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Haitians-Mount-Tent-Cities-in-Aftermath-of-Quake-Foto-Logan-Abassi-UN-Photo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-29329 size-full\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Haitians-Mount-Tent-Cities-in-Aftermath-of-Quake-Foto-Logan-Abassi-UN-Photo.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Haitians-Mount-Tent-Cities-in-Aftermath-of-Quake-Foto-Logan-Abassi-UN-Photo.jpg 1920w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Haitians-Mount-Tent-Cities-in-Aftermath-of-Quake-Foto-Logan-Abassi-UN-Photo-300x169.jpg 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Haitians-Mount-Tent-Cities-in-Aftermath-of-Quake-Foto-Logan-Abassi-UN-Photo-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Haitians-Mount-Tent-Cities-in-Aftermath-of-Quake-Foto-Logan-Abassi-UN-Photo-768x432.jpg 768w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Haitians-Mount-Tent-Cities-in-Aftermath-of-Quake-Foto-Logan-Abassi-UN-Photo-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Haitians-Mount-Tent-Cities-in-Aftermath-of-Quake-Foto-Logan-Abassi-UN-Photo-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29329\" class=\"wp-caption-text\">Tendas usadas como abrigo ap\u00f3s o terremoto de janeiro de 2010 em Porto Pr\u00edncipe, capital do Haiti. Foto: Logan Abassi\/UN Photo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Paralelamente a isso o Paran\u00e1 criou a <a href=\"https:\/\/www.justica.pr.gov.br\/Pagina\/Centro-de-Informacao-para-Migrantes-Refugiados-e-Apatridas-do-Parana-CEIM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia do Migrante<\/a> [inaugurada em 2025 em Curitiba, na Rua Marechal Deodoro da Fonseca, n. 806], criou o Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Ap\u00e1tridas, e muitas entidades religiosas passaram a trabalhar, tanto as cat\u00f3licas, a Pastoral do Imigrante, o C\u00e1ritas, com as igrejas evang\u00e9licas, a Primeira Igreja Batista e outras.<\/p>\n<p>A universidade [UFPR] criou o <a href=\"https:\/\/pbmih.ufpr.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PBMIH [projeto de extens\u00e3o Portugu\u00eas Brasileiro para Migra\u00e7\u00e3o Humanit\u00e1ria]<\/a>, que ensina portugu\u00eas brasileiro para imigra\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria, que foi uma demanda da Prefeitura de Curitiba.<\/p>\n<p>A cidade de Curitiba em especial foi constituindo uma rede de atores, hoje muito grande, que trabalha sobre isso e que facilita o nosso trabalho. Tem gente do Tribunal de Justi\u00e7a, tem gente das prefeituras, tem gente das universidades, tem associa\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios imigrantes, tem f\u00f3rum de empresas com refugiados da Fiep [Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado do Paran\u00e1].<\/p>\n<p>S\u00e3o atores em diversos n\u00edveis, em diversos espa\u00e7os, que se interessam pela quest\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o. Mesmo na universidade isso reuniu colegas da Psicologia, do Direito, aqui da Sociologia, da Hist\u00f3ria, de Letras, de Sa\u00fade, de Geografia.<\/p>\n<p>Como sou soci\u00f3logo, estudo pessoas, os migrantes. N\u00e3o apenas os dados, mas a realidade. Como est\u00e3o se integrando, que \u00e9 o nosso verbo tradicional na sociologia, o que est\u00e3o trazendo para a sociedade, os conflitos que est\u00e3o sendo eventualmente gerados, as eventuais pr\u00e1ticas de racismo e xenofobia, que infelizmente ocorrem.<\/p>\n<p>J\u00e1 ocorria racismo no Brasil, claro, mas a xenofobia era mais rara. Come\u00e7ou a aparecer xenofobia tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>As rea\u00e7\u00f5es de preconceito s\u00e3o bastante intrigantes, porque o brasileiro ainda \u00e9 mais emigrante do que convive com imigrantes, certo?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>MO <span style=\"color: #8eaebd\">| <\/span><\/strong>Essa \u00e9 uma boa pergunta, \u00e9 curioso que haja mais brasileiros no exterior do que estrangeiros no Brasil. A popula\u00e7\u00e3o estrangeira est\u00e1 em torno de 1%, 1,5% na melhor das hip\u00f3teses. Daria de um milh\u00e3o a 1,5 milh\u00e3o de estrangeiros no Brasil. <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mre\/pt-br\/assuntos\/portal-consular\/arquivos\/brasileiros-no-exterior-estimativas-ano-a-ano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Para quatro milh\u00f5es de brasileiros vivendo fora do Brasil<\/a>.<\/p>\n<blockquote><p>O Brasil continua exportando pessoas, n\u00e3o importando. Em termos jur\u00eddicos, o Brasil \u00e9 acolhedor. Mas, em termos demogr\u00e1ficos, como falei, a presen\u00e7a de migrantes no Brasil ainda \u00e9 modesta.<\/p><\/blockquote>\n<p>O interesse do brasileiro sempre foi estudar em outros pa\u00edses, em especial nos Estados Unidos. Houve a leva de Governador Valadares [cidade mineira apelidada de \u201cValad\u00f3lares\u201d, por ser p\u00f3lo de emigra\u00e7\u00e3o para os EUA] por causa dos engenheiros de minas americanos que se estabeleceram no Vale do Rio Doce, criando uma corrente de valadarenses para a regi\u00e3o de Boston e Massachusetts. Houve tamb\u00e9m os decasseguis [termo em japon\u00eas que significa \u201csair para conseguir dinheiro\u201d, geralmente descendentes de japoneses] no Jap\u00e3o, os brasileiros em Portugal, que \u00e9 o segundo pa\u00eds a receber brasileiros depois dos EUA. Tamb\u00e9m na Fran\u00e7a, na Espanha, na Inglaterra, em outros pa\u00edses, em menor quantidade. E brasileiros em pa\u00edses sul-americanos, em pequena quantidade, n\u00e9? Brasileiros por a\u00ed tudo.<\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o como o brasileiro racionaliza a xenofobia com o imigrante? Falta conhecimento da posi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds no mundo?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>MO <span style=\"color: #8eaebd\">| <\/span><\/strong>De fato, \u00e9 o contato, n\u00e9? Quer dizer, o brasileiro era acostumado com o imigrante [branco] europeu, no m\u00e1ximo o japon\u00eas, no m\u00e1ximo o s\u00edrio-liban\u00eas. Essa imigra\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 na terceira ou quarta gera\u00e7\u00e3o, s\u00e3o brasileiros.<\/p>\n<blockquote><p>A novidade come\u00e7a com os haitianos, porque chegam aos estados do Sul, onde a maior parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 autodeclarada branca. E a\u00ed come\u00e7ou a ter realmente um conflito. O brasileiro se redescobriu racista, como se n\u00e3o soubesse que era. Efetivamente temos pr\u00e1ticas de racismo em diversas \u00e1reas, mas o brasileiro nega isso.<\/p><\/blockquote>\n<p>O racismo foi a primeira coisa que apareceu nos contatos di\u00e1rios, em especial nas empresas. Ao lado disso veio a xenofobia, porque os imigrantes t\u00eam plenos direitos no Brasil. N\u00e3o t\u00eam direitos pol\u00edticos, de votar e ser votado. Mas t\u00eam os direitos sociais, acesso a tudo que um brasileiro tem. SUS, educa\u00e7\u00e3o, vacinas, PIS Pasep, abono abono salarial, programas sociais, vagas nas escolas e nas creches.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, muitas vezes, l\u00e1 numa creche municipal, o imigrante venezuelano conseguiu uma vaga para o filho. A\u00ed o brasileiro fala: &#8220;Por que ele conseguiu, se eu n\u00e3o consegui?&#8221; Ou numa escola h\u00e1 crian\u00e7as estrangeiras e as outras crian\u00e7as reparam nisso, obviamente, porque n\u00e3o estavam acostumadas a conviver com crian\u00e7as estrangeiras. E a escola muitas vezes n\u00e3o lida bem com isso, come\u00e7a a dar uma visibilidade indevida \u00e0quela crian\u00e7a. Em vez de naturalizar, afinal s\u00e3o todas crian\u00e7as, todos alunos, muitas vezes chama aten\u00e7\u00e3o por conta do sotaque, do choque com o sistema de ensino.<\/p>\n<blockquote><p>Come\u00e7a a haver um conflito que seria facilmente solucion\u00e1vel, mas, como as escolas e o Estado n\u00e3o criaram pol\u00edticas efetivas de integra\u00e7\u00e3o&#8230; O Brasil abre as portas, mas n\u00e3o tem pol\u00edtica de acolhimento efetiva.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o tem professor de espanhol que acolhe bem, n\u00e3o tem estruturas do Estado. Quer dizer, a Uni\u00e3o at\u00e9 acolhe bem, mas cada estado faz a sua pol\u00edtica. O Estado do Paran\u00e1 fez, mas nem todos t\u00eam ag\u00eancia do imigrante, por exemplo. \u00c9 um local de acolhimento, de triagem para regulariza\u00e7\u00e3o de documenta\u00e7\u00e3o, de cart\u00e3o SUS e com uma base Sine [Sistema Nacional de Emprego, de coloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho]. \u00c9 um espa\u00e7o bastante original em termos de Brasil.<\/p>\n<figure id=\"attachment_29326\" aria-describedby=\"caption-attachment-29326\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/agenciamigrante_curitiba.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-29326\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/agenciamigrante_curitiba.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/agenciamigrante_curitiba.jpg 1920w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/agenciamigrante_curitiba-300x169.jpg 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/agenciamigrante_curitiba-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/agenciamigrante_curitiba-768x432.jpg 768w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/agenciamigrante_curitiba-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/agenciamigrante_curitiba-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29326\" class=\"wp-caption-text\">Atendimentos na Ag\u00eancia do Migrante do Paran\u00e1, inaugurada em dezembro de 2025 em Curitiba. Foto: Seju\/AEN\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Tem ainda a xenofobia de um patr\u00e3o que n\u00e3o quer pagar os direitos integrais. Que diz: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o entende direito portugu\u00eas, ent\u00e3o faz o pior servi\u00e7o\u201d. E esses patr\u00f5es se valem disso e defendem, protegem seus empregados brasileiros em detrimento dos imigrantes venezuelanos ou haitianos. Isso \u00e9 mais s\u00e9rio ainda com as mulheres, porque a gente sabe que o ass\u00e9dio a sexual e moral em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres sempre \u00e9 mais forte.<\/p>\n<blockquote><p>Isso \u00e9 xenofobia, discriminar pela nacionalidade. Significa qualquer pr\u00e1tica discriminat\u00f3ria que tenha por fundamento a nacionalidade que n\u00e3o seja brasileira.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Como a presen\u00e7a dos imigrantes negros em estados onde a maioria da popula\u00e7\u00e3o se autodeclara branca impacta o racismo j\u00e1 existente no Brasil? H\u00e1 efeitos sobre a popula\u00e7\u00e3o negra brasileira, como ser confundido com estrangeiro, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>MO <span style=\"color: #8eaebd\">| <\/span><\/strong>Isso \u00e9 a coisa mais curiosa do mundo. A primeira coisa \u00e9 que os haitianos se descobrem pretos [no sentido de ser posicionado continuamente em um espa\u00e7o de minoria] quando chegam ao Brasil, porque 99% da popula\u00e7\u00e3o haitiana \u00e9 preta, n\u00e3o h\u00e1 uma diferencia\u00e7\u00e3o com base em cor e ra\u00e7a.<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 que, se existe essa confus\u00e3o no Brasil, \u00e9 porque \u00e9 como se a popula\u00e7\u00e3o preta brasileira fosse invis\u00edvel. E isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Se pegar o dado do IBGE, em Curitiba deve estar em torno a\u00ed de 25%, 30% de pardos e pretos. Mas \u00e9 como se n\u00e3o tivesse ningu\u00e9m.<\/p>\n<blockquote><p>Se algu\u00e9m v\u00ea um brasileiro preto e logo intui que \u00e9 haitiano, \u00e9 porque nunca tinha reparado na diversidade da sua pr\u00f3pria comunidade.<\/p><\/blockquote>\n<p>No fim o haitiano ainda trouxe isso, visibilizou a cor que o brasileiro negava. Negava que o outro era preto ou discriminava, mas dizia que n\u00e3o era isso. Porque racismo \u00e9 crime, n\u00e9? H\u00e1 muito preconceito racial no Brasil dissimulado, negado, porque a pessoa, obviamente, pode ser acusada de um crime grave.<\/p>\n<p>A gente vive num momento tamb\u00e9m onde essas pr\u00e1ticas racistas, em especial nos \u00faltimos anos do anterior governo, foram real\u00e7adas. Formou-se uma extrema direita que se vale dessa [tese de] supremacia branca, imita elementos de fora do Brasil, incorpora certos valores. Apareceram grup\u00fasculos, felizmente s\u00e3o grup\u00fasculos, mas existem.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante pensar que a presen\u00e7a da migra\u00e7\u00e3o haitiana no Brasil pode ter mostrado que os pretos brasileiros estavam desaparecidos, tiveram suas express\u00f5es culturais invisibilizadas, cercadas de preconceito. Tudo isso \u00e9 o que chamam de racismo estrutural da sociedade brasileira.<\/p>\n<p><strong>Em um artigo recente, o senhor comenta que a migra\u00e7\u00e3o foi um tema que deixou de mobilizar a intelectualidade em um momento da academia brasileira, que passou a se voltar para outras quest\u00f5es, como desigualdade racial e forma\u00e7\u00e3o de classe. Isso explica por que aumentos recentes da imigra\u00e7\u00e3o surpreenderam pol\u00edticas p\u00fablicas?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>Houve de fato deslocamento tem\u00e1tico dentro de um campo cient\u00edfico particular, que s\u00e3o as ci\u00eancias sociais. Houve uma mudan\u00e7a de foco em quest\u00f5es n\u00e3o apenas dos migrantes, mas a de comunidades rurais, de grupos comunit\u00e1rios em geral, de comunidades ind\u00edgenas, porque se argumentava que eventualmente uma certa \u00e9poca todos seriam \u201cassimilados\u201d, portanto n\u00e3o haveria mais por que pens\u00e1-los a partir de vari\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas eu acho que a surpresa [das pol\u00edticas] veio mesmo do grande fluxo. Porque se a gente pensar, que nos \u00faltimos 15 anos, chegaram ao Brasil quase 900 mil venezuelanos e haitianos, um n\u00famero gigantesco para pouco tempo.<\/p>\n<p>E esses grupos se instalando em poucos locais do Brasil. S\u00e3o poucos no Brasil como um todo, mas come\u00e7am a ser relativamente notados e pessoalmente importantes em algumas regi\u00f5es. Ent\u00e3o, a\u00ed chama a aten\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, acho que o brasileiro foi surpreendido por esse fluxo porque o Brasil, como eu disse, ainda \u00e9 exportador de m\u00e3o de obra. Inclusive qualificada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_29309\" aria-describedby=\"caption-attachment-29309\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Operacao-Acolhida-da-aos-venezuelanos-um-novo-comeco-no-Norte-do-Brasil.-Foto-Gema-Cortes-OIM.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-29309 size-full\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Operacao-Acolhida-da-aos-venezuelanos-um-novo-comeco-no-Norte-do-Brasil.-Foto-Gema-Cortes-OIM.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Operacao-Acolhida-da-aos-venezuelanos-um-novo-comeco-no-Norte-do-Brasil.-Foto-Gema-Cortes-OIM.jpg 1920w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Operacao-Acolhida-da-aos-venezuelanos-um-novo-comeco-no-Norte-do-Brasil.-Foto-Gema-Cortes-OIM-300x169.jpg 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Operacao-Acolhida-da-aos-venezuelanos-um-novo-comeco-no-Norte-do-Brasil.-Foto-Gema-Cortes-OIM-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Operacao-Acolhida-da-aos-venezuelanos-um-novo-comeco-no-Norte-do-Brasil.-Foto-Gema-Cortes-OIM-768x432.jpg 768w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Operacao-Acolhida-da-aos-venezuelanos-um-novo-comeco-no-Norte-do-Brasil.-Foto-Gema-Cortes-OIM-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Operacao-Acolhida-da-aos-venezuelanos-um-novo-comeco-no-Norte-do-Brasil.-Foto-Gema-Cortes-OIM-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29309\" class=\"wp-caption-text\">Criada em 2018, Opera\u00e7\u00e3o Acolhida visa responder \u00e0 crise humanit\u00e1ria na fronteira com a Venezuela, no extremo Norte do Brasil. A for\u00e7a-tarefa do Ex\u00e9rcito declarou ter contribu\u00eddo para a fixa\u00e7\u00e3o da resid\u00eancia de venezuelanos em mais de mil munic\u00edpios. Foto: Gema Cortes\/OIM<\/figcaption><\/figure>\n<blockquote><p>O Brasil n\u00e3o se achava um pa\u00eds rico suficiente para atrair imigrantes. N\u00e3o era visto como a principal economia da Am\u00e9rica Latina, o pa\u00eds mais rico do Mercosul de longe.<\/p><\/blockquote>\n<p>A economia brasileira \u00e9 muito forte e o Brasil \u00e9 um pa\u00eds est\u00e1vel politicamente. Com exce\u00e7\u00e3o da tentativa de golpe recente, o Brasil j\u00e1 tem mais de 40 anos de democracia, uma estabilidade da moeda que vem desde os anos 1990, uma economia forte, diversificada.<\/p>\n<p>Quando os imigrantes chegaram, em 2014, 2015, o Brasil tinha falta de m\u00e3o de obra e pagava relativamente bem em d\u00f3lar, melhor do que paga hoje. Isso \u00e9 importante porque os imigrantes remetem aos familiares no pa\u00eds de origem uma parte do que ganham. O c\u00e2mbio \u00e9 muito importante para o imigrante.<\/p>\n<p>Mas mais importante s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds de origem. A Venezuela, por exemplo, se tornou um pa\u00eds complicado por uma s\u00e9rie de fatores que seria longo explicar, mas que envolve o que eu chamo de uma geopol\u00edtica da economia mundial dos recursos naturais.<\/p>\n<p>A Venezuela, como segunda maior reserva de petr\u00f3leo do mundo, foi envolvida nessa geopol\u00edtica de recursos naturais. \u00c9 um pa\u00eds de imigrantes, ali\u00e1s, ainda hoje tem proporcionalmente mais estrangeiros do que o Brasil. Mesmo com a crise, para ver o quanto a Venezuela atra\u00eda estrangeiros.<\/p>\n<p>A partir de 2014 a produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de barris de petr\u00f3leo da qual a Venezuela dependia caiu at\u00e9 chegar a um ter\u00e7o do que era [tr\u00eas fatores se somaram: o pa\u00eds entrou em crise institucional, come\u00e7ou a sofrer embargos dos EUA e os pre\u00e7os do petr\u00f3leo ca\u00edram, por aumento de oferta e desacelera\u00e7\u00e3o na demanda].<\/p>\n<p>A crise se aprofundou e, de 2018 para c\u00e1, chegaram 96% de todos os 650 mil venezuelanos que vivem no Brasil. \u00c9 muita gente em pouco tempo. Hoje em Curitiba h\u00e1 supermercado onde se escuta espanhol no caixa, na padaria, no a\u00e7ougue, na limpeza, o tempo inteiro.<\/p>\n<p>O imigrante venezuelano se adapta mais facilmente ao Brasil, por serem sul-americanos, aprenderem portugu\u00eas mais rapidamente. \u00c9 uma l\u00edngua distante para o haitiano. H\u00e1 casos de xenofobia contra venezuelanos, mas de maneira geral, o acolhimento \u00e9 maior. A presidente do Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Ap\u00e1tridas do Paran\u00e1 \u00e9 uma venezuelana [a professora Rockmillys Palomo, tamb\u00e9m presidente da ONG A\u00e7\u00e3o Social Irmandade Sem Fronteiras, assumiu em 2025 o mandato do conselho at\u00e9 2028]. N\u00e3o \u00e9 um cargo pol\u00edtico, mas \u00e9 um cargo dentro de uma estrutura de governo. D\u00e1 uma visibilidade, um reconhecimento, \u00e9 importante.<\/p>\n<div class=\"flourish-embed flourish-chart\" data-src=\"visualisation\/29181360\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/29181360\/thumbnail\" width=\"100%\" alt=\"chart visualization\" \/><\/div>\n<p>A crise venezuelana n\u00e3o modificou em nada com a extradi\u00e7\u00e3o, a captura do presidente [Nicol\u00e1s] Maduro, ent\u00e3o o fluxo migrat\u00f3rio brasileiro continua t\u00e3o intenso como era.<\/p>\n<p><strong>O senhor comentou que estudou os parques de Curitiba e as homenagens que eles fazem a etnias. Ainda assim, Curitiba tem registros de <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=X6RyaRiKJFw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">conflitos \u00e9tnicos que remontam a poucas d\u00e9cadas<\/a>.<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>MO <span style=\"color: #8eaebd\">| <\/span><\/strong>Veja, o principal conflito \u00e9tnico em Curitiba foi entre dois grupos, poloneses e descendentes de alem\u00e3es e austr\u00edacos. Na \u00e9poca da forte migra\u00e7\u00e3o polonesa para o Paran\u00e1, a Pol\u00f4nia n\u00e3o existia como estado. Estava ocupada por tr\u00eas imp\u00e9rios, o Austro-H\u00fangaro, mais ao Sul, a Pr\u00fassia, mais a Oeste, e a R\u00fassia mais a Leste. Os poloneses migravam com passaporte austro-h\u00fangaro ou alem\u00e3o e, chegando ao Brasil, muitos foram enviados para \u00e1reas de coloniza\u00e7\u00e3o alem\u00e3 no Vale do Itaja\u00ed [em Santa Catarina]. Havia um preconceito grande dos alem\u00e3es contra os poloneses que \u00e9 da Europa, n\u00e3o nosso. Um preconceito importado. Foi reproduzido em conflitos \u00e9tnicos que ocorreram em Curitiba at\u00e9 os anos 1920, eu diria, mais um pouco na Segunda Guerra [1939 a 1945], porque o Brasil n\u00e3o ficou do lado da Alemanha em nenhuma das duas guerras mundiais.<\/p>\n<p>Mas esse \u00e9 um conflito importado, da mesma maneira que o entre poloneses e ucranianos. A\u00ed a Pol\u00f4nia ocupou a Ucr\u00e2nia, que era digamos o primo pobre na hist\u00f3ria. Esse conflito se reproduziu em certa medida aqui.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que essas comunidades se reconheciam como diferentes e se fecharam no in\u00edcio. A partir dos anos 1930, 1940, isso diminuiu. Virou coisa da mem\u00f3ria dos mais antigos.<\/p>\n<div class=\"flourish-embed flourish-chart\" data-src=\"visualisation\/29199139\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/29199139\/thumbnail\" width=\"100%\" alt=\"chart visualization\" \/><\/div>\n<p>Como houve contra os japoneses, que a\u00ed sim [politicamente] foram inimigos do Brasil na Segunda Guerra. Houve preconceito contra japoneses e descendentes, em outros pa\u00edses tamb\u00e9m.<\/p>\n<blockquote><p>Esses comportamentos v\u00e3o ao encontro das discrimina\u00e7\u00f5es que j\u00e1 existiam no Brasil, um pa\u00eds que produzia desigualdade. Os imigrantes entram num pa\u00eds j\u00e1, digamos assim, com uma viv\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o de pessoas, de inferioriza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 outra coisa se n\u00e3o a luta por recursos na sociedade.<\/p><\/blockquote>\n<p>Toda vez que voc\u00ea inferioriza algu\u00e9m, discrimina algu\u00e9m, \u00e9 para mostrar que aquela pessoa n\u00e3o tem direito ou n\u00e3o tem tanto direito \u00e0queles recursos. \u00c9 para dizer \u201ceu mere\u00e7o mais, eu mere\u00e7o a posi\u00e7\u00e3o que eu ocupo e voc\u00ea n\u00e3o merece\u201d.<\/p>\n<p>Da\u00ed eu n\u00e3o reconhe\u00e7o que aquele indiv\u00edduo tem um diploma, digo: \u201cesse diploma \u00e9 no seu pa\u00eds. Aqui voc\u00ea vai ser um caixa de supermercado\u201d. Essa \u00e9 uma desqualifica\u00e7\u00e3o \u00fatil do ponto de vista do emprego, porque voc\u00ea contrata uma pessoa bem qualificada, que vai trabalhar bem, que precisa do emprego, que n\u00e3o vai faltar porque tem medo de ser mandado embora. E voc\u00ea desqualifica os saberes dela.<\/p>\n<blockquote><p>Hoje a economia paranaense se vale da m\u00e3o de obra imigrante. E os dados mostram, n\u00e3o pagam o suficiente.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O quanto essa integra\u00e7\u00e3o do imigrante \u00e9 real na cidade?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>MO <span style=\"color: #8eaebd\">| <\/span><\/strong>O processo de integra\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi chamado de acultura\u00e7\u00e3o ou assimila\u00e7\u00e3o. Os americanos ainda usam &#8220;assimila\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o usamos mais esses termos porque negam a cultura, como se fosse algo que se deve esquecer. Como se fosse uma simbiose, uma fagocitose, um envolvimento tal por outra cultura que a sua cultura original desaparece.<\/p><\/blockquote>\n<p>Leva gera\u00e7\u00f5es para desaparecer, se \u00e9 que desaparece. Sempre h\u00e1 mem\u00f3rias que s\u00e3o passadas e cultuadas, as hist\u00f3rias das fam\u00edlias e as diferen\u00e7as entre as pessoas. As pessoas s\u00e3o diferentes. Cultuar isso do ponto de vista familiar, cultural, afetivo, \u00e9 um processo natural. Quando isso \u00e9 instrumentalizado pol\u00edtica e economicamente \u00e9 que surgem os problemas.<\/p>\n<p>Em todos os pa\u00edses americanos, porque as tr\u00eas Am\u00e9ricas s\u00e3o de pa\u00edses de grandes fluxos de imigrantes, a tend\u00eancia \u00e9 natural \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o de um caldo comum de nacionais. A Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira n\u00e3o separa nem discrimina devido a ra\u00edzes \u00e9tnicas, prefer\u00eancias religiosas, nenhuma dessas vari\u00e1veis.<\/p>\n<div class=\"flourish-embed flourish-chart\" data-src=\"visualisation\/29223922\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/29223922\/thumbnail\" width=\"100%\" alt=\"chart visualization\" \/><\/div>\n<p>Antigamente as pol\u00edticas migrat\u00f3rias brasileiras foram preconceituosas com alguns grupos. Por exemplo, ao dizerem que o japon\u00eas era \u201cinassimilado\u201d, por isso n\u00e3o deveria ser aceito. Francisco Jos\u00e9 de Oliveira Viana [soci\u00f3logo, jurista e um dos principais ide\u00f3logos do &#8220;branqueamento&#8221; do Brasil, cr\u00edtico da imigra\u00e7\u00e3o japonesa] escreveu nos anos 1930 que o japon\u00eas seria inassimil\u00e1vel \u201ccomo enxofre na \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>Nenhuma nacionalidade \u00e9 homog\u00eanea, \u00e9 bom lembrar. A distin\u00e7\u00e3o entre pessoas e grupos \u00e9 o que marca as sociedades humanas. N\u00e3o \u00e9 harmonia e coopera\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o os conflitos. A hist\u00f3ria das nossas sociedades \u00e9 uma hist\u00f3ria de conflitos. O Brasil n\u00e3o \u00e9 diferente de nenhum outro pa\u00eds nesse sentido.<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando a l\u00edngua \u00e9 muito distante, as comunidades de imigrantes se concentram em trabalhar na forma de redes. Vivem em torno daqueles que comungam a pr\u00f3pria l\u00edngua. As pessoas querem falar a pr\u00f3pria l\u00edngua, conversar sobre a saudade que sentem, reclamar de algum comportamento cultural brasileiro, comprar um ingrediente para manter h\u00e1bitos culin\u00e1rios.<\/p>\n<p>A\u00ed que devemos entender que as comunidades imigrantes \u00e0s vezes n\u00e3o querem se integrar totalmente. Isso \u00e9 muito comum nos Estados Unidos, as comunidades latinas n\u00e3o querem mais ser necessariamente americanas. Podem viver no meio deles, ganhar dinheiro e trabalhar, ir para escola e escutar r\u00e1dio, abrir com\u00e9rcio e fazer as suas festas. Para que se integrar totalmente? N\u00e3o h\u00e1 mais uma perspectiva de integra\u00e7\u00e3o total.<\/p>\n<blockquote><p>Por isso o que se deve garantir s\u00e3o oportunidades, um acolhimento inicial, a documenta\u00e7\u00e3o, para que a pessoa fa\u00e7a a sua pr\u00f3pria vida. Seja aqui, seja imigrando para outra cidade brasileira, seja eventualmente indo para outro pa\u00eds.<\/p><\/blockquote>\n<p>Agora a gente trata de fluxos migrat\u00f3rios e n\u00e3o do processo mais antigo, pelo qual o imigrante chegava e praticamente cortava as pontes com o seu pa\u00eds de origem. Hoje as pessoas vivem em comunidades transnacionais, em fam\u00edlias transnacionais. A integra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma integra\u00e7\u00e3o seletiva. Tudo o que a gente v\u00ea de diferen\u00e7a e alguns podem chamar de fechamento s\u00e3o escolhas comunit\u00e1rias. Pessoas querem produzir as suas pr\u00f3prias vidas em um mundo diverso, fragmentado.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 todo pa\u00eds que aceita essa perspectiva, certo? Por vis\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o h\u00e1 os que obrigam a uma integra\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>MO <span style=\"color: #8eaebd\">| <\/span><\/strong>Veja, pesquisas recentes na Fran\u00e7a, o pa\u00eds que eu conhe\u00e7o mais, colocam a preocupa\u00e7\u00e3o com a imigra\u00e7\u00e3o em baixa prioridade. Para o franc\u00eas comum, <a href=\"https:\/\/www.lecese.fr\/en\/publications\/equal-opportunities-myth-or-reality-annual-report-state-france-2025\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a principal preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 emprego e renda<\/a>. Obviamente, s\u00e3o pa\u00edses em que sempre houve certa igualdade do ponto de vista salarial, mas onde o fosso entre os mais ricos e os mais pobres aumentou. Diferentemente dos EUA, o pa\u00eds de maior desigualdade dentre as nove economias, uma desigualdade que continua aumentando, pa\u00edses como Fran\u00e7a, Inglaterra e Alemanha n\u00e3o conheciam esse problema.<\/p>\n<blockquote><p>Frente a isso, a imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema para a Europa. Efetivamente, n\u00e3o \u00e9. Mas \u00e9 um problema muito falado no mundo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Como s\u00e3o os pais mais ricos, h\u00e1 uma press\u00e3o, uma demanda de pessoas querendo entrar legal ou ilegalmente. H\u00e1 uma press\u00e3o demogr\u00e1fica, porque h\u00e1 muita pobreza no mundo. Ou em guerra. A grande migra\u00e7\u00e3o recente para a Alemanha foi de s\u00edrios. Por qu\u00ea? Porque a S\u00edria est\u00e1 h\u00e1 15 anos em guerra. Moradores de Gaza n\u00e3o t\u00eam op\u00e7\u00e3o. Tentam entrar no Egito ou na Jord\u00e2nia, que est\u00e1 cada vez mais colonizada [por Israel]. Para onde essas pessoas v\u00e3o? Para os pa\u00edses mais ricos. Se n\u00e3o podem ir, escolhem outros. Quando sul-americanos n\u00e3o podem ir para os Estados Unidos, escolhem o Brasil. O Brasil nunca \u00e9 a primeira op\u00e7\u00e3o, sempre \u00e9 os Estados Unidos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_29331\" aria-describedby=\"caption-attachment-29331\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mural-de-igreja-na-Escocia-Saint-Johns-church-on-Princes-Street.-Foto-byronv2-Flickr.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-29331 size-full\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mural-de-igreja-na-Escocia-Saint-Johns-church-on-Princes-Street.-Foto-byronv2-Flickr.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mural-de-igreja-na-Escocia-Saint-Johns-church-on-Princes-Street.-Foto-byronv2-Flickr.jpg 1920w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mural-de-igreja-na-Escocia-Saint-Johns-church-on-Princes-Street.-Foto-byronv2-Flickr-300x169.jpg 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mural-de-igreja-na-Escocia-Saint-Johns-church-on-Princes-Street.-Foto-byronv2-Flickr-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mural-de-igreja-na-Escocia-Saint-Johns-church-on-Princes-Street.-Foto-byronv2-Flickr-768x432.jpg 768w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mural-de-igreja-na-Escocia-Saint-Johns-church-on-Princes-Street.-Foto-byronv2-Flickr-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mural-de-igreja-na-Escocia-Saint-Johns-church-on-Princes-Street.-Foto-byronv2-Flickr-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29331\" class=\"wp-caption-text\">Mural em igreja na Esc\u00f3cia (na tradu\u00e7\u00e3o, &#8220;honre o imigrante&#8221;) que lembra trecho da B\u00edblia e afogamentos em tentativas de travessia para a Europa no Mediterr\u00e2neo. Foto: byronv2\/Flickr<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas voltando, se a imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o popular, por que um determinado grupo pol\u00edtico, que a gente qualifica como extrema direita, coloca tanto esse motivo na campanha? Porque faz debate, chama aten\u00e7\u00e3o. Muitas vezes qualificam de imigrante at\u00e9 o neto do migrante. O neto de um senegal\u00eas, portanto, preto. Mas se j\u00e1 \u00e9 terceira gera\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 franc\u00eas. S\u00f3 que esses migrantes, obviamente, foram morar nas periferias das grandes cidades. E disputam o mercado de trabalho com os mais pobres.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 um discurso atrativo para esses mais pobres. \u201cOlha, est\u00e1 vendo o imigrante, ele comeu o p\u00e3o, e voc\u00ea est\u00e1 sem emprego\u201d. N\u00e3o \u00e9 verdade, porque a parcela de migrantes \u00e9 pequena, est\u00e1 em 6%, 7%, 8%. Se o pobre franc\u00eas est\u00e1 sem emprego \u00e9 por outros motivos. Mas o discurso acaba fazendo muito efeito para essas comunidades.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que pega um caldo racial, de xenofobia. O europeu muitas vezes se v\u00ea como uma ilha de prosperidade no meio de um mar de conflitos. Como se n\u00e3o fossem respons\u00e1veis por muitos desses conflitos.<\/p>\n<blockquote><p>Ent\u00e3o, a extrema direita se vale muito de um tema que n\u00e3o \u00e9 real em termos econ\u00f4micos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao contr\u00e1rio, os empres\u00e1rios desses pa\u00edses dizem: &#8220;Se mandar os estrangeiros embora, ningu\u00e9m mais vai abrir a porta do metr\u00f4 \u00e0s cinco da manh\u00e3, nenhum alem\u00e3o quer trabalhar \u00e0s cinco da manh\u00e3&#8221;. Quem abre a porta do metr\u00f4 \u00e9 quem acorda \u00e0s 4h30 para vir trabalhar de bicicleta, porque n\u00e3o vai ter transporte. Quem vai limpar o escrit\u00f3rio de manh\u00e3 cedo para voc\u00ea chegar \u00e0s 8:30? Quem vai fazer a s\u00e9rie de servi\u00e7os b\u00e1sicos mal pagos que a m\u00e3o de obra imigrante faz? Ent\u00e3o, os empres\u00e1rios dizem: &#8220;Parem de criminalizar e de querer mandar embora estrangeiros, porque isso vai ser vai ter um baque na economia muito grande&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, todos esses pa\u00edses t\u00eam um gap demogr\u00e1fico importante, pessoas nascem menos do que morrem. S\u00e3o popula\u00e7\u00f5es declinantes, que est\u00e3o envelhecendo, com press\u00e3o sobre os sistemas previdenci\u00e1rios. Esses grupos de extrema direita silenciam totalmente sobre esses pontos. Se algu\u00e9m perguntar, v\u00e3o inventar qualquer salada.<\/p>\n<blockquote><p>A pol\u00edtica europeia deveria ser atrair a m\u00e3o de obra. A imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema. Ela tem que ser pensada como uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>O Brasil em certa medida poderia acordar para isso tamb\u00e9m, porque tem certas \u00e1reas que est\u00e1 faltando m\u00e3o de obra. A economia cresce e o Brasil est\u00e1 come\u00e7ando a chegar no seu limite demogr\u00e1fico tamb\u00e9m. Os dem\u00f3grafos dizem que a gente deve chegar a algo entre 235 milh\u00f5es e 245 milh\u00f5es de habitantes, no m\u00e1ximo. A Argentina, por exemplo, parou nos seus 40 milh\u00f5es h\u00e1 muito tempo, mas, como a economia n\u00e3o cresce muito, se estabelece. Agora a Argentina tem 5% de m\u00e3o de obra estrangeira. Bolivianos e paraguaios, sobretudo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o h\u00e1 uma certa incoer\u00eancia em vincular o crescimento da extrema direita \u00e0 quest\u00e3o migrat\u00f3ria. Isso n\u00e3o se sustenta nos fatos, mas se sustenta no discurso. Porque o discurso xen\u00f3fobo, racista e preconceituoso faz muito efeito na Europa e esses grupos de direita est\u00e3o se valendo disso.<\/p>\n<p><strong>O Brasil consegue acolher imigrantes estrangeiros? Como voc\u00ea avalia a Opera\u00e7\u00e3o Acolhida, deflagrada pelo Ex\u00e9rcito em 2018 para resolver o povoamento da fronteira com a Venezuela em Rond\u00f4nia por meio de uma pol\u00edtica de interioriza\u00e7\u00e3o de imigrantes?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>MO <span style=\"color: #8eaebd\">| <\/span><\/strong>Emprego, redes e estrutura de acolhimento fazem com imigrantes estejam vindo mais para os estados do Sul. S\u00e3o estados em pleno emprego, onde falta m\u00e3o de obra. Isso acontece tamb\u00e9m nos estados com agroind\u00fastria, setores beneficiados por enorme ren\u00fancia fiscal, com empresas que pagam poucos impostos e vendem muito, e t\u00eam alta rotatividade de m\u00e3o de obra.<\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Acolhida foi criada pelo governo Temer para resolver uma quest\u00e3o humanit\u00e1ria. Era muita gente sem condi\u00e7\u00e3o de ficar ali. N\u00e3o tinha emprego para aquelas pessoas e o Brasil tinha que cumprir a prote\u00e7\u00e3o dos acordos internacionais. A Venezuela estava protegida pelo acordo de paz associado ao Mercosul, que depois foi revogado.<\/p>\n<p>A cidade de fronteira, Pacaraima, no extremo Norte de Roraima, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de abrigar tanta gente. Isso piorou problemas que j\u00e1 existiam. N\u00e3o foi o imigrante que inventou os problemas de Roraima. O estado j\u00e1 tinha conflito em terra ind\u00edgena, a Raposa Terra do Sol, de minera\u00e7\u00e3o ilegal, de contrabando de ouro, de tr\u00e1fico de drogas. Mas a presen\u00e7a dos imigrantes leva muita gente a ter uma percep\u00e7\u00e3o equivocada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_29347\" aria-describedby=\"caption-attachment-29347\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Carifiesta-2007-em-Montreal.-Lots-of-Haitian-flags-for-the-citys-big-Haitian-population.-Foto-Caribb-Flickr.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-29347 size-full\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Carifiesta-2007-em-Montreal.-Lots-of-Haitian-flags-for-the-citys-big-Haitian-population.-Foto-Caribb-Flickr.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Carifiesta-2007-em-Montreal.-Lots-of-Haitian-flags-for-the-citys-big-Haitian-population.-Foto-Caribb-Flickr.jpg 1920w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Carifiesta-2007-em-Montreal.-Lots-of-Haitian-flags-for-the-citys-big-Haitian-population.-Foto-Caribb-Flickr-300x169.jpg 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Carifiesta-2007-em-Montreal.-Lots-of-Haitian-flags-for-the-citys-big-Haitian-population.-Foto-Caribb-Flickr-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Carifiesta-2007-em-Montreal.-Lots-of-Haitian-flags-for-the-citys-big-Haitian-population.-Foto-Caribb-Flickr-768x432.jpg 768w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Carifiesta-2007-em-Montreal.-Lots-of-Haitian-flags-for-the-citys-big-Haitian-population.-Foto-Caribb-Flickr-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Carifiesta-2007-em-Montreal.-Lots-of-Haitian-flags-for-the-citys-big-Haitian-population.-Foto-Caribb-Flickr-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29347\" class=\"wp-caption-text\">Conceito sociol\u00f3gico de integra\u00e7\u00e3o considera que grau de assimila\u00e7\u00e3o cultural n\u00e3o deve ser visto como meta, por desconsiderar o posicionamento do imigrante. Na foto, festa da comunidade caribenha no Canad\u00e1, com v\u00e1rias bandeiras haitianas. Foto: Caribb\/Flickr<\/figcaption><\/figure>\n<p>A crise foi produzida pelas condi\u00e7\u00f5es da Venezuela e o Brasil lidou n\u00e3o t\u00e3o mal assim, eu diria. Talvez a opera\u00e7\u00e3o pudesse ser gerida de maneira mais civil e n\u00e3o t\u00e3o militar, mas interiorizar os imigrantes \u00e9 um desejo tamb\u00e9m deles. A opera\u00e7\u00e3o interiorizou uma parte dos imigrantes, por ades\u00e3o deles mesmos.<\/p>\n<blockquote><p>Fora essa situa\u00e7\u00e3o de crise, o atrativo do Brasil \u00e9 o conjunto de direitos sociais e o sistema de prote\u00e7\u00e3o social brasileira. Os imigrantes sabem disso. O sal\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 muito bom, mas o sistema de prote\u00e7\u00e3o social \u00e9.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O que voc\u00ea pensa da onda midi\u00e1tica dos brasileiros que mais recentemente decidiram emigrar para o Paraguai? Como isso se coloca dentro da hist\u00f3ria da migra\u00e7\u00e3o do pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>MO <span style=\"color: #8eaebd\">| <\/span><\/strong>A rela\u00e7\u00e3o mais tradicional entre os pa\u00edses s\u00e3o os brasiguaios, setores econ\u00f4micos que compram terras no Brasil e no Paraguai para produzir. No Paraguai o sistema de impostos \u00e9 barato, as terras s\u00e3o mais baratas. Ent\u00e3o uma expans\u00e3o do agro brasileiro vai para cima do Paraguai.<\/p>\n<blockquote><p>Os motivos antigos continuam nessa atual onda dita de direita. Menos impostos, facilidade de abrir empresas e, com certeza, a ideologia misturada. Nesse sentido h\u00e1 novidade. Vamos ver quanto tempo dura.<\/p><\/blockquote>\n<p>O Paraguai tem servi\u00e7os p\u00fablicos ruins, tanto que paraguaios \u00e9 quem cruzam a fronteira para se consultar em Foz do Igua\u00e7u [no Paran\u00e1] e munic\u00edpios vizinhos, onerando a capacidade local. Reclama\u00e7\u00e3o antiga dos prefeitos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Vai ser interessante acompanhar esses novos brasileiros quando precisarem de interna\u00e7\u00f5es caras, tratamentos longos, que s\u00e3o caros. Imagino que v\u00e3o recorrer ao SUS brasileiro.<\/p>\n<p>Enfim, ir e voltar de um pa\u00eds n\u00e3o caracteriza migra\u00e7\u00e3o. Por exemplo, h\u00e1 quatro faculdades de medicina, com muitos funcion\u00e1rios brasileiros, num raio de 30 quil\u00f4metros a partir do centro de Ciudad de Leste.<\/p>\n<p>Os cursos s\u00e3o mais baratos do que os similares brasileiros e a forma\u00e7\u00e3o \u00e9 boa, inclusive com resid\u00eancia e atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o paraguaia. Os estudantes brasileiros de Medicina n\u00e3o chegam a residir em Ciudad de Leste. Pegam vans v\u00e3o e voltam todos os dias.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o moram l\u00e1, \u00e9 um fato que n\u00e3o caracteriza migra\u00e7\u00e3o. S\u00e3o fronteiri\u00e7os origin\u00e1rios de v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil e, no retorno, enfrentam o Revalida [Exame Nacional de Revalida\u00e7\u00e3o de Diplomas M\u00e9dicos, aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) para condi\u00e7\u00e3o de exerc\u00edcio da medicina no Brasil].<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right\"><span class=\"TextRun SCXW27440562 BCX0\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SCXW27440562 BCX0\">\u2795\u00a0<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW27440562 BCX0\">Leia o artigo <\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW27440562 BCX0\"><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.35008\/perspectivas-0010\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Migrantes latino-americanos no &#8216;Brasil meridional\u2019: O caso dos haitianos e venezuelanos no estado do Paran\u00e1, 2010-2024<\/a>, publicado no peri\u00f3dico <em>Perspectivas<\/em> (aberto; em portugu\u00eas)<\/span><\/span><span class=\"EOP SCXW27440562 BCX0\" data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: right\">\u2795 Mais no artigo <a href=\"https:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/repam\/article\/view\/56357\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Migra\u00e7\u00f5es Sul-Sul: uma breve hist\u00f3ria e revis\u00e3o de seus significados, com foco em seu emprego na an\u00e1lise dos recentes fluxos migrat\u00f3rios entre pa\u00edses latino-americanos<\/a>, publicado na <em>Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Am\u00e9ricas (Repam)<\/em> (aberto; 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