{"id":23846,"date":"2023-09-21T07:59:49","date_gmt":"2023-09-21T10:59:49","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=23846"},"modified":"2024-10-04T00:19:03","modified_gmt":"2024-10-04T03:19:03","slug":"ja-existe-um-apagamento-da-pandemia-por-nao-sabermos-lidar-com-tantas-perdas-joanneliese-freitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/ja-existe-um-apagamento-da-pandemia-por-nao-sabermos-lidar-com-tantas-perdas-joanneliese-freitas\/","title":{"rendered":"\u201cJ\u00e1 existe um apagamento da pandemia por n\u00e3o sabermos lidar com tantas perdas\u201d | Joanneliese Freitas"},"content":{"rendered":"<p>A solid\u00e3o de todos e o desamparo de muitos, ambas situa\u00e7\u00f5es da crise de Covid-19, t\u00eam seu espa\u00e7o no pacote chamado de \u201clegado\u201d da pandemia. \u00c9 esse conjunto de problemas para a sa\u00fade p\u00fablica que o Brasil precisar\u00e1 enfrentar nos pr\u00f3ximos anos \u2014 aumento de fatores de risco para suic\u00eddio, mais pessoas com ansiedade e depress\u00e3o. Por\u00e9m: teremos pol\u00edticas p\u00fablicas para isso? Estamos dispostos a revisitar nossas dores para cobrar das autoridades o que \u00e9 preciso?<\/p>\n<p>A professora Joanneliese de Lucas Freitas, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), se dedica ao estudo da psicologia da morte e coordena projetos de extens\u00e3o da \u00e1rea h\u00e1 cerca de dez anos. Lida, portanto, com pessoas que enfrentam essa quest\u00e3o em diferentes grupos sociais.<\/p>\n<p>Entre 2020 e 2021, o <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lutopsicologiaufpr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">projeto &#8220;Luto: viv\u00eancias e possibilidades\u201d<\/a> manteve um canal de atendimento para enlutados por Covid-19 que acolheu pessoas de todo o Brasil e, hoje, parte desse grupo continua frequentando os plant\u00f5es no <a href=\"http:\/\/www.humanas.ufpr.br\/portal\/psicologia\/centro-de-psicologia-aplicada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Centro de Psicologia Aplicada (CPA)<\/a> da UFPR.<\/p>\n<p>Joanneliese acredita que, a despeito do grave cen\u00e1rio para a sa\u00fade mental no pa\u00eds, j\u00e1 est\u00e1 em curso um processo de invisibiliza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias decorrentes da crise sanit\u00e1ria. Os ind\u00edcios disso v\u00e3o al\u00e9m do fato de a pandemia ainda n\u00e3o ter acabado, mas j\u00e1 pouco se falar dela.<\/p>\n<p>As den\u00fancias tamb\u00e9m v\u00e3o se apagando, assim como as necessidades dos grupos mais atingidos pelos efeitos psicol\u00f3gicos \u2014 os brasileiros em vulnerabilidade social, as v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica, os ind\u00edgenas, os idosos, as pessoas com doen\u00e7as cr\u00f4nicas, os profissionais de sa\u00fade, as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Nesta entrevista \u00e0 <em>Ci\u00eancia UFPR<\/em>, Joanneliese faz um balan\u00e7o das quest\u00f5es de sa\u00fade mental relacionadas \u00e0 pandemia, os 20 anos da campanha Setembro Amarelo e aproveita para desfazer mitos, como o de que o luto ocorre em etapas: \u201c\u00c9 uma experi\u00eancia intr\u00ednseca \u00e0 vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Ficar sozinho em casa por longo per\u00edodo, pouco contato humano, no in\u00edcio com pouca compreens\u00e3o sobre a Covid-19, com queda de remunera\u00e7\u00e3o, perdendo entes queridos e sem poder se despedir deles. Uma parte substancial do que enfrentamos na pandemia pode ser considerada uma esp\u00e9cie de tortura psicol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Joanneliese Freitas <span style=\"color: #cf6777;\">|\u00a0<\/span><\/strong>Considero que n\u00e3o devemos chamar de tortura o que vivemos durante os per\u00edodos de isolamento f\u00edsico, sob o risco de invisibilizarmos a tortura e seus efeitos avassaladores sobre uma vida, uma fam\u00edlia e uma sociedade que a aceita e a perpetua. A tortura diz respeito a uma agress\u00e3o violenta, f\u00edsica ou psicol\u00f3gica, perpetrada de modo a produzir dor ou sofrimento, seja para obter algo em troca ou pelo simples prazer de quem a pratica. Em nosso pa\u00eds ela \u00e9 comumente praticada pelo Estado sob o sil\u00eancio da maior parte da sociedade e n\u00e3o pode ser invisibilizada.<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo isso acontecendo no caso da pandemia. Na pandemia, vivemos uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>As emerg\u00eancias s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es inesperadas e anormais, provocadas por desastres naturais ou outros fatores, tais como uma pandemia ou surto. Causam preju\u00edzos de diversos tipos para a sociedade, com danos que implicam o comprometimento de resposta do poder p\u00fablico. Quando excedem o poder de resposta desse poder, podem ser consideradas elas mesmas situa\u00e7\u00f5es de desastre.<\/p>\n<p>No caso da pandemia de Covid-19, era urgente a aplica\u00e7\u00e3o de medidas de preven\u00e7\u00e3o, controle e conten\u00e7\u00e3o de riscos, danos e agravos \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, tal como definido pelo pr\u00f3prio<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2011\/decreto\/d7616.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Decreto 7.616 de 2011<\/a>, que criou a For\u00e7a Nacional do SUS, a ser mobilizada em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia. O problema \u00e9 que frequentemente os governos e os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos n\u00e3o conseguem desenvolver a\u00e7\u00f5es que possam diminuir n\u00e3o apenas os impactos imediatos da emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, mas tamb\u00e9m impactos decorrentes. Ou simplesmente ignoram essas a\u00e7\u00f5es. Os impactos decorrentes foram muitos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full alignleft\" src=\"https:\/\/i.giphy.com\/media\/v1.Y2lkPTc5MGI3NjExMXZzZXd5YTk0YTRmOWwzMWxnN3VpNzY4cW5rN2tuYTB4NG5qYXh2aCZlcD12MV9pbnRlcm5hbF9naWZfYnlfaWQmY3Q9Zw\/yGa6tzKMAp3IjlB2xx\/giphy.gif\" width=\"480\" height=\"480\" \/><\/p>\n<p>Estudos ainda est\u00e3o sendo conduzidos para que possamos compreender melhor os impactos de tudo o que vivemos nos primeiros anos da pandemia. Entretanto percebo uma invisibiliza\u00e7\u00e3o desse per\u00edodo, como se j\u00e1 tivesse se encerrado, de modo que muitos hoje inclusive esquecem que ainda vivemos uma pandemia e que os efeitos do v\u00edrus Sars-Cov-2 no organismo humano e as reinfec\u00e7\u00f5es sucessivas ainda est\u00e3o para serem mais bem compreendidos.<\/p>\n<p>Esse apagamento, de certo modo, j\u00e1 \u00e9 um ind\u00edcio daquilo que todos n\u00f3s sabemos na experi\u00eancia vivida, cotidiana: n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil olhar para tr\u00e1s e lidar com as perdas e dificuldades que tivemos que enfrentar durante esse per\u00edodo, que n\u00e3o foram poucas, nem de pequena monta.<\/p>\n<p>Assim como \u00e9 um ind\u00edcio da maneira como lidamos com as popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis. Se elas ainda s\u00e3o ou est\u00e3o vulner\u00e1veis ao v\u00edrus, \u201cque deem conta\u201d. N\u00e3o h\u00e1 ader\u00eancia coletiva de fato \u00e0 prote\u00e7\u00e3o desses grupos, tais como idosos e doentes cr\u00f4nicos.<\/p>\n<blockquote><p>De um ponto de vista macro, o Brasil tem um hist\u00f3rico de n\u00e3o se preparar para emerg\u00eancias e desastres, e nem costuma lidar apropriadamente com suas consequ\u00eancias e impactos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Geralmente, atuamos apenas durante o desastre e as a\u00e7\u00f5es preventivas, pr\u00e9-desastre, e de cuidado posterior, p\u00f3s-desastre, s\u00e3o negligenciadas. Vide a falta de estudos e assist\u00eancia a pacientes com Covid longa e aos enlutados da pandemia, por exemplo. Ou mesmo os repetidos problemas com enchentes na regi\u00e3o Sul do Brasil ou deslizamentos no Sudeste nos per\u00edodos chuvosos. Mesmo quando tais a\u00e7\u00f5es ocorrem, em geral, s\u00e3o prec\u00e1rias.<\/p>\n<p><b>Como um epis\u00f3dio hist\u00f3rico t\u00e3o sui generis como uma pandemia pode ser abordado \u00e0 luz da fenomenologia?<\/b><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>JF <span style=\"color: #cf6777;\">|\u00a0<\/span><\/strong>A fenomenologia, grosso modo, procura descrever a experi\u00eancia vivida imediata do mundo, pr\u00e9-reflexiva, isto \u00e9, anterior a qualquer reflex\u00e3o, por meio do corpo, do tempo, do espa\u00e7o e das rela\u00e7\u00f5es com os outros. A fenomenologia \u00e9 a tentativa de refletir sobre esse campo sens\u00edvel, irrefletido.<\/p>\n<p>Antes de pensar brevemente a pandemia sob essa perspectiva, \u00e9 importante ressaltar que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esgotar a reflex\u00e3o sobre a pandemia sob nenhum vi\u00e9s, assim como compreender que ela foi vivida a partir de m\u00faltiplos lugares e condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Muitos n\u00e3o acreditaram \u2014 e n\u00e3o acreditam at\u00e9 hoje \u2014 na letalidade do v\u00edrus, muitos outros foram obrigados a enfrentar seus desafios para que os servi\u00e7os essenciais \u2014 e sua sobreviv\u00eancia \u2014 pudessem ser garantidos. Outros tantos n\u00e3o tinham uma casa acolhedora o suficiente para se manter por dias a fio no mesmo ambiente, \u00e0s vezes min\u00fasculo, \u00e0s vezes sem condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de sobreviv\u00eancia ou conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Entretanto, uma coisa que me chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que no in\u00edcio da pandemia havia uma compreens\u00e3o compartilhada por muitos de que est\u00e1vamos vivendo a mesma experi\u00eancia e que ser\u00edamos impactados como humanidade, com o desenvolvimento de empatia e maior senso comunit\u00e1rio. Completamente equivocado.<\/p>\n<blockquote><p>O que vimos foram milhares de precariedades, vulnerabiliza\u00e7\u00f5es intensificadas e mortes invisibilizadas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para pensar em termos fenomenol\u00f3gicos, parto da constata\u00e7\u00e3o de que a experi\u00eancia da pandemia foi para a nossa gera\u00e7\u00e3o, in\u00e9dita, com altera\u00e7\u00f5es importantes da nossa experi\u00eancia vivida imediata. Toda experi\u00eancia individual \u00e9 sempre vivida de modo singular, por\u00e9m compartilhada em uma comunidade, quando temos a oportunidade de configur\u00e1-la como temporalidade ao historiciz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Ao olharmos para a hist\u00f3ria, temporalizando nossas experi\u00eancias, temos a oportunidade de instituir sentidos, organizando o que aconteceu e abrindo perspectiva para o que pretendemos fazer e realizar a partir desse presente.<\/p>\n<blockquote><p>Nos seus primeiros anos, em especial nos primeiros momentos, a pandemia imp\u00f4s uma experi\u00eancia de ruptura e mesmo de desaparecimento de um mundo presumido.<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando vivemos cotidianamente, vivemos a partir da compreens\u00e3o de que o mundo est\u00e1 a\u00ed, existe e continuar\u00e1 a se dar da mesma forma. Houve uma suspens\u00e3o daquilo que acredit\u00e1vamos ser o esperado e o inesperado se imp\u00f4s. O imperativo do distanciamento f\u00edsico afetou nossas experi\u00eancias relacionais e interpessoais. Deparamos com um mundo novo, que contrariou nosso sentimento cotidiano de previsibilidade e controle.<\/p>\n<p>Todas as certezas da experi\u00eancia pr\u00e9-reflexiva tamb\u00e9m foram afetadas: o modo como nos orientamos corporalmente no mundo, em dire\u00e7\u00e3o aos outros e aos objetos, impactando nosso modo de espacializar se alterou. N\u00e3o sab\u00edamos mais como usar o corpo e nos aproximar do outro.<\/p>\n<p>O que geralmente realizamos sem pensar, \u201cautomaticamente\u201d, como abra\u00e7ar ao cumprimentar algu\u00e9m, precisou ser repensado, impondo uma artificialidade aos gestos e um controle corporal que nos afetou com certo estranhamento do pr\u00f3prio corpo \u2014 m\u00e1scaras, \u00e1lcool gel, distanciamento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full alignleft\" src=\"https:\/\/i.giphy.com\/media\/v1.Y2lkPTc5MGI3NjExMXk4ZmxyajQ3cHBrdW9lamxyYjh1N3JqMXp6ODg5enl1amYzZ21mcSZlcD12MV9pbnRlcm5hbF9naWZfYnlfaWQmY3Q9Zw\/WgzAxMURtMmclwNyqV\/giphy.gif\" width=\"480\" height=\"480\" \/><\/p>\n<p>A passagem do tempo tamb\u00e9m foi experimentada de modo diferente para aqueles que por um ou outro motivo puderam se manter em casa. O tempo era vivido a partir de uma esp\u00e9cie de repeti\u00e7\u00e3o infinita do presente e n\u00e3o mais como uma fluidez em dire\u00e7\u00e3o ao futuro, as rela\u00e7\u00f5es com os outros passaram a ser mediadas por meios virtuais, mudando o modo de alcan\u00e7ar e vivenciar o corpo do outro e sua exist\u00eancia.<\/p>\n<blockquote><p>O que era habitual se tornou estranho e o estranho, habitual, no chamado \u201cnovo normal\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Todas essas mudan\u00e7as engendravam questionamentos existenciais importantes, especialmente pela quebra das ilus\u00f5es diante da finitude e do mundo presumido. Nos pergunt\u00e1vamos: o que vai nos acontecer nos pr\u00f3ximos dias ou meses? Quando poderemos nos ver novamente? Por que uma pandemia agora? Ser\u00e1 que estamos seguros? O v\u00edrus abater\u00e1 a mim ou a algu\u00e9m querido? Por que comigo? Ser\u00e1 que sobreviveremos? Qual o sentido de tudo o que estamos fazendo?<\/p>\n<p>Viv\u00edamos uma situa\u00e7\u00e3o-limite. Segundo [Karl] Jaspers, um importante fil\u00f3sofo e psiquiatra refer\u00eancia para a fenomenologia, situa\u00e7\u00e3o-limite s\u00e3o aquelas nas quais n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de vislumbrar para al\u00e9m delas, adiante, pois s\u00e3o sem possibilidade de modifica\u00e7\u00e3o, mas que nos fazem l\u00facidos diante da exist\u00eancia, sendo nossa \u00fanica sa\u00edda, nos rendermos a elas. Essa rendi\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da vida carrega consigo quest\u00f5es, tais como as colocadas acima.<\/p>\n<blockquote><p>Diante do vazio dos dias absolutamente iguais e repetitivos, nos debatemos entre a amea\u00e7a do v\u00edrus e a amea\u00e7a da fome e do desemprego.<\/p><\/blockquote>\n<p>A vulnerabilidade que muitos sentiram nesse momento, j\u00e1 era cotidiana para grande parte da popula\u00e7\u00e3o, o que nessa ocasi\u00e3o, deixou os vulner\u00e1veis mais vulner\u00e1veis. Fomos nos polarizando enquanto sociedade, \u00e0s voltas de um conflito irreal entre sa\u00fade e economia, nos esquecendo de que estamos sempre falando de vidas e de sua fr\u00e1gil rela\u00e7\u00e3o com as pol\u00edticas p\u00fablicas e os modos comunit\u00e1rios de nos apoiarmos.<\/p>\n<p>Todas essas fragilidades foram escancaradas. Talvez isso explique porque quisemos t\u00e3o rapidamente voltar \u00e0 \u201cvida de antes\u201d, com seus apagamentos e oculta\u00e7\u00f5es das desigualdades, e seja uma oportunidade de pensar o nosso papel na sustenta\u00e7\u00e3o e invisibiliza\u00e7\u00e3o dessas desigualdades.<\/p>\n<p><strong>Avalia que a pandemia pode ter alterado a forma como percebemos o luto? Alguma das etapas dele, por exemplo, pode ser estendida, suprimida ou etc.? D\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o maior de incredulidade?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>JF <span style=\"color: #cf6777;\">|\u00a0 <\/span><\/strong>Antes de responder a essa quest\u00e3o, \u00e9 importante compreender que luto n\u00e3o se d\u00e1 por etapas ou fases, n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia pr\u00e9-programada. \u00c9 uma experi\u00eancia intr\u00ednseca \u00e0 vida, que faz parte do existir. N\u00e3o h\u00e1, portanto, sentido em falar de extens\u00e3o ou supress\u00e3o.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno do luto n\u00e3o \u00e9 de antem\u00e3o um processo ou uma perda, nem mesmo uma dor, mas \u00e9 a experi\u00eancia vivida por cada um de forma \u00fanica e singular, a partir do desaparecimento (morte) de algu\u00e9m com quem compartilh\u00e1vamos um mundo, tornando o mundo carente de significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De certo modo, \u00e9 o desaparecimento n\u00e3o s\u00f3 de algu\u00e9m significativo, mas de si mesmo, pois n\u00e3o serei a mesma pessoa que fui naquela rela\u00e7\u00e3o em nenhuma outra. \u00c9 tamb\u00e9m desaparecimento do pr\u00f3prio mundo, pois aquele mundo partilhado simplesmente deixa de existir.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full alignleft\" src=\"https:\/\/i.giphy.com\/media\/v1.Y2lkPTc5MGI3NjExbzczejRpajhhZDIwYmg3MnRsb3RwYTNtaHgzbGtzbXYwa2tqZGxpeiZlcD12MV9pbnRlcm5hbF9naWZfYnlfaWQmY3Q9Zw\/HEUpW7XjkjRkIggJOx\/giphy-downsized-large.gif\" width=\"480\" height=\"480\" \/><\/p>\n<p>Entretanto, ficamos enlutados pois embora tenha desaparecido, esse outro persiste em minha carne e no mundo, somos inclusive capazes de lhe dar uma quase-presen\u00e7a, por meio das coisas, de um perfume, roupa ou m\u00fasica preferida, mas uma presen\u00e7a que se mostra na aus\u00eancia e n\u00e3o como presen\u00e7a efetiva.<\/p>\n<p>Dentro dessa experi\u00eancia, sempre localizada em um horizonte cultural, muitas afeta\u00e7\u00f5es podem acontecer: dor, perda, vazio, saudade, al\u00edvio, dentre v\u00e1rias outras. O luto \u00e9 a exacerba\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sensibilidade compartilhada entre o mundo e os corpos que o habitam.<\/p>\n<p>O que temos visto em nossa pesquisa \u00e9 que nos primeiros anos da pandemia, o luto foi vivido por muitos dentro de situa\u00e7\u00f5es existenciais limite, podendo e devendo ser compreendido sempre a partir de seu contexto, nesse caso o pand\u00eamico.<\/p>\n<p>As restri\u00e7\u00f5es de suporte social s\u00e3o geralmente vividas com impactos importantes por pessoas enlutadas, em qualquer contexto, pois como parte da vida, o luto vai estar presente no modo como pessoas enlutadas experimentam as rela\u00e7\u00f5es, o tempo, o pr\u00f3prio corpo e o espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Assim, para muitos, o sofrimento se relacionava \u00e0 impossibilidade de apoio das pessoas mais pr\u00f3ximas, \u00e0 impossibilidade de dar suporte ao seu ente querido enquanto doente no hospital, \u00e0 falta de engajamento social e comunit\u00e1rio para a evita\u00e7\u00e3o do espalhamento da doen\u00e7a e da morte, a desorganiza\u00e7\u00e3o governamental nas a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o e suporte \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, a diminui\u00e7\u00e3o ou a aus\u00eancia de ritos foi vivido ambiguamente, de formas muito variadas, onde muitos at\u00e9 preferiam sua supress\u00e3o, enquanto outros buscaram formas novas de viv\u00ea-los, tais como por meios virtuais, em especial quando entendiam estar cumprindo um papel importante junto ao falecido, social ou espiritualmente.<\/p>\n<p><strong>O mundo que &#8220;desapareceu&#8221; durante a pandemia pode ser resgatado na nossa mente?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>JF <span style=\"color: #cf6777;\">|\u00a0 <\/span><\/strong>Para a fenomenologia n\u00e3o h\u00e1 mente. H\u00e1 experi\u00eancias vividas, que organizamos e temporalizamos por meio dos sentidos que damos a elas. A vida n\u00e3o \u00e9 uma coisa feita com objetos que se retiram e se recolocam no mesmo lugar. Todas as experi\u00eancias que vivemos nos modificam e modificam o modo como nos orientamos e experimentamos as coisas, o mundo, o tempo, as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote><p>Assim, embora sempre vivamos em um mundo que apesar de sempre novo, incerto, pois sempre atualizado pelo fluxo dos acontecimentos e do imprevis\u00edvel da vida, est\u00e1 marcado pela hist\u00f3ria.<\/p><\/blockquote>\n<p>Habitualmente mantemos uma rela\u00e7\u00e3o de sentido com o mundo onde buscamos minimizar as ang\u00fastias e questionamentos derivados das incertezas da vida e \u201cnaturalizamos\u201d a vida como se ela fosse previs\u00edvel e totalmente control\u00e1vel, se mantendo sempre do mesmo jeito, da mesma forma, e que, presumidamente, n\u00e3o vai desaparecer ou se desorganizar.<\/p>\n<p>Esse modo de lidar com a vida tamb\u00e9m \u00e9 importante, pois se assim n\u00e3o fosse, n\u00e3o conseguir\u00edamos nem nos levantarmos da cama pela manh\u00e3 se, a cada vez, desconfi\u00e1ssemos que o ch\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1, se n\u00e3o nos assegur\u00e1ssemos dessa e de outras pequenas previsibilidades. O ruim \u00e9 quando essa naturaliza\u00e7\u00e3o do mundo e do existir, nos tira a possibilidade de viver a imprevisibilidade da vida e o novo que se apresenta a cada instante, perdendo outros poss\u00edveis que a vida nos abre.<\/p>\n<p>Hoje, p\u00f3s-emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, n\u00e3o p\u00f3s-pandemia, porque ela n\u00e3o acabou, voltamos a nos relacionar com o mundo a partir da perspectiva de que, pelo menos por hora, tudo vai se manter, at\u00e9 que a pr\u00f3xima situa\u00e7\u00e3o-limite, seja na vida coletiva ou privada, irrompa e nos fa\u00e7a tocar novamente o existir como ele \u00e9: aberto e imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas para sa\u00fade mental, o que devemos pensar com urg\u00eancia, especialmente depois da pandemia? Existem grupos sociais que requerem mais aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>JF <span style=\"color: #cf6777;\">|\u00a0<\/span><\/strong>As pol\u00edticas p\u00fablicas para a sa\u00fade mental j\u00e1 est\u00e3o precarizadas h\u00e1 muito tempo, desde antes da pandemia.<\/p>\n<blockquote><p>As urg\u00eancias s\u00e3o m\u00faltiplas e devem estar voltadas \u00e0s popula\u00e7\u00f5es vulnerabilizadas e invisibilizadas, condi\u00e7\u00f5es que foram acentuadas durante a pandemia.<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m dos grupos mais vulner\u00e1veis, acredito que \u00e9 importante um conjunto de a\u00e7\u00f5es que possam cuidar dos invis\u00edveis que a pandemia visibilizou, como os sem documenta\u00e7\u00e3o e sem acesso ao m\u00ednimo a uma sobreviv\u00eancia digna.<\/p>\n<p><strong>Qual o principal mito que voc\u00ea percebe na forma como as pessoas entendem o luto e como o enfrentam? O luto \u00e9 individual ou coletivo?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>JF <span style=\"color: #cf6777;\">|\u00a0<\/span><\/strong>Existem muitos mitos em torno da experi\u00eancia do luto, um dos mais difundidos \u00e9 que ele tem etapas, tem um tempo para acabar e tem uma maneira certa para viv\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Luto \u00e9 uma experi\u00eancia de vida que n\u00e3o termina, ela muda ao longo do tempo. Podemos ser revisitados de v\u00e1rias formas ao longo de nossas vidas pelos nossos lutos, n\u00f3s os experienciamos como \u201condas\u201d, que v\u00e3o e vem, \u00e0s vezes mais fortes, \u00e0s vezes mais fracas, \u00e0s vezes com saudade, \u00e0s vezes com sofrimento ou at\u00e9 mesmo al\u00edvio.<\/p>\n<p>Datas comemorativas ou mesmo pequenas coincid\u00eancias, cheiros, comidas ou eventos podem nos fazer vivenciarmos nosso luto novamente. Podemos ter lembran\u00e7as tristes ou felizes, mas aquilo que somos, o somos pelas rela\u00e7\u00f5es que vivemos, pelos sentidos de mundo e de vida que compartilhamos.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o somos capazes de superar a n\u00f3s mesmos, o que somos, o que o outro \u00e9 em n\u00f3s quando se foi. Apenas incorporamos sua aus\u00eancia, sentindo sua presen\u00e7a ao longo da vida de maneiras e com intensidades diferentes.<\/p>\n<p>H\u00e1 lutos individuais e lutos coletivos, estes \u00faltimos s\u00e3o experienciados quando h\u00e1 o sentimento de pertencimento a um grupo ou comunidade que conjuntamente vela a aus\u00eancia de algu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Gostaria que refletisse sobre as cr\u00edticas que s\u00e3o feitas sobre um excesso de abordagens individualizadas da sa\u00fade mental que acaba mascarando necessidades de pol\u00edticas p\u00fablicas. Assim, o pr\u00f3prio &#8220;Setembro Amarelo&#8221; acaba parecendo um eufemismo ou mesmo uma data comercial. V\u00ea sentido nessa argumenta\u00e7\u00e3o? Mesmo assim, existe um lado bom do Setembro Amarelo?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>JF <span style=\"color: #cf6777;\">|\u00a0 <\/span><\/strong>O programa <a href=\"https:\/\/yellowribbon.org\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cYellow Ribbon<\/a>\u201d, ou fita amarela em portugu\u00eas, teve in\u00edcio em 1994, por iniciativa de parentes e amigos e em mem\u00f3ria de Mike Emme [rapaz de 17 anos, morador do Colorado, nos EUA] que havia tirado a pr\u00f3pria vida. Seus pais enlutados escreveram um telefone que oferecia ajuda a quem estivesse em sofrimento em um papel amarelo brilhante, que foram distribu\u00eddos rapidamente pelos seus amigos a outras pessoas da comunidade. A cor amarela foi usada por seus amigos em mem\u00f3ria de Mike, que tinha um Mustang amarelo do qual ele gostava muito. Depois de tr\u00eas semanas, circulou a not\u00edcia de que uma menina recebeu ajuda em seu pr\u00f3prio sofrimento. \u00c9 um programa que existe at\u00e9 hoje nos EUA, bastante conhecido.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full\" src=\"https:\/\/i.giphy.com\/media\/v1.Y2lkPTc5MGI3NjExYnJvbHg0N3p5N3V5d253YzduYjFvZm04YnQyeGZtNnN1MzJlOWd6aSZlcD12MV9pbnRlcm5hbF9naWZfYnlfaWQmY3Q9Zw\/knstGdh6xbjY0obQxu\/giphy.gif\" width=\"480\" height=\"480\" \/>O primeiro Dia Mundial da Preven\u00e7\u00e3o do Suic\u00eddio foi lan\u00e7ado em 10 de setembro de 2003, em Estocolmo, como uma iniciativa da IASP (em portugu\u00eas, Associa\u00e7\u00e3o Internacional para a Preven\u00e7\u00e3o do Suic\u00eddio) e da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), chamando a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que tirar a pr\u00f3pria vida \u00e9 um evento que pode ser evitado.<\/p>\n<p>As fitas amarelas se tornaram s\u00edmbolo da campanha contra o suic\u00eddio e em 2015, come\u00e7aram a ser utilizadas no Brasil pelo Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida, pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria, no que ficou conhecido como Setembro Amarelo. Hoje, a campanha Setembro Amarelo conta com v\u00e1rias outras entidades parceiras e com o engajamento volunt\u00e1rio de diversas entidades civis.<\/p>\n<blockquote><p>Por um lado, essa \u00e9 uma campanha importante porque tem o papel de conscientiza\u00e7\u00e3o sobre o assunto e nos abre a oportunidade de discutirmos o suic\u00eddio de forma mais livre, que \u00e9 um tema tabu at\u00e9 hoje.<\/p><\/blockquote>\n<p>Desde ent\u00e3o, foi poss\u00edvel problematiz\u00e1-lo e visibilizar o sofrimento envolvido, seja de quem morre, seja de sua fam\u00edlia e amigos, al\u00e9m de abrir canais de comunica\u00e7\u00e3o sobre o tema, inclusive sobre as maneiras apropriadas de conduzir essa comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante muito tempo acreditou-se que era inapropriado falar sobre suic\u00eddio devido ao chamado \u201cefeito Werther\u201d, efeito de cont\u00e1gio logo ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o de algum outro caso de suic\u00eddio. Esse nome se deve ao que foi observado pela primeira vez ap\u00f3s o lan\u00e7amento do livro <em>Os Sofrimentos do Jovem Werther<\/em>, de 1774, de Goethe. O livro conta a hist\u00f3ria de um jovem que em intenso sofrimento amoroso, acaba por tirar a pr\u00f3pria vida. Em seguida, foram relatados uma s\u00e9rie de epis\u00f3dios onde outros jovens faziam o mesmo, do mesmo modo que o protagonista da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O livro chegou a ser banido em diversos lugares da Europa. O que hoje sabemos \u00e9 que existem formas adequadas de se falar sobre o tema, o que \u00e9 diferente de nunca tocar no assunto.<\/p>\n<p>As campanhas brasileiras ou mundiais sobre o suic\u00eddio buscam trat\u00e1-lo de modo a evitar quaisquer romantiza\u00e7\u00f5es ou evoca\u00e7\u00f5es de m\u00e9todos, mas buscam a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre o suic\u00eddio como um problema atual que ceifa muitas vidas e precisa ser encarado de frente, sem tabus.<\/p>\n<blockquote><p>O problema \u00e9 que com o tempo, houve alguns desdobramentos das campanhas que nem sempre foram colocados sob reflex\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>O primeiro deles talvez esteja j\u00e1 na sua origem, que trata o fen\u00f4meno do suic\u00eddio a partir de uma perspectiva estritamente individualizada e de adoecimento ps\u00edquico. Essa perspectiva tem sofrido in\u00fameras cr\u00edticas, pois invisibiliza os tra\u00e7os culturais do suic\u00eddio e perpetua a compreens\u00e3o de que pensar em tirar a pr\u00f3pria vida ou chegar a faz\u00ea-lo \u00e9 intr\u00ednseco a uma condi\u00e7\u00e3o de adoecimento e \u00e0 vida de um sujeito individual.<\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias de se tratar o suic\u00eddio apenas sob o vi\u00e9s do sofrimento e do adoecimento mental individual \u00e9 o fato de que sustentamos as a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o apenas em interven\u00e7\u00f5es individualizadas e voltadas para aqueles que s\u00e3o considerados doentes ou adoecidos de algum modo, deixando obscurecidas discuss\u00f5es sobre as condi\u00e7\u00f5es materiais que tamb\u00e9m afetam nosso viver e sentido de vida. Uma das dificuldades enfrentadas pelos enlutados nesses casos, se relaciona \u00e0 \u00eanfase de que todo ato de tirar a pr\u00f3pria vida pode ser evitado, basta que sejamos capazes de ver os \u201csinais\u201d.<\/p>\n<p>Essa compreens\u00e3o \u00e9 sustentada por esse vi\u00e9s estigmatizante e individualizado e fomentada pela ideia de que podemos controlar o imprevis\u00edvel da exist\u00eancia.<\/p>\n<blockquote><p>Testemunhamos enlutados se culpabilizarem, afetados por sofrimento intenso, pois sentem que n\u00e3o foram capazes de perceber esses sinais. A quest\u00e3o n\u00e3o discutida \u00e9 que nem todos que tiram a pr\u00f3pria vida d\u00e3o sinais e nem todas as formas de evita\u00e7\u00e3o s\u00e3o de fato eficazes.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o estou afirmando que n\u00e3o devemos olhar para tais aspectos, mas que acreditar que temos controle total sobre esse ou qualquer outro ato humano deveria ser discutido de forma mais aprofundada e n\u00e3o apenas do ponto de vista individualizado, sobrecarregando familiares e amigos, em detrimento de um apoio mais profundo.<\/p>\n<p>O suic\u00eddio \u00e9 um fen\u00f4meno complexo e que precisa ser pensado em toda sua complexidade, sem compreens\u00f5es apressadas ou generalizantes, mas dentro do contexto e no cerne de cada vida singular.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full alignleft\" src=\"https:\/\/i.giphy.com\/media\/v1.Y2lkPTc5MGI3NjExdXR3a3JuYzIza3N5N2Y0MmN3Y2Z4MGsydWEyc3phZm15NWpyMms3ciZlcD12MV9pbnRlcm5hbF9naWZfYnlfaWQmY3Q9Zw\/QVte5Cr9nbI4pbGXVH\/giphy.gif\" width=\"480\" height=\"480\" \/>A pr\u00f3pria OMS j\u00e1 discute que \u00e9 importante desvincularmos o suic\u00eddio da depress\u00e3o, entendendo-o como um ato mais complexo e vinculado tamb\u00e9m a outros fatores, para al\u00e9m do sofrimento mental. E ainda, as cr\u00edticas a essa abordagem do suic\u00eddio nos fazem ampliar a compreens\u00e3o de que o sofrimento mental \u00e9 um evento individual apenas. Embora seja singular e vivido por algu\u00e9m em particular, ele n\u00e3o est\u00e1 separado das condi\u00e7\u00f5es materiais, hist\u00f3ricas e comunit\u00e1rias, haja visto o luto coletivo por exemplo, ou o sofrimento vivido coletivamente em situa\u00e7\u00f5es de desastre.<\/p>\n<p>O sofrimento de uma vida prec\u00e1ria e sem lazer, sem sa\u00fade e bem-estar, est\u00e1 intimamente relacionado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es estruturais da sociedade e ao alcance ou fracasso das pol\u00edticas p\u00fablicas, por exemplo. Tais condi\u00e7\u00f5es se mant\u00e9m invisibilizadas e s\u00e3o tratadas como se n\u00e3o existissem em muitas das formas medianas de engajamento perpetuadas pela campanha.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, dados da OMS apontam que cerca de 75% dos casos de suic\u00eddio ocorrem em pa\u00edses de baixa e m\u00e9dia renda. N\u00e3o enxergar e n\u00e3o lutar por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, lazer, boa alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e trabalho \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de n\u00e3o cuidar da vida das pessoas. Embora v\u00e1rios autores, desde Durkheim, tenham apontado que o suic\u00eddio \u00e9 fundamentalmente um ato com ra\u00edzes culturais e sociais, esse n\u00e3o \u00e9 um fator seriamente analisado para al\u00e9m dos artigos e discuss\u00f5es te\u00f3ricas. N\u00e3o se tornou ainda mote para pensar pol\u00edticas p\u00fablicas de modo mais efetivo.<\/p>\n<blockquote><p>O modo como a campanha do Setembro Amarelo foi adotada no Brasil levou a outras distor\u00e7\u00f5es, infelizmente. Al\u00e9m do enfoque exclusivamente individual, com responsabiliza\u00e7\u00e3o do sujeito ou de um adoecimento particular, frequentemente testemunhamos a repeti\u00e7\u00e3o impensada de um slogan.<\/p><\/blockquote>\n<p>Um exemplo comum disso \u00e9 que neste m\u00eas proliferam na internet ofertas de apoio e suporte a pessoas em sofrimento que s\u00e3o vazios ou prec\u00e1rios. Frequentemente s\u00e3o oferecidos por pessoas ou institui\u00e7\u00f5es que na realidade n\u00e3o est\u00e3o preparadas para sustentar essa escuta, por simplesmente n\u00e3o terem forma\u00e7\u00e3o adequada para tal. Mas est\u00e3o interessados em lucrar com a imagem que essa oferta ou defesa prov\u00ea nas redes sociais e fora delas, vendendo medica\u00e7\u00e3o ou terapias por vezes duvidosas e sem sustenta\u00e7\u00e3o rigorosa.<\/p>\n<p>Outro problema muito discutido \u00e9 o fato de as a\u00e7\u00f5es do Setembro Amarelo se concentrarem em um \u00fanico m\u00eas, frequentemente sobrecarregando equipamentos de sa\u00fade e seus profissionais, carecendo de a\u00e7\u00f5es que sustentem um olhar cauteloso e rigoroso sobre o tema ao longo de todo o ano.<\/p>\n<p>Do ponto de vista de uma reflex\u00e3o mais aprofundada e existencial, podemos perceber que ao buscarmos solu\u00e7\u00f5es e explica\u00e7\u00f5es monol\u00edticas para o problema, h\u00e1 algo que nos escapa: o fato de que morrer \u00e9 sempre uma possibilidade. Vivemos em uma sociedade onde o morrer e a morte s\u00e3o tabus. Discutir o bem-viver, inclui a discuss\u00e3o sobre a vida em toda a sua complexidade, com seus prazeres e sofrimentos, em sua dimens\u00e3o singular e comunit\u00e1ria, e sua condi\u00e7\u00e3o de finitude.<\/p>\n<p>Para alcan\u00e7ar uma comunidade que valorize e viabilize o bem-viver, paradoxalmente precisamos levar em conta a possibilidade da morte e do sofrimento como condi\u00e7\u00f5es humanas tamb\u00e9m, o que \u00e9 extremamente dif\u00edcil em uma sociedade da hipervaloriza\u00e7\u00e3o do prazer e da apar\u00eancia, com pouco ou nenhum espa\u00e7o para o compartilhamento da dor, com desprezo pela diferen\u00e7a e pelas pessoas em vulnerabilidade. Bem-viver inclui todas as dimens\u00f5es do humano.<\/p>\n<p>Assim, compreender o ato de tirar a pr\u00f3pria vida de modo n\u00e3o apressado \u00e9 n\u00e3o tom\u00e1-lo de antem\u00e3o como desmedida ou coragem de algu\u00e9m, como uma quest\u00e3o social ou individual, como nos ensina a professora Ana Maria Feijoo, professora titular da Uerj, mas como um ato humano.<\/p>\n<p>Ela afirma: \u201c<a href=\"http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1809-52672019000100012&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O suic\u00eddio \u00e9 um ato que guarda em seu interior tanta complexidade e mist\u00e9rio que tal decis\u00e3o merece ser acompanhada no \u00e2mbito da pr\u00f3pria experi\u00eancia daquele que decide retirar-se da vida<\/a>. Para tanto, faz-se necess\u00e1rio posicionar-se frente \u00e0quele que se encontra envolvido com o desejo da morte volunt\u00e1ria, de modo a n\u00e3o guardar nenhum posicionamento moralizante, estigmatizante ou preconceituoso\u201d.<\/p>\n<p>Acompanho a professora entendendo que ao nos posicionarmos junto a quem cogita morrer, colocando-nos abertos e presentes, acolhendo o humano em sua complexidade, sem moraliza\u00e7\u00f5es, mas com interesse genu\u00edno por aquela vida, estaremos resguardando mais vidas, ao inv\u00e9s de tentar disciplin\u00e1-la ou entend\u00ea-la como pura desmedida ou desraz\u00e3o, tal como vemos se perpetuar hoje, sem nunca esquecer que esse colocar-se presente tamb\u00e9m diz respeito \u00e0 busca de uma vida digna a todos.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u2795 Acesse as cartilhas \u201c<a href=\"https:\/\/plataformaintegrada.mec.gov.br\/recurso\/357543\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luto e profissionais de sa\u00fade<\/a>\u201d; \u201c<a href=\"https:\/\/plataformaintegrada.mec.gov.br\/recurso\/357871\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mitos sobre o luto<\/a>\u201d; \u201c<a href=\"https:\/\/plataformaintegrada.mec.gov.br\/recurso\/357318\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Como ajudar algu\u00e9m em luto<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/plataformaintegrada.mec.gov.br\/recurso\/359573\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Como falar de luto com crian\u00e7as?<\/a>\u201d, desenvolvidas ao longo da disciplina &#8220;Psicologia da morte&#8221; do curso de Psicologia da UFPR<\/span><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Destaques feitos com v\u00eddeos de: Techo\/Flickr; Anna Nekrashevich\/Pexels; Pat Whelen\/Pexels; Kampus Production\/Pexels; e Mart Production\/Pexels<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A solid\u00e3o de todos e o desamparo de muitos, ambas situa\u00e7\u00f5es da crise de Covid-19, t\u00eam seu espa\u00e7o no pacote&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2800,"featured_media":23872,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false},"categories":[1710,1614,1618],"tags":[2243,1139,2327,2326,1138,2328,2329,1688],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - 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