{"id":29244,"date":"2026-06-16T13:43:16","date_gmt":"2026-06-16T16:43:16","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=29244"},"modified":"2026-06-23T19:08:21","modified_gmt":"2026-06-23T22:08:21","slug":"a-computacao-existe-antes-mesmo-do-computador-andre-vignatti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/a-computacao-existe-antes-mesmo-do-computador-andre-vignatti\/","title":{"rendered":"\u201cA computa\u00e7\u00e3o existe antes mesmo do computador\u201d | Andr\u00e9 Vignatti"},"content":{"rendered":"<p>O professor Andr\u00e9 Vignatti, do Departamento de Inform\u00e1tica da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), gosta da ideia de que a computa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica profunda da natureza, uma lei natural, como a gravidade ou o magnetismo. Essa \u00e9 uma abordagem da ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica segundo a qual a natureza computa, afinal manipula a informa\u00e7\u00e3o de forma abstrata usando algoritmos pr\u00e9-determinados, entre eles o processo de evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, por exemplo.<\/p>\n<p>Segundo essa perspectiva, a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento essencial da vida e a natureza \u00e9 uma estrutura informacional que se comporta conforme a din\u00e2mica computacional, seja para definir a cor de uma fruta ou como as c\u00e9lulas se dividem. Quer dizer, computa\u00e7\u00e3o \u00e9 a forma como a natureza \u00e9.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o \u00e9 minorit\u00e1ria na ci\u00eancia por alguns motivos. Um deles \u00e9 que nem todos v\u00eam a ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o desvencilhada do computador, a m\u00e1quina de circuitos el\u00e9tricos de sil\u00edcio que processa dados segundo algoritmos definidos por seres humanos. Mas a tese oferece os pontos de partida filos\u00f3ficos que fascinam te\u00f3ricos da \u00e1rea, Vignatti inclu\u00eddo.<\/p>\n<p>O registro disso est\u00e1 no livro <a href=\"https:\/\/www.inf.ufpr.br\/vignatti\/publication\/2024-maquina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>A M\u00e1quina da Natureza<\/em><\/a>, editado de forma independente, com o qual o docente destacou a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da \u00e1rea ao vencer o Pr\u00eamio Jabuti Acad\u00eamico 2025. Ele conta que o livro nasceu de uma insatisfa\u00e7\u00e3o com o ensino formal e busca devolver a intui\u00e7\u00e3o e o contexto hist\u00f3rico a temas complexos da ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A computa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma lente para entender o universo. Espero que os temas tratados na obra ajudem o leitor a enxergar o mundo com essa mesma fascina\u00e7\u00e3o\u201d, avalia.<\/p><\/blockquote>\n<p>Nesta entrevista, ele comenta tamb\u00e9m sobre seus \u00eddolos computeiros (entre eles pioneiros como Ada Lovelace), os limites da intelig\u00eancia artificial, a urg\u00eancia da soberania tecnol\u00f3gica brasileira frente \u00e0s big techs e os desafios da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional da \u00e1rea.<\/p>\n<p><strong>Em <em>A M\u00e1quina da Natureza<\/em> voc\u00ea avalia que a computa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi inventada, mas descoberta como algo que j\u00e1 existia na natureza. O que voc\u00ea considera como \u201cnatural\u201d e \u201cdescoberta\u201d? E como essa mudan\u00e7a de perspectiva altera o papel do cientista da computa\u00e7\u00e3o de um &#8220;arquiteto de ferramentas&#8221; para um &#8220;explorador de leis naturais&#8221;?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Andr\u00e9 Vignatti <span style=\"color: #cf6777\">|<\/span><\/strong>\u00a0O debate sobre o que \u00e9 &#8220;inventado&#8221; ou &#8220;descoberto&#8221; \u00e9 cl\u00e1ssico em \u00e1reas como a Matem\u00e1tica. Embora n\u00e3o exista um consenso definitivo, uma abordagem pragm\u00e1tica interessante \u00e9 o teste da intelig\u00eancia extraterrestre. Sob essa \u00f3tica, descobertas s\u00e3o conceitos fundamentais e &#8220;naturais&#8221;. Se encontr\u00e1ssemos uma civiliza\u00e7\u00e3o alien\u00edgena avan\u00e7ada, eles provavelmente teriam chegado \u00e0s mesmas conclus\u00f5es, pois trata-se de propriedades universais. Por outro lado, inven\u00e7\u00f5es s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es &#8220;artificiais&#8221; e espec\u00edficas. Outras esp\u00e9cies inteligentes dificilmente desenvolveriam exatamente os mesmos objetos ou conven\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<blockquote><p>Para exemplificar, considere a televis\u00e3o. O aparelho f\u00edsico \u00e9, claramente, uma inven\u00e7\u00e3o. No entanto, os princ\u00edpios por tr\u00e1s da transmiss\u00e3o de sinais s\u00e3o descobertas. Qualquer civiliza\u00e7\u00e3o que estude o eletromagnetismo invariavelmente compreenderia as leis f\u00edsicas que permitem essa comunica\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o entre computa\u00e7\u00e3o e tecnologia segue essa mesma linha de racioc\u00ednio. A tecnologia est\u00e1 relacionada \u00e0s inven\u00e7\u00f5es. O smartphone ou o PC [computador] que voc\u00ea utiliza s\u00e3o obras tecnol\u00f3gicas, ferramentas criadas para aplica\u00e7\u00f5es imediatas e pr\u00e1ticas. Em contrapartida, a Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o, especialmente em seu ramo te\u00f3rico, busca o conhecimento puro. Ela se debru\u00e7a sobre algoritmos e problemas computacionais e, por defini\u00e7\u00e3o, seu estudo ocorre no \u00e2mbito matem\u00e1tico, ignorando tecnologias de hardware, linguagens de programa\u00e7\u00e3o ou sistemas operacionais espec\u00edficos. Nesse sentido, mesmo sem sil\u00edcio ou semicondutores, as leis da l\u00f3gica e os limites da complexidade computacional continuariam existindo como verdades fundamentais do universo.<\/p>\n<p>Desta forma, enquanto um &#8220;arquiteto de ferramentas&#8221; foca na aplicabilidade imediata, como construir o melhor software ou o hardware mais r\u00e1pido, o explorador de leis naturais entende que a computa\u00e7\u00e3o existe antes mesmo do computador. Esse &#8220;naturalista&#8221; investiga a complexidade, as propriedades da informa\u00e7\u00e3o e os limites da l\u00f3gica. Sua fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas &#8220;fazer funcionar&#8221;, mas entender por que certos problemas s\u00e3o intrinsecamente dif\u00edceis e como a natureza processa informa\u00e7\u00f5es. Essa perspectiva eleva o cientista da computa\u00e7\u00e3o ao patamar de um f\u00edsico ou matem\u00e1tico. N\u00e3o estamos apenas criando novos dispositivos ou aplicativos; estamos, na verdade, desvendando as regras que regem o processamento de informa\u00e7\u00f5es no universo.<\/p>\n<p>Quando eu comecei, eu ainda n\u00e3o tinha essa vis\u00e3o. No in\u00edcio da gradua\u00e7\u00e3o, a computa\u00e7\u00e3o surgiu de um gosto pessoal por entender m\u00e1quinas e desenvolver aplicativos. Com o tempo, o contato com a matem\u00e1tica avan\u00e7ada e as leituras na biblioteca expandiram meus horizontes. J\u00e1 no final do curso, busquei um orientador que me apresentou a temas fascinantes, e a ideia do mestrado surgiu para alimentar esse meu novo lado. No fundo, foi um caminho sem volta em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida acad\u00eamica.<\/p>\n<p><strong>A obra informa que tem o intuito de \u201ctranscender\u201d a \u00e1rea da computa\u00e7\u00e3o. \u00c9 nisso que est\u00e1 o cruzamento do texto com a filosofia? Tem alguma rela\u00e7\u00e3o com o fato de nem sempre o p\u00fablico em geral relacionar ci\u00eancia e tecnologia, at\u00e9 no sentido de qual merece credibilidade?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AV <span style=\"color: #cf6777\">|<\/span><\/strong> Eu via alunos e professores presos a uma rigidez matem\u00e1tica que ignorava o contexto hist\u00f3rico e as implica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas por tr\u00e1s de seus conceitos. Decidi escrever este livro para preencher esse vazio. \u00c9 dif\u00edcil conceber o ensino sobre a M\u00e1quina de Turing sem explorar as inquieta\u00e7\u00f5es existenciais e as motiva\u00e7\u00f5es que levaram Alan Turing a conceb\u00ea-la. O mesmo ocorre com o problema P vs NP, considerada a maior quest\u00e3o ainda n\u00e3o resolvida da \u00e1rea. Como condensar um dos maiores enigmas da ci\u00eancia em apenas duas aulas?<\/p>\n<blockquote><p>O resultado desse ensino mecanizado \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que enxerga a computa\u00e7\u00e3o apenas como um of\u00edcio t\u00e9cnico, quando ela \u00e9, na verdade, uma das ci\u00eancias mais profundas j\u00e1 criadas pela humanidade. O &#8220;transcender&#8221;, neste caso, consiste em abrir os olhos dos pr\u00f3prios cientistas da computa\u00e7\u00e3o para o que normalmente est\u00e1 escondido sob o formalismo pesado.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao despertarmos, percebemos que n\u00e3o somos meras ferramentas de produ\u00e7\u00e3o para os anseios imediatos da sociedade, somos verdadeiros fil\u00f3sofos da natureza. \u00c9 incr\u00edvel a quantidade de alunos que, ap\u00f3s lerem o livro ou cursarem a disciplina que leciono sobre ele, v\u00eam me dizer que n\u00e3o tinham ideia da dimens\u00e3o da \u00e1rea, ou que a obra os fez repensar a pr\u00f3pria carreira.<\/p>\n\t\t<div class=\"wp-shortcode-web-stories-embed web-stories-embed alignnone\">\n\t\t\t<div class=\"wp-block-embed__wrapper\" style=\"--aspect-ratio: 0.562500; --width: 360px; --height: 640px\">\n\t\t\t\t<amp-story-player>\n\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/web-stories\/quem-resolver-esse-enigma-da-computacao-fica-milionario\/\">\n\t\t\t\t\t\tQuem resolver este enigma da computa\u00e7\u00e3o fica milion\u00e1rio\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\t\t<\/amp-story-player>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\n<p>Como o livro possui uma escrita n\u00e3o t\u00e9cnica, o p\u00fablico em geral tamb\u00e9m pode se beneficiar dessa nova forma de enxergar a computa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 recebi retornos de profissionais de diversas \u00e1reas: engenheiros, ge\u00f3logos, historiadores, entre outros. O crossover com a filosofia reside, basicamente, em explicitar os reais objetivos da Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o que est\u00e3o por debaixo de todo o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico que observamos. Obviamente, em uma sociedade com baixo grau de alfabetismo cient\u00edfico, a tecnologia e os produtos da pesquisa aplicada s\u00e3o os \u00fanicos artefatos que atraem aten\u00e7\u00e3o, enquanto a pesquisa pura \u00e9, comumente, negligenciada como algo irrelevante.<\/p>\n<p><strong>Por que a escolha por um livro f\u00edsico para falar de computa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AV <span style=\"color: #cf6777\">|<\/span><\/strong> A escolha pelo formato f\u00edsico tem motiva\u00e7\u00f5es claras. Primeiramente, e mais importante, o livro f\u00edsico \u00e9 mais t\u00e1til e envolvente. N\u00e3o sou eu quem afirma, \u00e9 o p\u00fablico. Curiosamente, soube hoje que, na plataforma de publica\u00e7\u00e3o independente onde disponibilizo minha obra, 88% das vendas s\u00e3o de exemplares impressos. A prefer\u00eancia da maioria, portanto, permanece no papel. Al\u00e9m disso, devido \u00e0 diagrama\u00e7\u00e3o complexa e \u00e0s mais de 200 ilustra\u00e7\u00f5es, o formato e-book tornou-se invi\u00e1vel. A &#8220;elasticidade&#8221; t\u00edpica dos leitores digitais arruinaria o projeto gr\u00e1fico. A \u00fanica alternativa digital seria um arquivo est\u00e1tico, como o PDF, mas observo que muitos autores que seguem esse caminho acabam vendo sua obra &#8220;se perder&#8221; na imensid\u00e3o digital, tornando-se apenas mais um arquivo comum em meio a tantos outros.<\/p>\n<p>Quanto aos princ\u00edpios de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, inspirei-me em nomes como Carl Sagan e Stephen Hawking, que dominavam a arte de traduzir a ci\u00eancia para o p\u00fablico geral. Por uma quest\u00e3o pessoal, tamb\u00e9m priorizei o apelo visual. Sempre considerei mais prazeroso ler conte\u00fados esteticamente organizados. Nesse sentido, inclu\u00ed diversas figuras para enriquecer a obra. Al\u00e9m disso, em meu processo de escrita, \u00e9 comum a abertura de par\u00eanteses que, embora desviem da leitura linear, trazem informa\u00e7\u00f5es complementares valiosas. O projeto gr\u00e1fico que adotei caiu como uma luva, pois utiliza notas laterais que atendem perfeitamente a essa demanda. H\u00e1, de fato, aproximadamente uma nota para cada p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Durante o processo de escrita, decidi que, antes de apresentar o manuscrito a qualquer editora, ele deveria estar plenamente alinhado \u00e0 minha vis\u00e3o e ao que eu desejava transmitir. Quando finalmente contatei algumas empresas, solicitaram-me o arquivo original em editores de texto comerciais. No entanto, eu havia desenvolvido toda a obra, incluindo a apresenta\u00e7\u00e3o visual, utilizando LaTeX, o padr\u00e3o acad\u00eamico. Esse foi um dos primeiros obst\u00e1culos para seguir com uma editora tradicional.<\/p>\n<p>Aos poucos, percebi que eu j\u00e1 estava realizando a maioria das tarefas que uma editora ofereceria, como edi\u00e7\u00e3o, diagrama\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o. Com a distribui\u00e7\u00e3o atual concentrada na internet, a necessidade de presen\u00e7a f\u00edsica em livrarias diminuiu drasticamente.<\/p>\n<p>Outro ponto seria a capa. A hist\u00f3ria de sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9 longa e frequentemente me perguntam sobre ela, pois sua est\u00e9tica \u00e9 realmente singular. N\u00e3o creio que ela possua um significado literal, mas ela evoca a natureza, que, al\u00e9m de estar no t\u00edtulo, \u00e9 um tema recorrente no livro. \u00c9 uma arte inspirada no surrealismo e na psicodelia, refletindo a ideia de explorar algo al\u00e9m da realidade l\u00f3gica e racional.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 certo inferir que o seu livro traz uma perspectiva c\u00e9tica sobre a intelig\u00eancia artificial [IA] e o grau de previsibilidade de que essas tecnologias s\u00e3o capazes? De que maneira a aceita\u00e7\u00e3o de que nem tudo \u00e9 previs\u00edvel ou simul\u00e1vel por m\u00e1quinas impacta a nossa compreens\u00e3o sobre a consci\u00eancia humana?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AV <span style=\"color: #cf6777\">|<\/span><\/strong> Dediquei apenas um cap\u00edtulo do livro \u00e0 discuss\u00e3o sobre IA em 2019. Viv\u00edamos um crescente de avan\u00e7os em \u00e1reas perif\u00e9ricas, mas n\u00e3o havia ind\u00edcios claros de uma revolu\u00e7\u00e3o iminente no pensamento da \u00e1rea. As melhores tentativas de conversa\u00e7\u00e3o apresentavam, basicamente, o mesmo n\u00edvel de intelig\u00eancia dos chatbots [programa de computador que simula conversas] da d\u00e9cada de 1960. Nesse quesito o campo parecia estagnado. Em 2024, pouco antes de publicar o livro, adicionei uma nota lateral sobre as LLMs [Large Language Models, sistema de intelig\u00eancia artificial que gera textos e outros formatos de linguagem], apresentadas ao p\u00fablico em 2022.<\/p>\n<blockquote><p>A perspectiva que apresento \u00e9, acredito, o equil\u00edbrio ideal entre ceticismo e cren\u00e7a.<\/p><\/blockquote>\n<p>Defendo que os especialistas se dividem em dois grupos: os que acreditam e os que desacreditam na ideia de uma Intelig\u00eancia Artificial Geral [AGI, a hip\u00f3tese de que uma m\u00e1quina poderia executar tarefas intelectuais]. Essa divis\u00e3o permanece v\u00e1lida ainda hoje, no mundo p\u00f3s-LLM.<\/p>\n<p>Saber que o computador j\u00e1 nasceu limitado, existindo tarefas que ele simplesmente n\u00e3o pode desempenhar, suscitou, desde o in\u00edcio, uma compara\u00e7\u00e3o com a nossa &#8216;m\u00e1quina&#8217; cerebral. Muitos argumentam que os seres humanos foram capazes de grandes avan\u00e7os cient\u00edficos apenas por pensarmos &#8220;fora da caixa&#8221;, enquanto o computador estaria confinado em sua pr\u00f3pria estrutura, limitada pela incompletude da l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 um argumento filos\u00f3fico central na Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o, a Tese de Church-Turing, que sugere ser poss\u00edvel simular computacionalmente o estado e as altera\u00e7\u00f5es de qualquer conjunto de part\u00edculas, incluindo c\u00e9lulas e, por consequ\u00eancia, o pr\u00f3prio c\u00e9rebro. Sob essa \u00f3tica, o computador seria capaz de realizar tudo o que um c\u00e9rebro faz, e talvez mais.<\/p>\n<p>Um elemento frequentemente ignorado nessa discuss\u00e3o \u00e9 a aleatoriedade. Tipicamente, n\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel lidar com o incerto, n\u00e3o apenas porque ele n\u00e3o &#8220;vende&#8221;, mas porque quem absorve o pensamento computacional \u00e9 treinado para projetar algoritmos com resultados previs\u00edveis e exatos. Como o computador opera de forma bin\u00e1ria e exata, a incerteza parece, \u00e0 primeira vista, apenas um obst\u00e1culo. No entanto, \u00e9 crucial observar que incluir a aleatoriedade nessa receita &#8220;quadrada&#8221; n\u00e3o altera significativamente as conclus\u00f5es sobre a consci\u00eancia humana. Incorporar a incerteza internamente a processos antes &#8220;comportados&#8221; \u00e9 uma tend\u00eancia forte.<\/p>\n<p>Mas talvez uma tend\u00eancia ainda mais atual envolva a compreens\u00e3o e incorpora\u00e7\u00e3o do &#8220;caos&#8221; externo aos algoritmos. Este \u00e9 o grande desafio contempor\u00e2neo: algoritmos de IA s\u00e3o inertes se n\u00e3o forem alimentados por dados ca\u00f3ticos da realidade. Assim, acredito que a Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o est\u00e1, aos poucos, deixando de focar exclusivamente no algoritmo para colocar os holofotes nos dados que emanam da natureza.<\/p>\n<p><strong>No seu ponto de vista est\u00e1 faltando alguma coisa na hist\u00f3ria da computa\u00e7\u00e3o que \u00e9 mainstream no dia de hoje? Qual o papel do Sul Global nessa hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AV <span style=\"color: #cf6777\">|<\/span><\/strong> Os casos que ganharam as telas de Hollywood sofrem com a dificuldade de retratar fielmente a realidade. O filme sobre a hist\u00f3ria de Turing, por exemplo, foi indicado ao Oscar [Jogo da Imita\u00e7\u00e3o, de 2014, dirigido por Morten Tyldum com roteiro de Graham Moore]. Como n\u00e3o \u00e9 comum ver o cinema retratando um dos grandes her\u00f3is da minha \u00e1rea, eu estava torcendo fervorosamente para que ele vencesse. No entanto, a obra ignora os maiores feitos t\u00e9cnicos de Turing, sua personalidade alegre e falha em apresentar, de maneira completa, a dimens\u00e3o das injusti\u00e7as que ele sofreu.<\/p>\n<figure id=\"attachment_29487\" aria-describedby=\"caption-attachment-29487\" style=\"width: 420px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-29487 size-full\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Ada-Lovelace-daguerreotype-by-Antoine-Claudet-1843.-Commons-m-e1781705325694.jpg\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"544\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-29487\" class=\"wp-caption-text\">Ada Lovelace (1815-1852), a Condessa de Lovelace, escritora e matem\u00e1tica, hoje considerada a autora do primeiro algoritmo para ser processado por uma m\u00e1quina. Imagem de daguerre\u00f3tipo, feita em 1843. Fonte: Commons<\/figcaption><\/figure>\n<p>No outro exemplo, o das mulheres que foram as primeiras programadoras, o filme retrata a luta delas na d\u00e9cada de 1960 [Estrelas Al\u00e9m do Tempo, de 2016, dirigido por Theodore Melfi com roteiro de Allison Schroeder].<\/p>\n<p>Mas isso me traz \u00e0 mente algo que ainda falta, que \u00e9 falar da mulher que j\u00e1 programava computadores muito antes de eles existirem! A hist\u00f3ria come\u00e7a em 1833, mais de um s\u00e9culo antes de Turing apresentar o conceito formal de computador. A protagonista \u00e9 uma jovem de 18 anos chamada Ada Lovelace.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou contar a hist\u00f3ria toda agora. No meu livro dedico um espa\u00e7o a ela. Mas \u00e9 uma trajet\u00f3ria bel\u00edssima. Ada desafiou o status quo da \u00e9poca, encontrando meios de publicar suas ideias em um ambiente cient\u00edfico onde era praticamente proibido que mulheres publicassem. Nessa publica\u00e7\u00e3o, ela descreveu o funcionamento de um computador com as funcionalidades essenciais que temos hoje. E, como se n\u00e3o bastasse o rigor t\u00e9cnico dos diagramas, ela vislumbrou o futuro. Previu que tais m\u00e1quinas poderiam criar obras art\u00edsticas e at\u00e9 intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>Por que houve um hiato de mais de 100 anos at\u00e9 Turing? \u00c9 justamente para entender esses detalhes que sinto falta de um filme sobre ela. Certamente descobrir\u00edamos outras hist\u00f3rias que valem a pena ser contadas, como a trajet\u00f3ria da Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o no Brasil ou em outros pa\u00edses do Sul Global.<\/p>\n<p>Tradicionalmente, desde a cria\u00e7\u00e3o do computador, a divis\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 feita entre Leste e Oeste, trato de parte disso em minha obra. Seria muito bem-vinda uma pesquisa que escavasse narrativas interessantes sob a perspectiva da divis\u00e3o Norte-Sul.<\/p>\n<p><strong>Vi <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LAm0pDtTN44\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma entrevista<\/a> em que voc\u00ea defende a valoriza\u00e7\u00e3o do conhecimento criado e produzido no Brasil para evitar que a universidade p\u00fablica seja apenas uma formadora de m\u00e3o de obra para as big techs. Em um cen\u00e1rio que se nota como de monop\u00f3lio global de dados, como fortalecer a nossa soberania cient\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AV <span style=\"color: #cf6777\">|<\/span><\/strong> Em primeiro lugar, \u00e9 preciso pontuar que os cientistas da computa\u00e7\u00e3o formados no Brasil possuem compet\u00eancia t\u00e9cnica equivalente aos melhores profissionais do mundo. Temos a intelig\u00eancia necess\u00e1ria, o que nos falta \u00e9 um projeto de soberania nacional. N\u00e3o h\u00e1 como ser ing\u00eanuo nesse cen\u00e1rio. O hist\u00f3rico recente mostra que as big techs nem sempre jogam limpo.<\/p>\n<blockquote><p>Testemunhamos o uso de dados para influenciar elei\u00e7\u00f5es e o uso de conte\u00fados sem pagamento de royalties, entre outros abusos que ferem a autonomia de qualquer pa\u00eds. A facilidade com que essas corpora\u00e7\u00f5es mudam seus princ\u00edpios, abandonando pautas de combate \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o ou metas clim\u00e1ticas conforme o cen\u00e1rio pol\u00edtico de seus pa\u00edses de origem, prova que seu compromisso n\u00e3o \u00e9 com a \u00e9tica, mas com o poder e o lucro. O argumento de que a regula\u00e7\u00e3o inibe a inova\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas um discurso conveniente para evitar o controle sobre seus reais objetivos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Na pr\u00e1tica, o que voc\u00ea descreveu como monop\u00f3lio \u00e9, na verdade, um oligop\u00f3lio tecnol\u00f3gico. Poucas empresas det\u00eam os dados que s\u00e3o a mat\u00e9ria-prima do s\u00e9culo XXI. Como teremos soberania se os nossos dados est\u00e3o retidos por elas? A solu\u00e7\u00e3o exige que joguemos com a mesma assertividade que elas utilizam. A China compreendeu isso e obteve sucesso ao fomentar seu pr\u00f3prio ecossistema.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que propostas meramente moderadas resolvam o problema. Dever\u00edamos criar nossos pr\u00f3prios ecossistemas digitais. Isso passaria por incentivos tribut\u00e1rios e regulat\u00f3rios que favorecessem o uso dessas plataformas nacionais de comunica\u00e7\u00e3o e redes sociais, permitindo que as nossas primeiras solu\u00e7\u00f5es de larga escala florescessem em um ambiente protegido da concorr\u00eancia predat\u00f3ria. O sucesso do Pix [sistema de pagamentos e transfer\u00eancias instant\u00e2neas criado pelo Banco Central] \u00e9 a prova de que temos capacidade para criar infraestruturas que desafiam gigantes globais.<\/p>\n<p>Paralelamente, precisamos desenvolver nossa pr\u00f3pria Intelig\u00eancia Artificial. Inicialmente, poder\u00edamos utilizar dados abertos, mas tamb\u00e9m dever\u00edamos ser perspicazes e criar formas eficientes de minerar dados que hoje s\u00e3o restritos. Se as empresas de fora reclamarem, estariam admitindo que o modelo de coleta que elas mesmas utilizam \u00e9 problem\u00e1tico. Se o jogo \u00e9 selvagem e elas n\u00e3o pediram licen\u00e7a para usar nossos dados, o Estado brasileiro tamb\u00e9m n\u00e3o deve pedir licen\u00e7a para minerar o que for necess\u00e1rio para construir nossa pr\u00f3pria intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Por fim, esse esfor\u00e7o n\u00e3o vir\u00e1 de um empreendedor isolado. Exige o peso de uma iniciativa de Estado. Embora eu admita que seja um caminho dif\u00edcil de vislumbrar, dada a resist\u00eancia de setores do Congresso que muitas vezes priorizam interesses externos por falta de compreens\u00e3o t\u00e9cnica sobre pesquisa e desenvolvimento, acredito que essa seja a \u00fanica sa\u00edda real para o Brasil deixar de ser apenas um fornecedor de dados e se tornar um protagonista tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>Tratando da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em computa\u00e7\u00e3o no Brasil: seu artigo <a href=\"https:\/\/www.inf.ufpr.br\/vignatti\/publication\/2025-brasnam\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Beyond Boundaries<\/em><\/a> (2025) indica que ela \u00e9 prof\u00edcua, mas pouco citada. O que esses dados nos dizem sobre a nossa depend\u00eancia tecnol\u00f3gica? Por que as \u00e1reas aplicadas tendem a se isolar em colabora\u00e7\u00f5es puramente dom\u00e9sticas?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>AV <span style=\"color: #cf6777\">|<\/span><\/strong> O fato de a ci\u00eancia brasileira ser pouco citada est\u00e1 relacionado a dois fatores, a prioriza\u00e7\u00e3o de demandas nacionais e a car\u00eancia de pesquisas de ponta. Sendo o Brasil um pa\u00eds em desenvolvimento, \u00e9 natural que a ci\u00eancia seja voltada \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o de problemas imediatos. Se, por exemplo, desenvolvemos pesquisas sobre a otimiza\u00e7\u00e3o da matriz energ\u00e9tica em hidrel\u00e9tricas no sert\u00e3o, isso \u00e9 vital para n\u00f3s, mas raramente atrai os holofotes internacionais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, essa pesquisa frequentemente utiliza softwares de otimiza\u00e7\u00e3o desenvolvidos no exterior.<\/p>\n<blockquote><p>Existe, portanto, uma urg\u00eancia em resolver nossos dilemas locais, ainda que, para isso, dependamos de tecnologia importada.<\/p><\/blockquote>\n<p>As \u00e1reas mais te\u00f3ricas, por n\u00e3o buscarem o desenvolvimento imediato de produtos, talvez sofram menos press\u00e3o para se basear em conex\u00f5es dom\u00e9sticas e, por isso, sejam mais abertas a colabora\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Outro fator determinante \u00e9 a forma como a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional \u00e9 avaliada. Prioriza-se o aspecto quantitativo em detrimento do qualitativo. Isso incentiva o pesquisador a produzir um grande volume de artigos, mas n\u00e3o necessariamente com impacto significativo. Apesar de alguns esfor\u00e7os, acredito que esse cen\u00e1rio tem piorado. Na d\u00e9cada de 1990, era comum que mestrados durassem de tr\u00eas a cinco anos, e doutorados, de cinco a oito anos. Esse tempo se traduzia em erudi\u00e7\u00e3o, qualidade e profundidade. A partir dos anos 2000, o padr\u00e3o reduziu-se para dois e quatro anos, respectivamente, com foco total em produtividade e publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a n\u00e3o foi cultural, mas imposta. A Capes [Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior, funda\u00e7\u00e3o de fomento \u00e0 pesquisa Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o] estabeleceu que, caso os prazos fossem ultrapassados, o programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o seria penalizado. Para agravar a situa\u00e7\u00e3o, algumas ag\u00eancias estaduais de fomento passaram a oferecer bolsas com prazos ainda mais curtos. De repente, passou-se a exigir de mestrandos o envio de artigos, depois o aceite e, por fim, que essas publica\u00e7\u00f5es ocorressem em peri\u00f3dicos ou confer\u00eancias com alta classifica\u00e7\u00e3o no sistema Qualis\/Capes.<\/p>\n<p>Simultaneamente, criou-se um crit\u00e9rio artificial para valorizar eventos nacionais, na tentativa de incentivar a pesquisa brasileira. Isso motivou os pesquisadores a priorizarem esses eventos, onde o aceite era mais simples e a pontua\u00e7\u00e3o, embora inflada artificialmente, era vantajosa para as avalia\u00e7\u00f5es dos programas. Essa hist\u00f3ria possui muitos outros desdobramentos nos quais n\u00e3o vou me estender agora.<\/p>\n<p>O resultado final \u00e9 o que testemunhamos, um crescimento exponencial na quantidade de artigos que, contudo, n\u00e3o reflete necessariamente um ganho em qualidade ou relev\u00e2ncia global.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right\">\u2795 Saiba mais sobre livro <em>A M\u00e1quina da Natureza &#8211; Uma Perspectiva Cronol\u00f3gica da<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-29251\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/capa_maquina_remove-150x150.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/capa_maquina_remove-150x150.png 150w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/capa_maquina_remove-300x300.png 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/capa_maquina_remove-96x96.png 96w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/capa_maquina_remove.png 700w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/> Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o Te\u00f3rica<\/em> <a href=\"https:\/\/www.inf.ufpr.br\/vignatti\/publication\/2024-maquina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">neste link<\/a><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor Andr\u00e9 Vignatti, do Departamento de Inform\u00e1tica da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), gosta da ideia de que a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2800,"featured_media":29267,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false},"categories":[1614,1617],"tags":[2854,2930,2932,1742,1783,2744,1685,2931,2765,2461,2933],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - 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