Depois de aposentadoria, em 1969, Holanda manteve-se atuante na vida política e cultural de São Paulo e dedicou parte do tempo a revisar sua obra como historiador e sociólogo. Na foto, em sua casa em 1982. Foto: Maria do Carmo Buarque de Holanda/Siarq/Unicamp
Depois de aposentadoria, em 1969, Holanda manteve-se atuante na vida política e cultural de São Paulo e dedicou parte do tempo a revisar sua obra como historiador e sociólogo. Na foto, em sua casa em 1982. Foto: Maria do Carmo Buarque de Holanda/Siarq/Unicamp

Não por acaso existem até o presente momento 26 edições de Raízes do Brasil, a principal obra do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), lançada em 1936. A atual tendência de reedições críticas de clássicos da história e da sociologia brasileiras é apenas parte da explicação. Uma parcela dessas edições (cinco, para ser exato) foi feita pelo próprio autor, cuja biografia revela eterna insatisfação com o seu principal livro.

Esse contínuo processo de rever e reescrever o próprio trabalho ao longo da vida é um dos temas mais significativos da história de Holanda e um dos pontos de partida da tese de doutorado “Sérgio Buarque de Holanda, do mesmo ao outro: escrita de si e memória (1969-1986)“, defendida pelo professor Raphael Guilherme de Carvalho no Programa de Pós-Graduação em História (PPGHis) da UFPR. O trabalho recebeu menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2018.

Das 26 edições de sua obra principal, o autor esteve à frente de cinco, sempre interessado em rebater críticas

A intenção de Holanda não era somente melhorar a obra em que apresenta sua teoria sobre a cultura brasileira. O intelectual queria, antes de tudo, se explicar. É em Raízes que ele apresenta o conceito de “homem cordial”, uma alegoria feita para descrever o brasileiro que foi a origem da sua fama e da sua inquietação.

“Principalmente nos anos 70 o ‘homem cordial’ é visto como uma expressão de ideologia conservadora que mascara a sociedade brasileira, por ser muito violenta, com racismo e disputa de classes”, explica Carvalho. A interpretação toca profundamente o historiador que (preocupado que era com a sua própria biografia) procura rebatê-la em entrevistas, crônicas e prefácios.

O pesquisador avalia que, a despeito do fato de que nenhum autor deve ser isento de críticas, incorre em erro quem transpõe uma obra do passado para o tempo presente para daí analisá-la. “Uma revisão politicamente correta não é justa com os autores porque obras têm historicidade, contexto”, acredita. “Ele repete desde os anos 40 que o termo era uma alusão ao fundo emotivo do brasileiro, não a bondade”.

Nisso, Holanda teve ajuda de um grande amigo, o crítico literário Antonio Cândido (1918-2017), que escreveu com todas as letras no prefácio da quarta edição de Raízes, de 1963: “não se trata, esclarece o Autor, de ‘homem bondoso’, mas do que empresta a todas as relações a tonalidade afetiva, mesmo quando o coração está seco”.

Tese se dedica a historicizar as auto-revisões do autor

Com base em tudo que leu de Holanda sobre Holanda, uma vez que o historiador, como mencionado, dedicou boa parte do tempo de sua aposentadoria para uma auto-avaliação, Carvalho chegou a uma definição mais buarquiana do “homem cordial”.

Carvalho descreve sua tese como “uma historização desse material de autocrítica”. O interesse por Holanda surgiu na graduação em História, quando assistiu ao filme Raízes do Brasil, um documentário dirigido por Nelson Pereira dos Santos lançado em 2004. Foi assim que começou a ler Holanda e perceber suas diversas fases como historiador — e um dos bem incomuns, visto que obteve reconhecimento quase imediato e ainda em vida.

“Acredito que uma revisão politicamente correta não é justa com os autores porque obras têm historicidade, contexto”

Raphael Guilherme de Carvalho, doutor em História pela UFPR com a tese “Sérgio Buarque de Holanda, do mesmo ao outro: escrita de si e memória (1969-1986)”

O trabalho de doutorado foi desenvolvido no âmbito do grupo de pesquisa “História Intelectual, História dos Intelectuais e Historiografia”, do CNPq, que tem sede na UFPR.

De acordo com o orientador do trabalho no PPGHis, o professor Renato Lopes Leite, os estudos do grupo envolvem o uso de diversas áreas e escolas de Ciências Humanas para investigar histórias, visões e legados de intelectuais, brasileiros ou não. A tese teve como orientador, no Institut d’Histoire du Temps Présent, o historiador francês François Dosse, especialista em História dos Intelectuais.

Críticas ao “clássico” na academia começaram nos anos 60-70

Depois de se aposentar como professor da cátedra de História da Civilização Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), em 1969, Holanda aprofundou o seu interesse nas artes, mas não deixou de participar da vida pública e de palpitar sobre as coisas do Brasil nos seus escritos.

Segundo Leite, o acompanhamento da pesquisa fez com que ele mesmo revisitasse sua visão sobre Sérgio Buarque de Holanda. “Ele escreveu um desses livros difíceis, densos, que geram diversas interpretações diferentes. Quando eu era estudante universitário em Brasília nos anos 80, falava-se do Holanda como um conservador. Acredito que fosse porque havia uma influência grande dos marxistas nas áreas de Humanas, o que mudou a partir da Queda do Muro de Berlim [1989], quando outras linhas culturais se tornaram dominantes”.

Carvalho registra que essa disposição encontrou um campo minado em plena ditadura militar: tratava-se de um autor clássico — adjetivo não muito lisonjeiro na época — em um campo conflituoso, com muitos dispostos a contestar autoridades estabelecidas. E ele era uma, representante de outra geração e chamado de “Velho Mestre” pela imprensa.

Também abordada no trabalho, uma faceta importante da biografia de Holanda é que ele fez parte da vida boêmia de São Paulo. Sua casa na Rua Buri, 35, era ponto de encontro de escritores, músicos e atores, frequentada por Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Jorge Amado e Florestan Fernandes. Essa é uma das várias “mitologias individuais” de Holanda, descritas por Carvalho: boêmio erudito, catedrático convencional e “pai do Chico”, no caso, o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, mais famoso do que o pai já aos 20 anos.

📖 Publicado originalmente na Revista Ciência UFPR (V. 4, nº 5, 2019).
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