{"id":15897,"date":"2018-08-13T00:31:00","date_gmt":"2018-08-13T03:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/?p=15897"},"modified":"2023-11-11T02:58:45","modified_gmt":"2023-11-11T05:58:45","slug":"o-resgate-de-concepcoes-filosoficas-amerindias-e-seus-paralelos-ocidentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/o-resgate-de-concepcoes-filosoficas-amerindias-e-seus-paralelos-ocidentais\/","title":{"rendered":"A decolonialidade viva na filosofia amer\u00edndia | Marco Ant\u00f4nio Valentim"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 primeira vista, a palavra \u201cmundo\u201d faz pensar em algo abrangente, literal e figurativamente. O professor Marco Antonio Valentim, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), explica, por\u00e9m, que ocidentais desenvolveram um conceito de \u201cmundo\u201d muito mais restrito. Religi\u00f5es e filosofia descrevem o mundo como essencialmente a vida humana; ou seja, \u00e9 uma forma de separar a humanidade do restante dos seres vivos e do planeta. Mas o grande \u201cmundo\u201d ainda existe na vis\u00e3o de outras culturas, como as amer\u00edndias, que n\u00e3o costumam separar ser humano e ambiente.<\/p>\n<p>Valentim usou esse contraste para pensar a situa\u00e7\u00e3o da filosofia ocidental em meio \u00e0 diverg\u00eancia entre mundos e suas respectivas hist\u00f3rias. Esse \u00e9 o tema do livro \u201cExtramundanidade e sobrenatureza: ensaios de ontologia infundamental\u201d (Ed. Cultura e Barb\u00e1rie), lan\u00e7ado em junho.<\/p>\n<blockquote class=\"alignright\"><p>&#8220;Impor o estudo dos chamados cl\u00e1ssicos como condi\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica \u00e9 um expediente colonial&#8221;<\/p>\n<footer><cite><a title=\"Author title\" href=\"#temp_url\">Marco Ant\u00f4nio Valentim, professor do Departamento de Filosofia da UFPR<\/a><\/cite><\/footer>\n<\/blockquote>\n<p>\u201cO livro \u00e9 resultado de alguns anos de pesquisa sobre a diverg\u00eancia entre a filosofia ocidental moderna e o pensamento xam\u00e2nico amer\u00edndio, com foco no conceito de mundo\u201d, diz o pesquisador. \u201cA ideia era mostrar como, nos dois casos, o conceito de mundo \u00e9 determinado pelo modo como se pensa e experimenta a diferen\u00e7a entre humanidade e n\u00e3o-humanidade\u201d.<\/p>\n<p>Valentim contrap\u00f5e as filosofias de Heidegger e Kant a um conjunto de etnografias, al\u00e9m da obra de Davi Kopenawa e Bruce Albert, \u201cA queda do c\u00e9u: palavras de um xam\u00e3 yanomami\u201d. O livro de Valentim foi lan\u00e7ado na UFPR em um debate do qual participaram os professores Alexandre Nodari (Letras) e Miguel Carid Naveira (Antropologia).<\/p>\n<p>Na entrevista abaixo, o professor fala mais sobre o exerc\u00edcio de questionar o conceito antropoc\u00eantrico de \u201cmundo\u201d:<\/p>\n<p><strong>Antes de tudo: no seu entender, no que o conceito de \u201cmundo\u201d influenciou a vida no Ocidente quanto a costumes, leis, estruturas comunit\u00e1rias e etc.?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>De origens religiosas e filos\u00f3ficas, o conceito de mundo \u00e9 um dos mais importantes na tradi\u00e7\u00e3o ocidental, pois ele estabelece os limites que separam a humanidade dos demais viventes. Mundo, em sentido ocidental, \u00e9 o espa\u00e7o-tempo em que transcorre a vida humana. A influ\u00eancia desse conceito em costumes, leis, estruturas comunit\u00e1rias e pol\u00edticas \u00e9 imensur\u00e1vel. Tomem-se, por exemplo, a moral, o direito e a cidade: o que seriam delas, tais como as conhecemos at\u00e9 hoje, se a diferen\u00e7a entre humanidade e n\u00e3o-humanidade n\u00e3o fosse pensada como uma barreira, mas como uma passagem? Essas institui\u00e7\u00f5es seriam sem d\u00favida totalmente outras, se os animais n\u00e3o-humanos fossem considerados como verdadeiros agentes, co-constituintes do nosso mundo. Isso alteraria profundamente o mundo em que vivemos desde nossa legisla\u00e7\u00e3o at\u00e9 nosso regime alimentar.<\/p>\n<p><strong>Por que a filosofia (l\u00ea-se filosofia ocidental) \u00e9 uma \u00e1rea de conhecimento t\u00e3o firmada em \u201ccl\u00e1ssicos\u201d e o que faz um \u201ccl\u00e1ssico\u201d nela? Avalia que as origens dos autores se refletem nessas defini\u00e7\u00f5es?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Creio que isso tem a ver, certamente, com certo de regime de domina\u00e7\u00e3o que caracteriza a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental em seu todo. Pense-se, por exemplo, na rela\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica entre mestre e disc\u00edpulo. Mas \u00e9 algo que se acirra maximamente com a \u00e9poca moderna, caracterizada pelo conceito de hist\u00f3ria e pela institui\u00e7\u00e3o colonial. A hist\u00f3ria pressup\u00f5e tanto mestres, que devem ser imitados, de um lado, e subalternos, a serem dominados, de outro. Em testemunho disso, \u00e9 o caso de considerar o quanto um cl\u00e1ssico \u00e9 tanto mais dominante como cl\u00e1ssico na col\u00f4nia que na metr\u00f3pole. Nesse sentido, \u00e9 evidente como a origem dos cl\u00e1ssicos \u00e9 predominantemente europeia. Impor o estudo dos assim chamados cl\u00e1ssicos como condi\u00e7\u00e3o de primeira ordem para a forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica \u00e9, sem d\u00favida, um expediente colonial.<\/p>\n<p><strong>Por que os cl\u00e1ssicos adotaram um ponto de vista antropoc\u00eantrico de mundo? Por que pontos de vista contr\u00e1rios recebem pouco espa\u00e7o no ensino e na pesquisa?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o \u00e9 super complexa. H\u00e1, sobretudo, raz\u00f5es de ordem m\u00edtica para tanto, que dizem respeito aos afetos que comandam a situa\u00e7\u00e3o na qual os humanos, ou aqueles que se consideram como tais, se colocam perante seus outros, n\u00e3o-humanos e sub-humanos, no mundo. L\u00e9vi-Strauss, que \u00e9 um pensador europeu que teve seu pensamento transformado pelo contato com uma tradi\u00e7\u00e3o totalmente outra, amer\u00edndia, concebe a filosofia, especialmente em seu desenvolvimento moderno, como o \u201cmito da dignidade exclusiva da natureza humana\u201d, entendendo que esse mito exprime fundamentalmente um \u201camor-pr\u00f3prio\u201d. Tal afeto narc\u00edsico desencadeia, segundo ele, o especismo e o racismo que caracterizam o \u201cciclo maldito\u201d da modernidade, a separar os humanos dos outros animais e segregar os humanos entre si.<\/p>\n<figure id=\"attachment_15899\" aria-describedby=\"caption-attachment-15899\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-15899\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/valentim__-1024x576.jpg\" alt=\"Marco Ant\u00f4nio Valentim, professor do Departamento de Filosofia da UFPR. 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At\u00e9 hoje os efeitos disso se fazem sentir no ensino e na pesquisa em filosofia, tanto mais na medida em que a consci\u00eancia filos\u00f3fica procura se manter \u00e0 parte de outras formas de pensamento e discurso que souberam criticar aquele amor-pr\u00f3prio. \u00c9 not\u00e1vel, por exemplo, como a ideia de consci\u00eancia animal ainda causa esc\u00e2ndalo na filosofia oficial, quando todo um conjunto de ci\u00eancias j\u00e1 opera h\u00e1 tempos a partir da aceita\u00e7\u00e3o desse dado fundamental. Aceit\u00e1-lo, no caso da filosofia, significaria sem d\u00favida transformar radicalmente o mundo autocentrado da filosofia, rompendo-se com aquele mito fundador.<\/p>\n<p><strong>As concep\u00e7\u00f5es amer\u00edndias t\u00eam um correlato atualmente na filosofia ocidental?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, com certeza. N\u00e3o s\u00f3 concep\u00e7\u00f5es amer\u00edndias, mas tamb\u00e9m de outros povos extramodernos. Isso acontece por via de v\u00e1rios saberes e disciplinas, como as artes, a antropologia e at\u00e9 mesmo algumas ci\u00eancias, como a etologia. No caso da teoria da comunica\u00e7\u00e3o, cabe mencionar as contribui\u00e7\u00f5es de Bruno Latour, outro pensador bastante influenciado pelo que outros saberes, al\u00e9m da filosofia, aportam. A ideia de \u201cpensar em rede\u201d for\u00e7a necessariamente uma cr\u00edtica do antropocentrismo: se o pr\u00f3prio ser humano \u00e9 um ator em rede com outros atores, n\u00e3o cabe mais pensar a condi\u00e7\u00e3o humana unicamente por rela\u00e7\u00e3o a si mesma, mas como constitu\u00edda por rela\u00e7\u00f5es complexas com seres n\u00e3o-humanos, sejam eles vivos ou n\u00e3o-vivos, t\u00e9cnicos ou naturais.<\/p>\n<p><strong>Que consequ\u00eancias para a filosofia podem vir dessas compara\u00e7\u00f5es com fil\u00f3sofos assim n\u00e3o intitulados?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Consequ\u00eancias, sem d\u00favida, dr\u00e1sticas. Isso significa o fim de uma hist\u00f3ria relativamente longa, ou ainda, o fim da pr\u00f3pria Hist\u00f3ria. Se horizontalizarmos a rela\u00e7\u00e3o da filosofia ocidental com outros saberes, ocidentais e n\u00e3o-ocidentais, \u201ctradicionais\u201d ou n\u00e3o, as transforma\u00e7\u00f5es seriam bastante profundas (ou melhor, j\u00e1 s\u00e3o, pois isso est\u00e1 acontecendo em escala cada vez maior). Pense-se, por exemplo, nas consequ\u00eancias para a hist\u00f3ria da filosofia: se a geografia for finalmente considerada como fator determinante da produ\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, contrariando assim a suposta universalidade de uma s\u00f3 tradi\u00e7\u00e3o, multiplicar-se-iam exorbitantemente as hist\u00f3rias da filosofia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_15902\" aria-describedby=\"caption-attachment-15902\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-15902\" src=\"https:\/\/ciencia.ufpr.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/925431-flip_paraty_rj_0344-1024x576.jpg\" alt=\"O xam\u00e3 ianom\u00e2mi Davi Kopenawa na Flip, em 2014: reconhecimento como fil\u00f3sofo reverte vis\u00f5es colonizadoras, afirma Valentim. 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Foto: Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em sentido bastante concreto, os curr\u00edculos universit\u00e1rios da \u00e1rea teriam de ser, e j\u00e1 come\u00e7am a s\u00ea-lo, totalmente alterados, com a inclus\u00e3o de outros mundos de pensamento al\u00e9m do ocidental-europeu-moderno, como objetos de estudo com igual import\u00e2ncia. N\u00e3o faria mais sentido (n\u00e3o faz mais sentido!) compreender, por exemplo, os fundamentos da subjetividade moderna apenas por recurso \u00e0s medita\u00e7\u00f5es dos fil\u00f3sofos. Seria necess\u00e1rio relacionar a emerg\u00eancia do \u201ccogito\u201d cartesiano \u00e0 invas\u00e3o do Novo Mundo como sendo um de suas condi\u00e7\u00f5es fundamentais: o \u201cPenso logo existo\u201d seria uma esp\u00e9cie de rea\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s extremamente negativa, ao encontro com a alteridade radical de outros povos. Pensando contemporaneamente, o reconhecimento de Davi Kopenawa, xam\u00e3 ianom\u00e2mi, talvez o pensador mais importante hoje no Brasil, como fil\u00f3sofo significaria uma revers\u00e3o dr\u00e1stica do regime colonial que ainda persevera no meio filos\u00f3fico acad\u00eamico brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea escolheu contrapor o pensamento amer\u00edndio a fil\u00f3sofos ocidentais que t\u00eam suas pol\u00eamicas pelo conte\u00fado racista de alguns escritos. Foi proposital ou \u00e9 porque s\u00e3o cl\u00e1ssicos? <\/strong><\/p>\n<p>Acho que foi inevit\u00e1vel. Em primeiro lugar, porque seria realmente dif\u00edcil estabelecer uma tal contraposi\u00e7\u00e3o sem tomar por refer\u00eancia um fil\u00f3sofo de inclina\u00e7\u00e3o racista. Entre os principais \u201ccl\u00e1ssicos\u201d, \u00e9 dif\u00edcil encontrar um que n\u00e3o o seja. Em segundo lugar, essa escolha se deve \u00e0 minha pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o, pois Heidegger e Kant foram pilares dela, e isso n\u00e3o \u00e9 nenhuma exce\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a escrita do livro, com o estudo que ela exigiu, foi para mim, pessoalmente, uma esp\u00e9cie de \u201cexorcismo\u201d especulativo. Para encontrar, ou reencontrar, um pensamento realmente outro, capaz de abalar as estruturas do nosso mundo por sua diferen\u00e7a, era preciso atravessar os subterr\u00e2neos (nem t\u00e3o profundos assim) da nossa forma\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m poderia objetar dizendo que isso prova a relev\u00e2ncia dos cl\u00e1ssicos\u2026 Mas eu ousaria dizer que \u00e9 um caminho sem volta. Uma despedida mesmo.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">\u21aa Publicado originalmente no Portal da UFPR (www.ufpr.br).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 primeira vista, a palavra \u201cmundo\u201d faz pensar em algo abrangente, literal e figurativamente. 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