{"id":22046,"date":"2022-11-30T07:00:57","date_gmt":"2022-11-30T10:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=22046"},"modified":"2024-02-07T16:12:35","modified_gmt":"2024-02-07T19:12:35","slug":"a-china-e-os-desafios-para-a-gestao-hidrica-na-atualidade-demian-castro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/a-china-e-os-desafios-para-a-gestao-hidrica-na-atualidade-demian-castro\/","title":{"rendered":"China, Brasil e os desafios para a gest\u00e3o h\u00eddrica na atualidade | Demian Castro"},"content":{"rendered":"<p>O desenvolvimento chin\u00eas das \u00faltimas d\u00e9cadas colocou o pa\u00eds em um lugar destacado na economia mundial. Apresentando taxas altas de crescimento sustentadas ao longo de v\u00e1rios anos, a China alcan\u00e7ou em 2010 o segundo lugar dentre as maiores economias do mundo, considerando o Produto Interno Bruto (PIB), lugar em que se manteve desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso significou um amplo desenvolvimento da agricultura, ind\u00fastria e com\u00e9rcio, al\u00e9m de um r\u00e1pido desenvolvimento urbano. Este crescimento refletiu num consumo cada vez maior de recursos. Nesse contexto a \u00e1gua aparece como um fator estrat\u00e9gico para a economia e tamb\u00e9m para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A escassez de \u00e1gua \u00e9 um problema mundial. Segundo <a href=\"https:\/\/news.un.org\/pt\/story\/2022\/04\/1787462\">um relat\u00f3rio<\/a> das Na\u00e7\u00f5es Unidas, 46% da popula\u00e7\u00e3o mundial continuava sem acesso a saneamento adequado em 2020 enquanto 2,2 bilh\u00f5es de pessoas n\u00e3o bebem \u00e1gua de fontes seguras.<\/p>\n<p>A gest\u00e3o desse recurso \u00e9 um fator priorit\u00e1rio nesse contexto. Segundo o rec\u00e9m-publicado artigo \u201c<a href=\"https:\/\/redibec.org\/ojs\/index.php\/revibec\/article\/view\/vol35-2-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Economia Pol\u00edtica da \u00e1gua na China e no Brasil<\/a>\u201d, do qual Castro \u00e9 coautor, os recursos h\u00eddricos tendem a ser cada vez mais disputados como um recurso natural de grande valor comercial, assim como o petr\u00f3leo. No estudo s\u00e3o analisados os modelos e desafios para a gest\u00e3o deste precioso recurso na China e Brasil.<\/p>\n<p>Conversamos sobre este e outros temas com um dos coautores do estudo, o economista e professor do Departamento de Economia e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Pol\u00edticas P\u00fablicas da UFPR, Demian Castro.<\/p>\n<p>Coordenador do Centro de Estudos Brasil-China, Castro tem se debru\u00e7ado desde 2013 sobre os aspectos marcantes da ascens\u00e3o do pa\u00eds asi\u00e1tico ao cen\u00e1rio das grandes pot\u00eancias e sua rela\u00e7\u00e3o com o Brasil. Ele tamb\u00e9m estuda os aspectos geopol\u00edticos da rela\u00e7\u00e3o China-Estados Unidos, a economia chinesa, o Estado chin\u00eas e o seu sistema de seguridade social, al\u00e9m de aspectos da cultura chinesa, como a literatura e filosofia.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as principais conclus\u00f5es que voc\u00eas tiveram no estudo sobre a gest\u00e3o da \u00e1gua na China e no Brasil? O que significa pensar a economia pol\u00edtica da \u00e1gua?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Por caminhos diferentes, Brasil e China, se defrontam na atualidade com problemas relacionados ao abastecimento de \u00e1gua. No caso do Brasil, cidades como S\u00e3o Paulo e Curitiba, apenas para citar dois exemplos, tiveram que adotar severas medidas de racionamento em raz\u00e3o de longos per\u00edodos de estiagem e quase esgotamento dos seus respectivos reservat\u00f3rios. Esse problema convive com defici\u00eancias cr\u00f4nicas nas \u00e1reas de saneamento b\u00e1sico, polui\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o e, n\u00e3o menos importante, um acesso extremamente desigual da popula\u00e7\u00e3o a estes servi\u00e7os. Apesar de ser considerado um pa\u00eds superavit\u00e1rio em recursos h\u00eddricos, os eventos dos \u00faltimos anos t\u00eam revelado um preocupante paradoxo de \u201cabund\u00e2ncia e escassez\u201d, tudo agravado por sinais eloquentes de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>No caso da China, a disponibilidade de recursos h\u00eddricos \u00e9 desigualmente distribu\u00edda no seu territ\u00f3rio de mais de nove milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados, quase metade desse territ\u00f3rio \u00e9 carente ou mal servido, obrigando desde tempos imemoriais a obras de transposi\u00e7\u00e3o. Como citado no artigo, atualmente existem tr\u00eas pontos no rio Yiangtz\u00e9 a partir dos quais foram constru\u00eddos canais com mais de mil quil\u00f4metros de extens\u00e3o, levando \u00e1gua para regi\u00f5es carentes. As mudan\u00e7as produtivas profundas, as elevadas taxas de crescimento e a acelerada urbaniza\u00e7\u00e3o tornaram ainda mais dram\u00e1tico o problema da disponibilidade h\u00eddrica.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio de tensionamento colocado pelo sucesso econ\u00f4mico, cabe assinalar o grave problema da contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua com metais pesados. Esta car\u00eancia estrutural explica uma boa parte da estrat\u00e9gia externa da China guiada pela busca de fontes de recursos naturais e mat\u00e9rias primas. Em s\u00edntese, dois gigantes para os quais a soberania e a gest\u00e3o dos recursos naturais, a \u00e1gua, s\u00e3o quest\u00f5es estrat\u00e9gicas que extrapolam meros c\u00e1lculos financeiros ou falsas op\u00e7\u00f5es \u201cp\u00fablico-privado\u201d. Sob a \u00f3tica da geopol\u00edtica internacional, com acelerada mudan\u00e7a clim\u00e1tica e for\u00e7as produtivas autonomizadas, a \u00e1gua (como o petr\u00f3leo) nos obrigam a pensar numa economia pol\u00edtica.<\/p>\n<blockquote><p>Talvez, n\u00e3o estejamos muito longe de um tempo de disputas ferozes, entre grandes pot\u00eancias, pelo acesso aos recursos h\u00eddricos.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os desafios enfrentados pela China em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua e como tem sido abordado esse tema no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> A China entende estrategicamente a necessidade de mudan\u00e7a do seu padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a \u00e1reas com maior conte\u00fado tecnol\u00f3gico vis \u00e0 vis a constru\u00e7\u00e3o de uma \u201cciviliza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d. Equilibrar as mudan\u00e7as estruturais, crescimento econ\u00f4mico, urbaniza\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de mega metr\u00f3poles, aumento do poder de compra ainda incrivelmente baixo da sua enorme popula\u00e7\u00e3o, requer elevadas formas de planejamento e condi\u00e7\u00f5es de resolu\u00e7\u00e3o de conflitos. Neste quadro, a \u00e1gua constitui um bem necessariamente ligado \u00e0s fun\u00e7\u00f5es estatais, sua car\u00eancia ou m\u00e1 qualidade tem o poder de implodir o tecido social. Por isso, a gest\u00e3o h\u00eddrica tem vindo acompanhada por elevada capacidade de realiza\u00e7\u00e3o de investimentos e a constru\u00e7\u00e3o de um complexo tecido institucional em condi\u00e7\u00f5es de elaborar e executar pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p><strong>E quanto ao Brasil?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> O Brasil possui uma institucionalidade razoavelmente desenvolvida, especialmente a partir da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, relativa \u00e0 gest\u00e3o democr\u00e1tica dos seus recursos h\u00eddricos em condi\u00e7\u00f5es de acolher ativamente as demandas da sociedade civil. Por outro lado, ao longo dos anos foi se perdendo a capacidade de planejamento e realiza\u00e7\u00e3o de investimentos em infraestrutura e, tomou-se mais e mais a \u201cparte pelo todo\u201d, acreditando que arranjos financeiros \u201cp\u00fablico- privado\u201d, \u201cparcerias\u201d, \u201cmais mercado\u201d, etc., dariam conta de quest\u00f5es estrat\u00e9gicas. Falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica dos recursos naturais e energ\u00e9ticos pelo Governo Federal e boa parte dos estados e munic\u00edpios, certamente n\u00e3o nos aproximam de uma boa navega\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><strong>A China investe muito no setor h\u00eddrico, especialmente em obras de transposi\u00e7\u00e3o e represas, esse modelo \u00e9 sustent\u00e1vel a longo prazo? N\u00e3o chegar\u00e1 um limite em que se dever\u00e1 pensar em uma perspectiva de economizar a \u00e1gua e um modelo mais ecologicamente sustent\u00e1vel? O que voc\u00ea pensa sobre isso?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 simples projetar no tempo a capacidade da China lidar com problemas econ\u00f4micos, sociais e ambientais, especialmente, considerando que o cen\u00e1rio internacional encontra-se numa fase de tens\u00e3o extrema que, certamente, tende a limitar as op\u00e7\u00f5es externas de qualquer pa\u00eds que venha a desafiar os poderes constitu\u00eddos. N\u00e3o h\u00e1 certeza quanto \u00e0 capacidade de superar o estrangulamento estrutural no setor h\u00eddrico, no entanto, seu sistema de planejamento e capacidade de financiamento, a colocam em condi\u00e7\u00f5es de evitar os piores cen\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>No artigo, voc\u00eas apontam uma diferen\u00e7a importante entre a gest\u00e3o h\u00eddrica no Brasil e na China, com o Brasil adotando medidas formalmente democr\u00e1ticas enquanto a China mant\u00e9m centrado no Estado. Quais os impactos dessa diferen\u00e7a e o que na sua opini\u00e3o poderia ser adotado para melhorar a gest\u00e3o h\u00eddrica em ambos os modelos?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Em princ\u00edpio, o car\u00e1ter \u201cdemocr\u00e1tico\u201d do arranjo regulat\u00f3rio do setor h\u00eddrico n\u00e3o tem se traduzido numa efetiva resolu\u00e7\u00e3o dos problemas no Brasil. A quest\u00e3o central, \u00e9 entender a quest\u00e3o h\u00eddrica como uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica, de Estado, ao qual cabe a fun\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel do planejamento e financiamento. Para al\u00e9m da quest\u00e3o ocidental da car\u00eancia democr\u00e1tica chinesa, este pa\u00eds mostra que tendo um projeto nacional \u00e9 poss\u00edvel construir o futuro.<\/p>\n<p><strong>O desenvolvimento da economia chinesa que observamos nas \u00faltimas d\u00e9cadas parece ser incompar\u00e1vel, poderia comentar a partir dos seus estudos quais foram os pontos principais para chegar a essas mudan\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> A China \u00e9 um pa\u00eds territorial e demograficamente imenso com mais de 9 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados e, tamb\u00e9m, mais de 1,3 bilh\u00e3o de habitantes. Este caldeir\u00e3o de experi\u00eancias \u00e9 longevo, entre quatro e cinco mil anos e, no s\u00e9culo XX, em 1949, teve uma revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa que realizou uma reforma agr\u00e1ria definitiva, no sentido da expropria\u00e7\u00e3o da oligarquia agr\u00e1ria e, fundamental, \u201cresolveu\u201d a quest\u00e3o nacional, permitindo que essa enorme nave conseguisse enfrentar as press\u00f5es das grandes pot\u00eancias e, entre 1980 e os dias de hoje, levar adiante um processo de desenvolvimento das suas for\u00e7as produtivas at\u00e9 atingir o topo do desenvolvimento industrial, como parte de um \u201cprojeto nacional\u201d de longo prazo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_24953\" aria-describedby=\"caption-attachment-24953\" style=\"width: 797px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IDE-Desalination-Plant-in-Tianjin-China.-Foto-Twitter-@idetechnologies-Reproducao.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-24953\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IDE-Desalination-Plant-in-Tianjin-China.-Foto-Twitter-@idetechnologies-Reproducao.png\" alt=\"\" width=\"797\" height=\"564\" srcset=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IDE-Desalination-Plant-in-Tianjin-China.-Foto-Twitter-@idetechnologies-Reproducao.png 797w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IDE-Desalination-Plant-in-Tianjin-China.-Foto-Twitter-@idetechnologies-Reproducao-300x212.png 300w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IDE-Desalination-Plant-in-Tianjin-China.-Foto-Twitter-@idetechnologies-Reproducao-768x543.png 768w, https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IDE-Desalination-Plant-in-Tianjin-China.-Foto-Twitter-@idetechnologies-Reproducao-150x106.png 150w\" sizes=\"(max-width: 797px) 100vw, 797px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24953\" class=\"wp-caption-text\">China j\u00e1 precisa investir em formas alternativas de obten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua. Na foto, planta de dessaliniza\u00e7\u00e3o em Tianjin. Foto: Twitter @idetechnologies\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>As reformas conduzidas pelo Estado, foram cruciais para \u201csemear\u201d a acumula\u00e7\u00e3o de capital em escalas incompar\u00e1veis. Elas partiram de uma leitura inteligente do cen\u00e1rio internacional que se abriu a partir da chamada era Reagan. A China aproveitou a relocaliza\u00e7\u00e3o mundial da ind\u00fastria rumo \u00e0 \u00c1sia (Jap\u00e3o e tigres asi\u00e1ticos). A abertura da sua extensa costa ao capital estrangeiro atrav\u00e9s das zonas especiais de exporta\u00e7\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o de um habitat de empresas multinacionais veio acompanhada de forte presen\u00e7a regulat\u00f3ria e produtiva estatal.<\/p>\n<p>O Estado conduziu a estrat\u00e9gia com forte presen\u00e7a de empresas estatais e um sistema de cr\u00e9dito totalmente p\u00fablico, privilegiou os investimentos produtivos em infraestrutura, bens de capital e de consumo, mantendo fechado seu balan\u00e7o de pagamento aos fluxos dos capitais especulativos internacionais. Seu projeto nacional transformou a China no epicentro da acumula\u00e7\u00e3o produtiva global.<\/p>\n<p><strong>Qual o papel do Estado chin\u00eas para estes resultados na economia?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Certamente central. O processo revolucion\u00e1rio chin\u00eas, a partir de 1949, permitiu a constru\u00e7\u00e3o de um forte Estado, sob o partido comunista. Com pleno dom\u00ednio das fun\u00e7\u00f5es financeiras e de cr\u00e9dito e, um robusto conjunto de empresas estatais, este complexo arco de atividades foi conduzido e formatado atrav\u00e9s do planejamento estatal.<\/p>\n<p><strong>Quais as caracter\u00edsticas que diferenciam a economia chinesa em compara\u00e7\u00e3o com as pot\u00eancias ocidentais e quanto aos pa\u00edses que n\u00e3o conseguem romper o ciclo do subdesenvolvimento?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> A experi\u00eancia chinesa refuta, de raiz, as ilus\u00f5es constru\u00eddas pelo neoliberalismo. Seu sucesso, em termos de desenvolvimento industrial, urbaniza\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de pobreza, nenhum pa\u00eds o alcan\u00e7ou depois dos anos setenta. Diferentemente do Jap\u00e3o, submetido a estagna\u00e7\u00e3o, as possibilidades de crescimento s\u00e3o muito amplas em decorr\u00eancia do seu largo e profundo mercado interno. Pol\u00edtica industrial ativa, controle sobre os instrumentos de cr\u00e9dito e um extenso n\u00famero de empresas estatais em setores chaves da concorr\u00eancia nacional e internacional, s\u00e3o alguns dos principais fatores a serem citados.<\/p>\n<p><strong>Muitos creditaram o sucesso chin\u00eas \u00e0 m\u00e3o de obra barata, poderia comentar sobre isso. \u00c9 apenas um mito?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">| <\/span><\/strong>Trata-se de uma verdade parcial relativa a um per\u00edodo que j\u00e1 passou, efetivamente, na d\u00e9cada dos oitenta, um dos grandes motivadores da atra\u00e7\u00e3o de empresas estrangeiras foram os baixos custos do trabalho, essa foi a \u00e9poca da manufatura 1,99. Mas a China n\u00e3o ficou por a\u00ed, sua estrat\u00e9gia foi deslocar o p\u00eandulo da acumula\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a setores com maior conte\u00fado tecnol\u00f3gico, o exame da composi\u00e7\u00e3o da exporta\u00e7\u00f5es chinesas mostra que, de fato, elas s\u00e3o cada vez mais dominadas por setores de maior conte\u00fado tecnol\u00f3gico. Mas, ainda a manufatura responde por uma parcela expressiva do emprego. De qualquer formar, os sal\u00e1rios reais tem aumentado, fazendo com que a China n\u00e3o seja mais competitiva no atributo \u201cm\u00e3o de obra barata\u201d, seus fundamentos hoje apontam para um fant\u00e1stico desenvolvimento tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>A China tem mantido diversas parcerias com pa\u00edses africanos, isso n\u00e3o pode levar a algum tipo de armadilha de endividamento, como vimos na rela\u00e7\u00e3o \u00c1frica e Europa Ocidental?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">| <\/span><\/strong>N\u00e3o podemos esquecer que estamos tratando de rela\u00e7\u00f5es entre espa\u00e7os nacionais. A China n\u00e3o imp\u00f5e o endividamento, ela encontra autoridades nacionais em condi\u00e7\u00f5es de estabelecer ou negociar condicionalidades. No caso a armadilha principal n\u00e3o \u00e9 do endividamento mas, como diria o mestre Celso Furtado, do subdesenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>A China lan\u00e7ou um projeto ambicioso, que pretende estabelecer novas parcerias e ampliar a presen\u00e7a do pa\u00eds na economia mundial, conhecido como Nova Rota da Seda, como o professor v\u00ea esse projeto e quais os impactos dele para o futuro?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> O <em>Belt and Road Iniciative<\/em> \u00e9 um projeto extremamente ambicioso do governo chin\u00eas, especialmente orientado para a Eur\u00e1sia. Certamente o acirramento dos conflitos e a postura dos EUA, tende a jogar obst\u00e1culos \u00e0 iniciativa. Claramente, os EUA far\u00e3o todo o poss\u00edvel para destruir as ambi\u00e7\u00f5es internacionalistas chinesas. Observe-se que a China prop\u00f5e um tipo de rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica colaborativa que os EUA s\u00f3 praticaram no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial com o plano Marshall, mas n\u00e3o est\u00e3o mais dispostos a fazer isto: seu poder \u00e9 exercido pelo caminho militar, guerras h\u00edbridas e, o que alguns analistas chamam de \u201cd\u00f3lar- bomba\u201d. Dentro de uma nova espacialidade institucional sul-sul, iniciativas como a BRI e a dos BRICS, s\u00e3o op\u00e7\u00f5es estrategicamente importantes para pa\u00edses como Brasil e Argentina.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea caracterizaria as rela\u00e7\u00f5es Brasil \u2013 China na atualidade?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">| <\/span><\/strong>O atual ciclo de governo tem sido nefasto em termo de rela\u00e7\u00f5es exteriores e de pol\u00edtica externa. Particularmente com a China, foi quase que vergonhoso o n\u00edvel primitivo que prevaleceu. Neste sentido, os chineses, apoiados em sua longevidade, s\u00e3o capazes de esperar (e por muito tempo) a ocorr\u00eancia de mudan\u00e7as, mantendo a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica dos potenciais parceiros.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante retomar a capacidade de implementar politicas multilaterais e aproveitar as m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es do atual cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p><strong>Chega at\u00e9 n\u00f3s por v\u00e1rio meios e por diversos motivos uma diversidade de informa\u00e7\u00f5es sobre a China que buscam desabonar o pa\u00eds, especialmente em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho, voc\u00ea poderia comentar um pouco o que acha disso?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">| <\/span><\/strong>Ningu\u00e9m deve esperar muito das plataformas produtivas atuais, principalmente, no que se refere ao mundo do trabalho. O governo chin\u00eas est\u00e1 trabalhando firme para construir uma estrutura p\u00fablica de sal\u00e1rios indiretos na forma de uma seguridade social universal e de qualidade, os resultados na redu\u00e7\u00e3o da pobreza extrema tem muito a ver, tamb\u00e9m, com isso. \u00c9 muito mais recomendado assumir a enorme complexidade dos processos que ocorrem na China, do que cair em clich\u00e9s desabonadores.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia o tratamento que a m\u00eddia brasileira d\u00e1 sobre esses temas? A imagem da China retratada pelo jornalismo brasileiro corresponde \u00e0 realidade?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Esta pergunta \u00e9 bem sens\u00edvel, n\u00e3o apenas no Brasil mas em toda Am\u00e9rica Latina. Voltemos ao Brasil, infelizmente, como leitor obcecado por informa\u00e7\u00f5es sinto que h\u00e1 muito tempo a m\u00eddia n\u00e3o se interessa em desvendar a realidade nacional e internacional. Seu apego ao neoliberalismo econ\u00f4mico vai na contram\u00e3o do que muitos pa\u00edses capitalistas passaram a descobrir durante a pandemia: sim, \u00e9 necess\u00e1rio acabar com o mantra da austeridade e injetar dinheiro na economia, nas pessoas, e manter sistemas de sa\u00fade p\u00fablicos robustos. A m\u00eddia n\u00e3o se interessa em mostrar aspectos da vida, do dia a dia, da China.<\/p>\n<p><strong>Vimos que a China foi um dos pa\u00edses que teve melhores resultados no combate \u00e0 pandemia de covid-19? O que na sua opini\u00e3o trouxe esse impacto? Como a popula\u00e7\u00e3o encarou as medidas de restri\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">|<\/span><\/strong> Todos os sanitaristas e epidemiologistas apontam que numa epidemia \u00e9 necess\u00e1rio tomar medidas de controle extremo da popula\u00e7\u00e3o, similares a uma \u201ceconomia de guerra\u201d, para evitar a propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Neste sentido, esse aspecto explica a forma como o governo chines enfrentou a pandemia: n\u00e3o ouve vacila\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 decis\u00e3o de realizar um <em>lockdown<\/em>. Ao mesmo tempo, rapidamente disponibilizou unidades de sa\u00fade para os mais diversos tipos de interna\u00e7\u00e3o, inclu\u00eddas UTI\u2019s. Por outro lado, mesmo sentindo os impactos negativos decorrentes da paralisa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, buscou-se providenciar o sustento material da sociedade. Deve apontar-se, que em nenhum lugar do mundo a popula\u00e7\u00e3o aceita sem maiores problemas a restri\u00e7\u00e3o de movimentos. Os novos surtos registrados em Xanghai mostraram que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o aceitava as medidas de isolamento. Finalmente, \u00e9 poss\u00edvel dizer que, em geral, a popula\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica \u00e9 mais disciplinada que a ocidental e que, pa\u00edses como Cingapura, Coreia do Sul e Jap\u00e3o trilharam caminhos similares ao chin\u00eas.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m de estudar o pa\u00eds, voc\u00ea tamb\u00e9m tem buscado conhecer a cultura chinesa. Na sua opini\u00e3o, h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre este tema e o desenvolvimento chin\u00eas que temos visto nas \u00faltimas d\u00e9cadas?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">| <\/span><\/strong>Com certeza, o sucesso ou insucesso de um pa\u00eds em rela\u00e7\u00f5es aos seus caminhos est\u00e3o intimamente ligados ao legado cultural que pode explicar uma parte importante dos comportamentos sociais. Um s\u00e1bio como Conf\u00facio, de antes da era crist\u00e3, ainda \u00e9 atual e permite explicar muitas das vicissitudes do mundo chin\u00eas.<\/p>\n<p><strong>O atual sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico chin\u00eas nasceu numa \u00e9poca de grandes conflitos e s\u00e3o marcados pela vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o chinesa, que teve forte car\u00e1ter anticolonial e nacionalista, al\u00e9m da defesa do socialismo. Como voc\u00ea enxerga o papel desse per\u00edodo nos desdobramentos que vemos na atualidade?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">| <\/span><\/strong>Creio que ao longo das \u00faltimas perguntas fomos jogando luz nestas quest\u00f5es, de qualquer forma, vale ressaltar, que a revolu\u00e7\u00e3o permitiu exercer a soberania e desenvolver um projeto nacional de longo prazo. Os fundamentos socialistas possibilitam conectar a centralidade do partido com a necessidade de atender as demandas sociais. Isto, obviamente, n\u00e3o elimina a enormidade de conflitos que uma sociedade numerosa e envelhecida coloca no dia a dia, expressando as nuances de uma quest\u00e3o social em r\u00e1pida muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Desde a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ver diferentes fases do desenvolvimento chin\u00eas? Na sua opini\u00e3o este \u00e9 um processo unit\u00e1rio ou houve mudan\u00e7as significativas de orienta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>DC <span style=\"color: #cf6777;\">| <\/span><\/strong>Houve muitas mudan\u00e7as de orienta\u00e7\u00e3o e intensas lutas entre diversos grupos pol\u00edticos. A partir de Deng Xiao Ping houve uma dr\u00e1stica inflex\u00e3o, no que para os incautos seria a derrota da revolu\u00e7\u00e3o para o capitalismo, Deng enfrentou os radicais [que teriam levado a China a um desmoronamento como a URSS] e os conservadores, que o consideravam um traidor dos ideais mao\u00edstas e da revolu\u00e7\u00e3o. Mas ele alertou que o socialismo n\u00e3o se sustentaria distribuindo pobreza, que era necess\u00e1rio aumentar a riqueza per capita. As in\u00fameras mudan\u00e7as mostram, at\u00e9 agora, um processo de desenvolvimento com enorme capacidade de inova\u00e7\u00e3o institucional sem abandonar as diretrizes do projeto nacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O desenvolvimento chin\u00eas das \u00faltimas d\u00e9cadas colocou o pa\u00eds em um lugar destacado na economia mundial. 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