{"id":27992,"date":"2025-12-19T10:22:29","date_gmt":"2025-12-19T13:22:29","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=27992"},"modified":"2026-06-23T19:38:54","modified_gmt":"2026-06-23T22:38:54","slug":"palmeiras-precisam-de-ajuda-para-sobreviver-a-crise-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/palmeiras-precisam-de-ajuda-para-sobreviver-a-crise-climatica\/","title":{"rendered":"\ud83c\udf0e Palmeiras precisam de ajuda para sobreviver \u00e0 crise clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p>A queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e a expans\u00e3o da agricultura sobre \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o nativa t\u00eam transformado o clima e colocado a biodiversidade em risco. Para resistir a isso, a natureza recorre, entre outras coisas, a estrat\u00e9gias de dispers\u00e3o de indiv\u00edduos (no caso de plantas, sementes) que ampliam sua \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed entra um problema: as plantas que s\u00e3o dispersas por agentes abi\u00f3ticos (como o vento) e conseguem estabelecer popula\u00e7\u00f5es vi\u00e1veis num tempo relativamente curto conseguem se manter, mas as dispersas por animais, como as palmeiras, que precisam de aves e mam\u00edferos para espalhar suas sementes, se expandem mais lentamente, eventualmente n\u00e3o conseguindo acompanhar as mudan\u00e7as ambientais em curso.<\/p>\n<p>No Brasil, isso \u00e9 especialmente preocupante porque, embora nossos biomas disponham de territ\u00f3rios naturais protegidos por lei, as chamadas unidades de conserva\u00e7\u00e3o (UCs), essa divis\u00e3o \u00e9 desigual e ainda insuficiente. Cientistas entram em cena para investigar esse impasse. J\u00e1 haviam sido desenvolvidos estudos para avaliar os efeitos sin\u00e9rgicos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e no uso do solo, na distribui\u00e7\u00e3o de organismos do Cerrado, da Mata Atl\u00e2ntica e da Amaz\u00f4nia, com o objetivo de indicar \u00e1reas que pudessem ser usadas para a conserva\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. Entretanto, ainda existiam ecossistemas, como os campos sulinos, ainda n\u00e3o contemplados nesse tipo de pesquisa.<\/p>\n<blockquote><p>Os campos sulinos s\u00e3o ecossistemas predominantemente campestres que se encontram nos estados do Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Al\u00e9m de terem poucas unidades de conserva\u00e7\u00e3o, eles est\u00e3o amea\u00e7ados sobretudo pela perda e fragmenta\u00e7\u00e3o do habitat devido \u00e0 convers\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o nativa em \u00e1reas para produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p><\/blockquote>\n<p>Somadas a isso, agem as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que v\u00eam levando a um aumento da temperatura e da precipita\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o e potencializando o avan\u00e7o da floresta sobre as \u00e1reas de campo. Nesse contexto, o uso de indicadores do estado de conserva\u00e7\u00e3o dos campos sulinos \u00e9 necess\u00e1rio para obter informa\u00e7\u00f5es que permitam entender como esses campos respondem \u00e0s mudan\u00e7as ambientais.<\/p>\n<p>Um estudo de pesquisadores do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ecologia e Conserva\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), publicado em 2021, avaliou o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do uso do solo na distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das esp\u00e9cies de palmeiras dos campos sulinos e a efetividade das atuais unidades de conserva\u00e7\u00e3o na presente e futura distribui\u00e7\u00e3o dessas esp\u00e9cies. Confira o relato dos cientistas envolvidos na pesquisa.<\/p>\n<h2>Palmeiras est\u00e3o entre as plantas amea\u00e7adas<\/h2>\n<p>Analisamos dados das esp\u00e9cies de palmeiras dos campos sulinos e criamos mapas para mostrar onde as palmeiras viviam e onde poderiam viver em 2050. Para isso, imaginamos dois futuros poss\u00edveis: um cen\u00e1rio mais realista, chamado 4.5, em que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o piorariam tanto; e um cen\u00e1rio mais pessimista, chamado 8.5, em que o planeta esquentaria bastante porque a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis continuaria crescendo.<\/p>\n<p>Para criar os mapas de distribui\u00e7\u00e3o das palmeiras, utilizamos informa\u00e7\u00f5es sobre o clima e o tipo de solo que as palmeiras precisam para crescer, al\u00e9m de informa\u00e7\u00f5es de locais onde elas j\u00e1 vivem (latitude e longitude), e proje\u00e7\u00f5es do uso do solo no Brasil. A ideia era entender melhor quais condi\u00e7\u00f5es de clima e solo poderiam ser ideais, teriam vegeta\u00e7\u00e3o nativa de campos e potencialmente poderiam permitir o estabelecimento de cada esp\u00e9cie de palmeira.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, pensamos em duas situa\u00e7\u00f5es diferentes: em uma delas, as palmeiras n\u00e3o conseguiriam se dispersar para longe, mesmo que o ambiente mudasse e ficasse ruim para elas. Na outra situa\u00e7\u00e3o, elas conseguiriam se dispersar aos poucos, viajando at\u00e9 1 km por ano, encontrando novos locais para viver.<\/p>\n<p>Por fim, comparamos os mapas de distribui\u00e7\u00e3o das palmeiras com os mapas das unidades de conserva\u00e7\u00e3o, para tentar entender se essas \u00e1reas conseguem proteger as palmeiras no presente, e para projetar se seriam capazes de proteger as palmeiras no futuro (2050) nos dois cen\u00e1rios propostos (realista e pessimista).<\/p>\n<p>Ao avaliar o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do uso do solo na distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das esp\u00e9cies de palmeiras dos campos Sulinos, os pesquisadores descobriram que, desconsiderando a dispers\u00e3o, todas as esp\u00e9cies de palmeiras perderiam \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o no futuro; e, considerando a dispers\u00e3o, todas as esp\u00e9cies ganhariam \u00e1rea.<\/p>\n<blockquote><p>Avaliar juntos os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do uso do solo, considerando cen\u00e1rios com e sem dispers\u00e3o das esp\u00e9cies, \u00e9 importante porque, se essa an\u00e1lise n\u00e3o for feita de forma completa, os resultados podem subestimar ou superestimar as perdas ou ganhos de \u00e1rea onde as esp\u00e9cies podem viver, atrapalhando a cria\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias para conserv\u00e1-las.<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora o cen\u00e1rio com dispers\u00e3o pare\u00e7a positivo (j\u00e1 que mostra as palmeiras ocupando novas \u00e1reas no futuro), \u00e9 pouco prov\u00e1vel que isso realmente aconte\u00e7a. Para que uma esp\u00e9cie consiga se estabelecer em novos locais, ela precisa primeiramente se dispersar, demandando a presen\u00e7a de animais que ajudam na poliniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses animais, por sua vez, necessitam da presen\u00e7a de vegeta\u00e7\u00e3o nativa conectando diferentes \u00e1reas para conseguir se mover entre fragmentos de campos, o que pode ser dificultado em paisagens muito fragmentadas como aquelas em que hoje est\u00e3o presentes a maioria das palmeiras dos campos Sulinos.<\/p>\n<p>Uma vez que a dispers\u00e3o da semente ocorre, a muda de palmeira precisa tolerar as condi\u00e7\u00f5es (como clima e tipo do solo) do novo lugar, at\u00e9 se tornar adulta e poder produzir seus pr\u00f3prios frutos e sementes. Outro ponto importante \u00e9 que o cen\u00e1rio com dispers\u00e3o parte do pressuposto de que a legisla\u00e7\u00e3o ambiental brasileira continuar\u00e1 sendo respeitada e, portanto, garantir\u00e1 a presen\u00e7a de vegeta\u00e7\u00e3o nativa de campos sulinos para que as esp\u00e9cies de palmeiras possam se estabelecer. No entanto, com as atuais pol\u00edticas voltadas \u00e0 expans\u00e3o agr\u00edcola, muitas vezes em detrimento da prote\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o campestre, isso \u00e9 cada vez menos garantido.<\/p>\n<h2>UCs ainda s\u00e3o pouco eficazes para a conserva\u00e7\u00e3o das palmeiras<\/h2>\n<p>Quando avaliamos a efetividade das unidades de conserva\u00e7\u00e3o na prote\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies de palmeira, descobrimos que a rede de UCs n\u00e3o \u00e9 eficaz em proteger esp\u00e9cies como<em> Butia witeckii<\/em> e <em>B. paraguayensis<\/em>, com toda a sua distribui\u00e7\u00e3o fora da rede de UCs. Al\u00e9m disso, outras esp\u00e9cies t\u00eam sua distribui\u00e7\u00e3o dentro de UCs de prote\u00e7\u00e3o integral menor do que 1%, como B. exilata.<\/p>\n<p>Para as outras esp\u00e9cies, os resultados mostraram que a representatividade das palmeiras dentro de UCs de prote\u00e7\u00e3o integral \u00e9 menor que 2%, padr\u00e3o que segue para as UCs de uso sustent\u00e1vel, com a exce\u00e7\u00e3o de <em>B. pubispatha<\/em>, <em>Allagoptera campestris<\/em> e <em>B. microspadix<\/em>, que tinham 100%, 25% e 22% de sua distribui\u00e7\u00e3o dentro deste tipo de UC, respectivamente. Esse resultado provavelmente se deve ao fato de que os campos sulinos contam com uma cobertura baixa de UCs.<\/p>\n<p>Para os cen\u00e1rios futuros, com e sem dispers\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel prever um leve aumento na \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o de <em>B. microspadix<\/em>, <em>B. odorata<\/em> e<em> Trithrinax acanthocoma<\/em> dentro das UCs de prote\u00e7\u00e3o integral, ressaltando na necessidade de que sejam implementados planos de manejo dentro dessas UCs que incluam essas esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Os planos de manejo podem prever a\u00e7\u00f5es para a manuten\u00e7\u00e3o do ecossistema de campos, assim podendo servir de ref\u00fagio para as palmeiras campestres. Eventualmente, algumas UCs devem prever a\u00e7\u00f5es de manejo para limitar o avan\u00e7o da floresta sobre o campo, principalmente quando o objetivo da UC \u00e9 proteger palmeiras tipicamente campestres, como \u00e9 o caso do Parque Estadual do Papagaio-Char\u00e3o, no Rio Grande do Sul (RS), criad,\u00a0 entre outros objetivos, para proteger a popula\u00e7\u00e3o de <em>Butia exilata<\/em>, hoje quase desaparecendo. Visitamos esse parque estadual em 2019 e a maioria dos indiv\u00edduos de <em>B. exilata<\/em> dentro do parque se encontrava perecendo sob a sombra de uma floresta jovem que avan\u00e7ou sobre o campo em que habitavam.<\/p>\n<p>Os resultados do estudo mostram que, sem a ajuda de animais que dispersem as sementes, todas as esp\u00e9cies de palmeiras analisadas tendem a perder espa\u00e7o para viver no futuro. Isso \u00e9 preocupante porque essas palmeiras j\u00e1 est\u00e3o em risco, principalmente por causa da destrui\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o dos seus habitats, e muitas s\u00f3 existem em \u00e1reas restritas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os modelos usados na pesquisa para prever a distribui\u00e7\u00e3o futura dessas esp\u00e9cies de palmeiras n\u00e3o consideraram como os animais que polinizam e dispersam essas palmeiras v\u00e3o reagir \u00e0s mudan\u00e7as no clima e no uso do solo. Portanto, nossa avalia\u00e7\u00e3o de perda de \u00e1rea adequada para essas esp\u00e9cies no futuro pode estar subestimada.<\/p>\n<blockquote><p>Com nosso estudo, conclu\u00edmos que s\u00e3o necess\u00e1rias medidas urgentes de conserva\u00e7\u00e3o que visem as palmeiras dos campos do sul do Brasil. Acreditamos que elas podem servir como esp\u00e9cies-bandeira para a conserva\u00e7\u00e3o de nossos campos, pois al\u00e9m de terem um papel importante na natureza, muitas delas tamb\u00e9m s\u00e3o valorizadas por comunidades locais, seja por seus frutos, fibras usadas para confec\u00e7\u00e3o de chap\u00e9us e vassouras, folhas usadas para alimentar o gado no inverno ou por sua beleza.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por isso, \u00e9 importante investir em mais pesquisas sobre essas palmeiras, criar pol\u00edticas para proteger o ambiente onde vivem, ampliar a rede de unidades de conserva\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o dos campos Sulinos, al\u00e9m de implementar as existentes e elaborar planos de manejo efetivos para as que ainda n\u00e3o t\u00eam. Al\u00e9m disso, ser\u00e1 fundamental conectar, atrav\u00e9s de restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, \u00e1reas de campos remanescentes, sejam em UCs ou em \u00e1reas privadas. As tarefas para a conserva\u00e7\u00e3o das palmeiras dos campos Sulinos e desse ecossistema s\u00e3o desafiadoras. Para isso, a ci\u00eancia pode e deve contribuir. H\u00e1 muito trabalho em frente.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>Calamb\u00e1s T, LF. Brum F, T. Hoffmann, P. Gurski, EM. Velazco, SJE. Carlucci, M.B. Avalia\u00e7\u00e3o do impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e no uso do solo na distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de palmeiras dos campos sulinos do Brasil. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em<\/p>\n<p>Ecologia e Conserva\u00e7\u00e3o \u2013 Setor de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas, Universidade Federal do Paran\u00e1, 2020.<br \/>\nCalamb\u00e1s-Trochez, L. F., Velazco, S. J. E., Hoffmann, P. M., Gurski, E. M., Brum, F. T., &amp; Carlucci, M. B. (2021). Climate and land-use changes coupled with low coverage of protected areas threaten palm species in South Brazilian grasslands. Perspectives in Ecology and Conservation, 19(3), 345-353. https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.pecon.2021.03.010<\/p>\n<p><strong>AUTORES<\/strong><\/p>\n<p><strong>MARCOS BERGMANN CARLUCCI<\/strong> \u00e9 professor do Departamento de Bot\u00e2nica, onde coordena o Laborat\u00f3rio de Ecologia Funcional de Comunidades, al\u00e9m de ser o coordenador do PPG Ecologia e Conserva\u00e7\u00e3o da UFPR<\/p>\n<p><strong>LICET FERNANDA CALAMBAS TROCHEZ<\/strong> \u00e9 mestre em Ecologia e Conserva\u00e7\u00e3o e doutora em Bot\u00e2nica pela Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR)<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: L\u00edvia In\u00e1cio<\/p>\n<h5><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/2795.svg\" alt=\"\u2795\" \/> Leia o artigo <a href=\"https:\/\/acervodigital.ufpr.br\/handle\/1884\/73571\">Avalia\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de esp\u00e9cies de palmeiras dos campos sulinos em cen\u00e1rios de mudan\u00e7as no clima e no uso do solo<\/a><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e a expans\u00e3o da agricultura sobre \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o nativa t\u00eam transformado o clima e&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2815,"featured_media":28033,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false},"categories":[1608,1612,2134],"tags":[2607,2105,2141,2850,2964,2427],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - 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