{"id":23008,"date":"2023-03-08T08:00:10","date_gmt":"2023-03-08T11:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=23008"},"modified":"2023-07-11T14:20:47","modified_gmt":"2023-07-11T17:20:47","slug":"quanto-mais-subimos-na-carreira-cientifica-menos-mulheres-cientistas-encontramos-camila-silveira-da-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/quanto-mais-subimos-na-carreira-cientifica-menos-mulheres-cientistas-encontramos-camila-silveira-da-silva\/","title":{"rendered":"&#8220;Quanto mais subimos na carreira cient\u00edfica menos mulheres cientistas encontramos&#8221; | Camila Silveira da Silva"},"content":{"rendered":"<p>A Ci\u00eancia UFPR conversou com a professora do Departamento de Qu\u00edmica da UFPR, Camila Silveira da Silva. A pesquisadora falou sobre os obst\u00e1culos que as mulheres ainda encontram no ambiente da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e sobre o trabalho do projeto <a href=\"https:\/\/meninasemulheresnascienciasufpr.blogspot.com\">Meninas e Mulheres nas Ci\u00eancias (MMC)<\/a>, que coordena.<\/p>\n<p>A professora, que \u00e9 licenciada em Qu\u00edmica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) onde tamb\u00e9m cursou mestrado e doutorado em Educa\u00e7\u00e3o para Ci\u00eancia, vem estudando as trajet\u00f3rias das mulheres cientistas, especialmente nas ci\u00eancias exatas, buscando destacar suas contribui\u00e7\u00f5es e estudando as dificuldades que a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero imp\u00f5e para mulheres nas carreiras cient\u00edficas, tendo trabalhos tamb\u00e9m com a tem\u00e1tica de museus de ci\u00eancia e desenvolvimento de materiais did\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Os materiais e atividades desenvolvidas no projeto de extens\u00e3o j\u00e1 foram adotados em escolas por todo o Brasil. A iniciativa d\u00e1 visibilidade \u00e0s trajet\u00f3rias de mulheres que marcaram a hist\u00f3ria da ci\u00eancia, oferecendo forma\u00e7\u00e3o para professores e atuando na cria\u00e7\u00e3o de material did\u00e1tico com foco em pesquisadoras de destaque, al\u00e9m de atividades aplicadas diretamente a estudantes tanto de forma presencial quanto online.<\/p>\n<figure id=\"attachment_23022\" aria-describedby=\"caption-attachment-23022\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Premio-Estrategia-ODS9.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-23022\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Premio-Estrategia-ODS9.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Premio-Estrategia-ODS9.jpg 1200w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Premio-Estrategia-ODS9-300x200.jpg 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Premio-Estrategia-ODS9-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Premio-Estrategia-ODS9-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23022\" class=\"wp-caption-text\">O projeto Meninas e Mulheres nas Ci\u00eancias foi primeiro lugar no pr\u00eamio Estrat\u00e9gia ODS que destaca projetos que contribuem para os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS) das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Foto: ODS\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>A ideia \u00e9 oferecer uma perspectiva que rompa com o vi\u00e9s masculino que normalmente \u00e9 dado para o ambiente cient\u00edfico nesse tipo de material, oferecendo uma alternativa que estimule meninas a se interessar pelo campo cient\u00edfico, rompendo com o estere\u00f3tipo machista prevalecente. A iniciativa tamb\u00e9m apoia a pesquisa em torno do tema orientando trabalhos de pesquisa na gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>No seu trabalho sobre as trajet\u00f3rias de mulheres nas ci\u00eancias exatas o que mais chamou a sua aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Comecei a trabalhar com o tema h\u00e1 mais de 15 anos, com a realiza\u00e7\u00e3o de alguns estudos em materiais did\u00e1ticos sobre a presen\u00e7a feminina, analisando a rela\u00e7\u00e3o de alunas e alunos com a educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e depois fui desenvolvendo pr\u00e1ticas educativas que buscavam promover reflex\u00f5es sobre as quest\u00f5es de g\u00eanero no campo cient\u00edfico. No in\u00edcio, o que mais me chamava a aten\u00e7\u00e3o, era o apagamento das mulheres nos materiais did\u00e1ticos, a dificuldade de elaborar pr\u00e1ticas educativas pela falta de refer\u00eancias pedag\u00f3gicas nas Ci\u00eancias Exatas, os obst\u00e1culos para localizar dados biogr\u00e1ficos das cientistas&#8230; Conforme fui me envolvendo com algumas leituras, compreendendo melhor o cen\u00e1rio das desigualdades de g\u00eanero nas Exatas, passei a atuar mais diretamente com as mulheres cientistas, as j\u00e1 atuantes na carreira e aquelas em processo de forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, realizando diversas a\u00e7\u00f5es e pesquisas. Nestes casos, o que eu passei a notar foi a naturaliza\u00e7\u00e3o que elas tinham incorporado em suas pr\u00e1ticas profissionais dos processos de exclus\u00e3o de mulheres, da viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero ao partilharem suas trajet\u00f3rias de vida e acad\u00eamica.<\/p>\n<p><strong>Quais os principais obst\u00e1culos que as mulheres precisam enfrentar para se tornarem pesquisadoras?<\/strong><\/p>\n<p>A falta de incentivo, muitas vezes, vinda da fam\u00edlia, da escola e de outros espa\u00e7os sociais, desencorajando que meninas\/mulheres estudem e\/ou ingressem no espa\u00e7o acad\u00eamico. A desvaloriza\u00e7\u00e3o e os boicotes que mulheres cientistas passam, como ideias sendo apropriadas indevidamente por colegas homens de maior prest\u00edgio, a falta de apoio financeiro para realizarem seus projetos de pesquisa, vinda de processos que privilegiam a meritocracia, desconsideram as cientistas-m\u00e3es.<\/p>\n<p><strong>Ainda h\u00e1 muita discrimina\u00e7\u00e3o nos meios de pesquisa? De que tipo?<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhos liderados por mulheres, em diversas ocasi\u00f5es, s\u00e3o menos valorizados que aqueles que contam com lideran\u00e7a masculina. S\u00e3o em menor n\u00famero: as cita\u00e7\u00f5es de mulheres em artigos, teses, disserta\u00e7\u00f5es; as aprova\u00e7\u00f5es de projetos com financiamento; as confer\u00eancias principais nos congressos; a composi\u00e7\u00e3o nas bancas de concursos; as bolsas de produtividade em pesquisa; a presid\u00eancia de sociedades cient\u00edficas; etc. H\u00e1, ainda, laborat\u00f3rios, grupos de pesquisa, orientadoras(es) que n\u00e3o aceitam trabalhar com mulheres, ou se aceitam, as discriminam por seu g\u00eanero. A lista das situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o de mulheres na pesquisa cient\u00edfica \u00e9 imensa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_23026\" aria-describedby=\"caption-attachment-23026\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-02-11-07-11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-23026\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-02-11-07-11.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-02-11-07-11.jpg 958w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-02-11-07-11-225x300.jpg 225w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-02-11-07-11-766x1024.jpg 766w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-02-11-07-11-768x1026.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23026\" class=\"wp-caption-text\">Atividades como o &#8220;Bingo das Cientistas&#8221; leva a hist\u00f3ria de mulheres de destaque nas ci\u00eancias para as salas de aula. Foto Arquivo Meninas e Mulheres nas Ci\u00eancias<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>As mulheres j\u00e1 s\u00e3o maioria em praticamente todos os n\u00edveis educacionais, mesmo na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, mas quando observamos posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a nos meios acad\u00eamicos e entre os docentes, h\u00e1 quantidade desproporcional de homens. Poderia falar das causas desse desequil\u00edbrio?<\/strong><\/p>\n<p>Temos \u00e1reas acad\u00eamicas nas quais as mulheres ainda s\u00e3o minoria em todos os segmentos. E h\u00e1 pa\u00edses em que meninas e mulheres n\u00e3o possuem liberdade de escolha para estudar e ocupar espa\u00e7os acad\u00eamicos. E quando analisamos os cargos de lideran\u00e7a, mesmo nas \u00e1reas em que as mulheres s\u00e3o maioria na gradua\u00e7\u00e3o e na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, notamos o efeito tesoura: quanto mais subimos na carreira cient\u00edfica menos mulheres cientistas encontramos. As causas desse desequil\u00edbrio se devem a diversos fatores como sexismo, machismo, racismo, patriarcado, os pap\u00e9is sociais de g\u00eanero, que v\u00e3o estruturando um modelo de carreira cient\u00edfica a partir de padr\u00f5es que excluem e subalternizam as mulheres.<\/p>\n<p><strong>Como a quest\u00e3o de g\u00eanero impacta a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica? O que estamos perdendo com essa discrimina\u00e7\u00e3o contra a mulher?<\/strong><\/p>\n<p>A qualidade e o avan\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica s\u00e3o fortemente impactados com a falta de representatividade feminina, com a aus\u00eancia da diversidade na Ci\u00eancia. Estamos perdendo a capacidade de produzir novos conhecimentos, de desenvolver outras metodologias de estudo, de lan\u00e7ar novos olhares para os mesmos problemas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea teve alguma experi\u00eancia pessoal como estudante ou pesquisadora relacionada ao tema que levou a trabalhar o tema da desigualdade de g\u00eanero?<\/strong><\/p>\n<p>Decidi trabalhar com o tema por quest\u00f5es que sempre me incomodaram e que explicitavam os preconceitos e injusti\u00e7as sociais. N\u00e3o existe nenhuma mulher, em nenhum lugar social, que n\u00e3o tenha passado por uma situa\u00e7\u00e3o de ass\u00e9dio, viol\u00eancia, discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero Ter suas ideias\/pesquisas atribu\u00eddas a homens; ser interrompida em reuni\u00f5es por homens para dizerem a mesma coisa que voc\u00ea e levarem os cr\u00e9ditos pelo posicionamento quanto ao assunto debatido; ter que provar sua compet\u00eancia t\u00e9cnica, com maior dedica\u00e7\u00e3o, quando se \u00e9 muito mais qualificada para uma vaga que um colega homem; responder a perguntas sobre vida pessoal (maternidade, casamento, relacionamento afetivo) em processos seletivos\/concursos; mudar seu modo de falar, de se vestir, de se comportar para performar como o modelo padr\u00e3o de um cientista homem; ouvir coment\u00e1rios sexistas em aulas\/laborat\u00f3rios de pesquisa, apresenta\u00e7\u00f5es orais; etc. Estes s\u00e3o alguns exemplos de situa\u00e7\u00f5es vividas por mulheres cientistas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 se interessava pela ci\u00eancia quando crian\u00e7a, como isso influenciou na sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre fui muito curiosa, bastante questionadora e reflexiva sobre as situa\u00e7\u00f5es que observava, sou desde crian\u00e7a, motivada em buscar respostas e tentar resolver as injusti\u00e7as sociais. Com certeza, esse inc\u00f4modo e essa indigna\u00e7\u00e3o com as injusti\u00e7as sociais, me moveram, junto a outras mulheres, a propor um projeto que pudesse agir na nossa esfera de atua\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<figure id=\"attachment_23042\" aria-describedby=\"caption-attachment-23042\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-01-13-35-46.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-23042\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-01-13-35-46.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"958\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-01-13-35-46.jpg 1280w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-01-13-35-46-300x225.jpg 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-01-13-35-46-1024x766.jpg 1024w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/PHOTO-2022-08-01-13-35-46-768x575.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23042\" class=\"wp-caption-text\">Projeto explora atividades l\u00fadicas j\u00e1 conhecidas dos estudantes para trabalhar a trajet\u00f3ria de mulheres que se destacaram no campo cient\u00edfico. Foto: Arquivo Meninas e Mulheres nas Ci\u00eancias<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Poderia contar um pouco como o projeto Meninas e Mulheres na Ci\u00eancia surgiu? Quem idealizou, quem esteve envolvido e como chegaram nesse formato?<\/strong><\/p>\n<p>A equipe do Meninas e Mulheres nas Ci\u00eancias j\u00e1 vinha realizando a\u00e7\u00f5es sobre o tema, bem antes mesmo dele existir de modo institucionalizado como projeto de extens\u00e3o. Diante de tudo que t\u00ednhamos mapeado sobre o tema, nas a\u00e7\u00f5es realizadas anteriormente, consideramos fundamental registrar um projeto de extens\u00e3o na UFPR para marcar este espa\u00e7o na institui\u00e7\u00e3o, diante da relev\u00e2ncia dos assuntos e dos resultados que j\u00e1 v\u00ednhamos notando e dos dados produzidos. Assim, em 2019, fizemos a submiss\u00e3o da proposta para a Proec [Pr\u00f3-reitoria de Extens\u00e3o e Cultura] e o projeto passou a vigorar em fevereiro de 2020. A equipe inicial contava com professoras e estudantes de Gradua\u00e7\u00e3o e de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o do Setor de Ci\u00eancias Exatas da UFPR, sob minha lideran\u00e7a. Mas com a dissemina\u00e7\u00e3o do projeto nas diferentes m\u00eddias, a partir do <a href=\"https:\/\/meninasemulheresnascienciasufpr.blogspot.com\/2020\/05\/livreto-passatempos-mulheres-nas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Livro de Passatempos sobre as Mulheres Cientistas do Coronav\u00edrus<\/a> que lan\u00e7amos em maio de 2020, a equipe rapidamente foi ampliada, abrigando pessoas de outros Setores da UFPR, e de outras institui\u00e7\u00f5es. O formato que trabalhamos vem da experi\u00eancia acumulada da equipe no campo da Educa\u00e7\u00e3o e Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica.<\/p>\n<blockquote class=\"alignright\"><p>&#8220;Outra experi\u00eancia que gosto de compartilhar \u00e9 de v\u00e1rias alunas negras, de uma escola p\u00fablica perif\u00e9rica do Distrito Federal, querendo tirar fotografias com os desenhos de cientistas negras que elas estavam colorindo e dizendo o quanto elas se pareciam com elas, com suas m\u00e3es e irm\u00e3s&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Poderia contar sobre como s\u00e3o as atividades do projeto, quem voc\u00eas atendem, como foi a cria\u00e7\u00e3o dos produtos e tamb\u00e9m a recep\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O Meninas e Mulheres nas Ci\u00eancias atende p\u00fablicos diversos por meio de atividades espec\u00edficas para perfil de comunidade atendida. H\u00e1 trabalho sendo realizado com estudantes de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, T\u00e9cnica e Superior, com atua\u00e7\u00e3o da equipe em escolas, universidades, institutos federais, realizando atividades educativas para a promo\u00e7\u00e3o da equidade de g\u00eanero e divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Temos tamb\u00e9m produzido conte\u00fados para as redes sociais, alcan\u00e7ando o p\u00fablico para al\u00e9m das institui\u00e7\u00f5es educativas, chegando em pessoas que n\u00e3o possuem forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Atuamos tamb\u00e9m na forma\u00e7\u00e3o inicial e continuada de professoras(es), ofertando cursos, oficinas e palestras. A equipe realiza pesquisas cient\u00edficas sobre o tema, contando com orienta\u00e7\u00f5es de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, TCC, Mestrado Acad\u00eamico, Mestrado Profissional e Doutorado, gerando produ\u00e7\u00f5es especializadas. Nossos materiais e conte\u00fados j\u00e1 foram acessados em todos os Estados brasileiros e em mais de 50 pa\u00edses. Escolas de todos os Estados brasileiros j\u00e1 adotaram nossos livros de passatempos em suas atividades educativas. Temos dialogado com pessoas de diversas regi\u00f5es, fortalecendo a rede de mulheres cientistas e de divulgadoras de ci\u00eancia. Nossos produtos j\u00e1 foram pauta em diversos canais midi\u00e1ticos, atingindo milhares de pessoas. Recebemos, com grande frequ\u00eancia, relatos de experi\u00eancias sobre o uso dos nossos materiais, assim como tamb\u00e9m o relato de experi\u00eancias de vida de meninas e mulheres que se sensibilizaram e passaram por transforma\u00e7\u00f5es importantes a partir da pauta que trabalhamos.<\/p>\n<p><strong>Um dos focos do projeto \u00e9 trazer hist\u00f3rias inspiradoras de mulheres cientistas ao conhecimento do p\u00fablico. Dentre essas mulheres qual foi uma inspira\u00e7\u00e3o pessoal para voc\u00ea e por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Eu tomei contato com a hist\u00f3ria de vida da cientista Bertha Lutz antes de ingressar na Universidade, e isso me marcou bastante, pelo fato dela atuar em uma perspectiva pol\u00edtica em prol dos direitos das mulheres, ter se interessado por temas que eu tamb\u00e9m gostava muito, o que me marcou muito. Depois, j\u00e1 no primeiro ano do Curso de Licenciatura em Qu\u00edmica, tomei contato com as contribui\u00e7\u00f5es de Marie Curie e com as situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancias de g\u00eanero que ela viveu. Elas foram as que me impulsionaram, mas depois eu fui me inspirando em minhas professoras cientistas da Unesp e de outras Universidades, que passei a conhecer e admirar. E com o Meninas e Mulheres nas Ci\u00eancias, a lista de cientistas inspiradoras aumentou.<\/p>\n<figure id=\"attachment_23014\" aria-describedby=\"caption-attachment-23014\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Marie-Curie-colorido2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-23014\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Marie-Curie-colorido2.png\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Marie-Curie-colorido2.png 640w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Marie-Curie-colorido2-300x180.png 300w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23014\" class=\"wp-caption-text\">Marie Curie foi a primeira mulher a receber um pr\u00eamio Nobel, uma das mais importantes cientistas da hist\u00f3ria \u00e9 uma das inspira\u00e7\u00f5es da pesquisadora Camila Silveira da Silva, <a href=\"https:\/\/meninasemulheresnascienciasufpr.blogspot.com\/2020\/07\/marie-curie-primeira-mulher-cientista.html?fbclid=IwAR2ae131KXJqS4sxDkfybFaCWowQdo2qGznAmvEFFjHbOulj0QcblaTGPis\">veja a p\u00e1gina do projeto dedicada a ela<\/a>. Ilustra\u00e7\u00e3o: Marcelo Jean Machado.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Como o contato com a ci\u00eancia desde a vida escolar pode influenciar crian\u00e7as e adolescentes para seguir seu caminho como cientista ou mesmo como interessados pelas ci\u00eancias de modo geral?<\/strong><\/p>\n<p>A escola \u00e9 um dos principais espa\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o, de forma\u00e7\u00e3o e de socializa\u00e7\u00e3o. Um espa\u00e7o que transforma vidas. E, por toda a import\u00e2ncia que a escola tem na vida das pessoas, defendo que tenhamos uma educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que seja inclusiva, antirracista, feminista. Que as pr\u00e1ticas educativas docentes sejam atentas e atuantes neste sentido. Temos que garantir condi\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o dessas pr\u00e1ticas de educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, pois \u00e9 na escola que crian\u00e7as e adolescentes tomar\u00e3o contato com o conhecimento cient\u00edfico sistematizado e os seus valores sociais.<\/p>\n<p><strong>E como o contexto de desigualdade de g\u00eanero afeta essa quest\u00e3o para as meninas, o que \u00e9 importante para que elas possam se interessar mais quando a representa\u00e7\u00e3o do cientista \u00e9 geralmente masculina?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 fundamental que as meninas sejam motivadas com exemplos positivos de mulheres cientistas, encorajadas em seus sonhos pela escola e familiares, e tenham as condi\u00e7\u00f5es para que possam seguir seus estudos. Os materiais did\u00e1ticos precisam de diversos exemplos de mulheres cientistas, as alunas necessitam ter contato com as cientistas e com o ambiente de produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia protagonizado por mulheres, participar de a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o e de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A m\u00eddia tamb\u00e9m tem papel central nos modelos de cientistas que dissemina, necessitando ampliar e valorizar a diversidade de pessoas que s\u00e3o convidadas para as entrevistas, na imagem usada em uma mat\u00e9ria etc.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem alguma experi\u00eancia pessoal no projeto nas escolas que acha interessante contar para exemplificar?<\/strong><\/p>\n<p>Eu realizo atividades do MMC todas as semanas e coleciono momentos emocionantes. Me sensibilizou muito a fala de uma estudante transg\u00eanero, em uma atividade que realizamos de modo remoto em uma escola p\u00fablica do interior de S\u00e3o Paulo, dizendo o quanto ela estava se sentindo valorizada e reconhecida em sua exist\u00eancia, ao tratarmos da vida e obra de duas cientistas transg\u00eanero na atividade que realiz\u00e1vamos com um Bingo das Cientistas que produzimos. Outra experi\u00eancia que gosto de compartilhar \u00e9 de v\u00e1rias alunas negras, de uma escola p\u00fablica perif\u00e9rica do Distrito Federal, querendo tirar fotografias com os desenhos de cientistas negras que elas estavam colorindo e dizendo o quanto elas se pareciam com elas, com suas m\u00e3es e irm\u00e3s. Em uma escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil, uma aluna, depois de realizar as atividades com os quebra-cabe\u00e7as e jogo da mem\u00f3ria, me disse que nunca mais ia deixar as pessoas falarem que as meninas s\u00e3o menos inteligentes que os meninos, pois ela havia ganhado todas as partidas em seu grupo e era a \u00fanica menina. Tem tamb\u00e9m o relato de colegas cientistas que sempre dizem o quanto naturalizavam as discrimina\u00e7\u00f5es, viol\u00eancias de g\u00eanero por n\u00e3o terem o conhecimento e as reflex\u00f5es sobre a tem\u00e1tica. E as diversas estudantes de Gradua\u00e7\u00e3o e de P\u00f3s que se empoderaram ao protagonizarem as a\u00e7\u00f5es do MMC. S\u00e3o os resultados que fazem com que continuemos a agir, apesar de todos os obst\u00e1culos que insistem em colocar no nosso caminho.<\/p>\n<blockquote class=\"alignright\"><p>&#8220;No Brasil, precisamos avan\u00e7ar tamb\u00e9m em pol\u00edticas p\u00fablicas de amplia\u00e7\u00e3o da quantidade de museus de ci\u00eancias e de manuten\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es existentes&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Um dos focos do projeto \u00e9 criar material did\u00e1tico para tornar as atividades mais atrativas. Como isso impacta o interesse de crian\u00e7as e adolescentes?<\/strong><\/p>\n<p>Os materiais educativos que produzimos no Meninas e Mulheres nas Ci\u00eancias contribuem para despertar o interesse do p\u00fablico pela hist\u00f3ria de vida e pelos feitos das cientistas que divulgamos. Tamb\u00e9m t\u00eam como objetivo abordar os problemas e as causas da desigualdade de g\u00eanero no campo cient\u00edfico. Optamos por adotar a perspectiva da ludicidade nos materiais, por considerarmos que assim ter\u00edamos condi\u00e7\u00f5es atingir e engajar o nosso p\u00fablico. Optamos pela linguagem dos jogos e passatempos que circulam entre diferentes perfis de pessoas e j\u00e1 est\u00e3o bem estabelecidos em seus cotidianos, como \u00e9 o caso das palavras-cruzadas, dos ca\u00e7a-palavras, jogos da mem\u00f3ria, quebra-cabe\u00e7a e outros. Os materiais se tornam convidativos e, assim, conseguimos criar as condi\u00e7\u00f5es para tratarmos do tema.<\/p>\n<p><strong>Qual o papel dos museus de ci\u00eancia para a valoriza\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<p>Os museus de ci\u00eancias s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es fundamentais para a promo\u00e7\u00e3o da cultura cient\u00edfica, atuando de modo protagonista nos processos de educa\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o, populariza\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. As experi\u00eancias vividas nos museus contribuem com o entendimento sobre o processo de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico, com a valoriza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e as pr\u00e1ticas cient\u00edficas, disseminando temas cient\u00edficos de um modo que busca engajar o p\u00fablico e despertar o interesse da popula\u00e7\u00e3o. Ainda, colaboram com a educa\u00e7\u00e3o patrimonial, por meio de pr\u00e1ticas educativas centradas em objetos, aparatos e conhecimentos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos que possuem valor hist\u00f3rico e cultural. No Brasil, precisamos avan\u00e7ar tamb\u00e9m em pol\u00edticas p\u00fablicas de amplia\u00e7\u00e3o da quantidade de museus de ci\u00eancias e de manuten\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es existentes.<\/p>\n<blockquote class=\"alignright\"><p>&#8220;Como inspirar jovens para as Ci\u00eancias se o campo cient\u00edfico continuar sendo sexista, racista, elitista, excludente? Como despertar o interesse de crian\u00e7as e jovens se n\u00e3o temos boas condi\u00e7\u00f5es de trabalho nas escolas? Essas reflex\u00f5es precisam gerar a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas que tornem a carreira cient\u00edfica atrativa para as(os) jovens&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Sendo um personagem chave na nossa forma\u00e7\u00e3o escolar, como preparar professoras e professores para atrair mais os estudantes para os temas de ci\u00eancias e quais as especificidades do ensino de exatas?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil resumir e pontuar o processo de forma\u00e7\u00e3o inicial e continuada de professoras(es) que trabalham com o ensino das disciplinas classificadas no campo das exatas. E n\u00e3o cabe somente ao corpo docente essa tarefa de atrair jovens para o campo cient\u00edfico. Precisamos considerar o sistema como um todo, necessitando de incentivo por meio de pol\u00edticas p\u00fablicas, boas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, valoriza\u00e7\u00e3o da carreira cient\u00edfica e docente. Como atrair jovens para as Ci\u00eancias se tivermos ataques constantes e desmonte da Ci\u00eancia Brasileira? Como inspirar jovens para as Ci\u00eancias se o campo cient\u00edfico continuar sendo sexista, racista, elitista, excludente? Como despertar o interesse de crian\u00e7as e jovens se n\u00e3o temos boas condi\u00e7\u00f5es de trabalho nas escolas? Essas reflex\u00f5es precisam gerar a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas que tornem a carreira cient\u00edfica atrativa para as(os) jovens. As(os) professoras(es) s\u00e3o formadas(os) nos cursos de Licenciatura que, na maioria das institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias, contam com pouco apoio e s\u00e3o desvalorizados. A forma\u00e7\u00e3o docente nas Licenciaturas \u00e9 estrat\u00e9gica para o desenvolvimento de uma na\u00e7\u00e3o soberana, para a educa\u00e7\u00e3o de qualidade da popula\u00e7\u00e3o brasileira, incluindo a educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O ensino de exatas exige compreens\u00f5es te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas do campo espec\u00edfico das \u00e1reas (Qu\u00edmica, F\u00edsica, Matem\u00e1tica) e do campo pedag\u00f3gico. Esta forma\u00e7\u00e3o altamente especializada \u00e9 protagonizada por pesquisadoras(es) no campo do Ensino de Ci\u00eancias, uma \u00e1rea cient\u00edfica que ainda merece maior aten\u00e7\u00e3o, investimento e amplia\u00e7\u00e3o de contrata\u00e7\u00e3o nos cursos de Licenciatura, para que formemos professoras(es) com n\u00edvel de excel\u00eancia para atuarem nas escolas de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica.<\/p>\n<p><strong>Que mensagem voc\u00ea deixaria para pesquisadoras, meninas e mulheres que tem encontrado dificuldades em suas trajet\u00f3rias por conta da viol\u00eancia de g\u00eanero e discrimina\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Fortale\u00e7am-se em redes, busquem trabalhar com mulheres que te acolham, que te empoderem e te apoiem em suas decis\u00f5es. Denunciem as opress\u00f5es\/discrimina\u00e7\u00f5es\/viol\u00eancias sofridas e busquem pelas inst\u00e2ncias e pessoas que possam te auxiliar neste sentido. N\u00e3o aceitem que te impe\u00e7am de sonhar e de realizar seus sonhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Ci\u00eancia UFPR conversou com a professora do Departamento de Qu\u00edmica da UFPR, Camila Silveira da Silva. 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